Há muitos anos, no tempo longínquo e luminoso da nossa juventude, minha melhor amiga e eu tivemos, durante dois ou três meses, aulas de italiano com um misterioso professor que apareceu na pequena cidade da fronteira, sempre acompanhado por uma bela mulher, que ele apresentava como sua irmã. Seu nome sonoro era Gherlando Mazza. Muito educado, erudito e culto, o homem era um classicista que nos encantou sempre porque além de nos dar noções de gramática e de corrigir pacientemente a nossa pronúncia, lia ou recitava poemas não só em italiano, às vezes até mesmo em latim. E eis que um dia ele citou dois versos que eu entendi que eram de Ovidio e que refletiam o sentimento muito moderno de uma certa angústia ou inquietação, ou mais propriamente, da nossa humana incompletude. Eu nunca soube as palavras latinas, mas a ideia que jamais esqueci foi de algo como: há qualquer coisa de incompleto por trás do meu coração / Sempre… E na voz abaritonada e solene do nosso professor, o semper em latim soou e ressoou trágico e comovente ao extremo.
Poucos dias depois da aula em que ouvíramos aqueles versos tristes, o professor Mazza e sua companheira desapareceram da cidade. Surpresas e inconsoladas, procuramos os italianos no hotel em que se hospedavam, mas ninguém soube dizer para onde tinham ido. E muito românticas, minha amiga e eu chegamos a imaginar que afinal se tratava de um casal de fugitivos, possivelmente perseguidos por um pai cruel, ou que talvez a “falsa irmã” fosse uma mulher casada que escapara do marido com o amante – o nosso professor! – para legalizar a união no Uruguai onde, muito antes do Brasil e da Itália, como se sabe, já havia divórcio. E só teriam permanecido alguns meses no lado brasileiro da fronteira porque aguardavam os papéis que os salvariam.
O fato é que nunca mais soubemos deles. Durante muitos anos, procurei os versos de Ovidio, mas eu lembrava apenas vagamente algumas palavras como quoddam e praecordia ou praecordis e o meu inexistente latim jamais ajudou, é claro. Só tinha certeza do trágico Semper… E chegara à conclusão de que aqueles versos haviam expressado a própria condição humana séculos antes do existencialismo de Sartre, ou de tudo o que nos comunica Fernando Pessoa em seu genial poema Tabacaria.
Aconteceu que muitos, muitos anos mais tarde, numa curta temporada que passei em São Paulo, um dia fui fazer uma compra na avenida São João e, numa esquina, quase esbarro num senhor que era ninguém menos do que Gherlando Mazza!
– Professor! Como está o senhor? Fez-me alguma festa e convidou-me para um cafezinho. Conversamos pouco, achei-o um tanto constrangido e com muita pressa. Só quando nos despedimos foi que lembrei de falar nos versos que graças a ele me acompanhavam há tantos anos.
– Professor, em que obra de Ovidio devo procurar? Ele sorriu e já se afastando na rua barulhenta e cheia de gente, limitou-se a dizer:
– Mas não era Ovídio, era Petrarca! E mais uma vez Gherlando Mazza simplesmente desapareceu.