CONTOS & CRÓNICAS – “Voa, voa meu coração!” – por Joaquim Palminha Silva

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In Memoriam

Antoine de Saint-Exupéry

«A minha civilização, herdeira de Deus, tornou cada homem responsável por todos os homens e todos os homens responsáveis por cada homem.»

  1. Piloto de Guerra.

            O «Breguet» de dois convéns, avião da pequena companhia de transporte de correio, «Sul América Aeropostal», acabou de ganhar altura e subir ao céu no aeródromo de Assunción (Paraguai). Daniel, o piloto, olhou com tédio como se transformavam em miniaturazinhas as avenidas orladas de árvores, os grandes edifícios coloniais do século XIX usados pelos sucessivos e despóticos governos, em torno da «Plaza de los Héroes» e, depois, a própria cidade que desaparecia da sua vista sem saudades, para sobrevoar um imenso verde na superfície da terra, lá em baixo, no território do Grande Chaco, até passar a fronteira da Bolívia e, sobretudo, o Lago Titicaca, os relevos rugosos das montanhas e regiões que o faziam mergulhar em fantasias sobre civilizações perdidas, outros apocalipses antes da última guerra na Europa (1914-1918) que, uma vez terminada, o havia lançado no desemprego e empurrado para aquela aventura sul-americana, onde ainda havia lugar para um ex-piloto de guerra português (ao serviço numa esquadrilha francesa), com doses substanciais de medo…e um salário surpresa ao fim-de-semana!

            Até ao próximo aeródromo da escala, onde tinha de entregar e tomar encomendas postais, havia milhares de quilómetros para voar… Daniel percorria duas vezes por semana a rota de correio aéreo entre Assunción e Lima (Peru)… Dois mil e setecentos quilómetros em voo de condor, ao comando de um dos mais rápidos mas também imprevisíveis pequenos aviões comerciais, invenção do engenheiro e aviador francês Louis Breguet. Avião com lugar para seis passageiros, quase sempre desocupados.

            Naqueles anos entre-as-duas-guerras começavam-se a reconhecer as multifacetadas riquezas da região andina… Aventureiros profissionais, pioneiros nazis em busca de lendas e minas fantasmagóricas, mercenários desempregados, agentes de companhias petrolíferas e outras, disfarçados de missionários, antropólogos, botânicos e arqueólogos, todos a imaginarem a descoberta do El Dorado, talvez não exactamente como na lenda, porque entretanto provocados com a descoberta recente (1911), pelo arqueólogo Hiram Bingham, da cidade Inca abandonada de Machu-Pichu

             Daniel desviava-se sempre da rota sem necessidade, de forma a sobrevoar os altos de Madre de Dios e as ruínas de Machu-Pichu só para lhe render homenagem, sentindo um estranho e cristalizado arrepio de morte e mistério percorrer-lhe a espinha… A muita memória das ruínas europeias, levava-o a pensar nas populações marcadas pela pobreza, na inusitada descoberta de civilizações milhares de anos mais antigas que os Incas, tudo misturado com a humidade amazónica, os espaços desérticos da faixa costeira a norte dos Andes, as montanhas da província de Cuzco, os vales férteis e, absurdo dos absurdos, o edifício da Câmara Municipal da recém-nascida cidade de Iquitos, projectado pelo mesmo Gustave Eiffel (1832-1923) que foi autor da torre que tem o seu nome em Paris.

            A existência do seu atribulado trabalho de piloto era devido ao luxo empresarial  e  perdulário dos rudes e riquíssimos “barões” da borracha (servidos por exércitos de mercenários), que se correspondiam dia após dia por “dá cá aquela palha”, e compravam vestidos e perfumes caros ora  para as esposas e filhas ora para amantes europeias, que mantinham a milhares de quilómetros de distância.

            Todavia, existiam várias e ignóbeis concorrentes da «Sul América Aeropostal», de pequenos serviços de pilotagem e transporte aéreo com entregas de sacos que não eram propriamente de correios. Entregas encomendadas a pilotos estrangeiros com dívidas de jogo, foragidos da 1ª guerra mundial e, por isso, necessitando de urgentes dólares. Concorrentes semi-clandestinas que solicitavam, pois, os serviços a pilotos desesperados, e eram propriedade dos donos de campos nas encostas das montanhas. Proprietários de plantações de um estúpido arbusto (de 1 a 3 metros de altura, com flores pequenas, amarelas e um fruto tipo castanha), que tendo crescido originalmente no estado selvagem, fora tradicionalmente sujeito a intensa procura pelos nativos: – Outrora, quando os índios tinham as almas mais limpas, lançavam grandes ramos repletos de folhas à água dos rios, de forma a narcotizarem cardumes de peixes que, assim, eram depois apanhados à mão sem qualquer esforço.

            Falemos um pouco disto… Na época entre-as-duas-guerras a planta passou a intenso e propositado cultivo, pois as suas folhas possuíam características fortificantes análogas ao chá e ao café, diziam. Na verdade, as folhas de coca (independentemente da cocacola) eram já muito procuradas enquanto alcalóide natural, planta cultivada pelas suas folhas que, tratadas pelo éter em laboratórios camuflados sob a densa vegetação tropical, produziam uns sais brancos, desviadores sub-reptícios da mente, provocando dependência rápida… Este comércio ainda não havia caído sob a alçada da Lei em toda a parte, e os seus produtores e vendedores eram notáveis personalidades locais, acima de qualquer suspeita.

            Daniel voava e, voando, pensava que a inferioridade do presente é o axioma implícito de todos os que estão dentro dele e o vivem… Daniel estava convencido da beleza do passado e da utopia de uma idade de ouro que, talvez, tenha acontecido em Machu-Pichu no tempo das suas sacerdotisas, amazonas virgens de beleza inclassificável e, em vez de insistir nesse pensamento para entreter a viagem, resolveu estabelecer comunicação com o posto de radiotelegrafia do pequeno aeroporto de Potosi (Bolívia), cidade situada a três mil e novecentos metros de altitude, exactamente onde os espanhóis descobriram enormes jazidas de prata em 1546, mas que agora se povoava de aventureiros de todas as nacionalidades que desciam de aviões fretados para voos de ocasião, sobre aquele chão de terra sofrida.

            O telegrafista terrestre, seu conhecido de longa data, respondeu imediato e jovial:

            – Atenção, Daniel! Ao contrário das outras vezes, temos aqui um saco de correspondência esperando a tua aterragem para o recolheres… Há ainda uma surpresa melhor: – Na sala de passageiros está uma bela jovem da alta sociedade austríaca ou alemã, pelo aspecto é claro, que fará viagem contigo até Lima!

            – OK! Até já!                                                                                    

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            Daniel sentiu-se um pouco emocionado e, ao mesmo tempo, angustiado… Só de longe em longe transportava consigo algum passageiro e, até à data, nunca sucedeu que esse passageiro fosse uma mulher… Uma bela mulher! Afiançava o telegrafista de Potosi. Quem seria esta mulher da alta sociedade germânica que, sem mais nem menos, viajava sozinha naquele perigoso e escorregadio mundo?

            Desviou um pouco o rumo do aparelho em direcção a Potosi. Olhou para baixo e viu deslizar a terra deserta e nua. Aos poucos, começaram a surgir perfilados os primeiros contrafortes da cordilheira, por entre os quais, depois de nascer, serpenteia o rio Pilcomayo afluente do rio Paraguai, que desce para a Argentina… Desta vez não tivera tempo de dar uma olhadela à pitoresca povoação boliviana intitulada Portugalete que, um pouco antes de Potosi, lhe recordava o seu país…  Não passou muito tempo que não avistasse as torres da catedral de Potosi. Daniel dirigiu o avião para a pista e, após uma perfeita manobra, aterrou normalmente. Saltou da cabina e olhou à sua volta, surpreendido por não ver ninguém à sua espera, pelo menos com o saco de correio… Os voos sempre tinham um horário a cumprir, embora do mais liberal que se possa imaginar.

            Em vez do telegrafista, preso à “torre de controlo”, avistou um piloto local que vinha ao seu encontro pela pista, e lhe disse sorridente:

            – Estás à procura da tua passageira? Não sobe aqui, mas sim no campo Navarro. É lá que está também o saco da correspondência e das encomendas postais. Parece que houve uma alteração nas instruções dadas à última hora.

            – Não acho graça nenhuma a isso! (resmungou Daniel).

            O campo Navarro era um sítio desolado, praticamente à entrada da selva tropical. Ali haviam construído uma tosca pista, interesses obscuros de uns empresários gordos e besuntas. Tratava-se de um aeródromo apenas utilizado em situações de emergência. Não agradava nada a Daniel ter que levantar voo de Potosi para ir aterrar em Navarro. Enquanto se dirigia mal humorado para o seu aparelho ainda ouviu o colega:

            – Boa viagem, Daniel! E não se apaixone pela passageira! (Daniel partiu com cara de poucos amigos e assim aterrou em Navarro). Logo que aterrou e o avião se imobilizou sobre a pista, o guarda do campo fê-lo entrar no barracão que servia de hangar:

            – Aqui tem o saco do correio, e ali estão meia dúzia de encomendas postais, senhor Daniel. Previno-o de que deve ser coisa muito importante, porque o saco do correio e as encomendas postais foram entregues aqui por um funcionário do Governo. Disseram-me que haveria grande sarilho se tudo isto não chegasse intacto ao seu destino. Durante todo o voo permaneceremos em comunicação consigo através da rádio.

            Logo que Daniel entrou na cabine, o piloto entregou-lhe uma pesada mala de couro… Mas Daniel esperava outra coisa:

– E a passageira? (através da janela, Daniel viu uma rapariga que, loira e branca como boneca de loiça, se aproximava do avião transportando uma pequena mala. De “saia travada” e saltos altos, acentuando um andar curvilíneo e insinuante, supostamente vivido, com baforadas de cosmopolitismo, “Berlim, Cabaret e etc., e tal” sob a humidade da selva. Daniel, decididamente mais bem disposto com ao andar apalhaçado da moça, pensou: «Vamos lá… Uma rapariga bonita, mas com andar

de artista de circo, de trapezista, parece um talismã contra a má sorte.».

            Do seu lugar nos comandos, convidando-a a subir, cumprimentou a rapariga que lhe retribuiu com um maravilhoso sorriso de reclamo dentífrico. Antes de pôr os motores do «Breguet» em marcha, veio até à porta receber a passageira, voltou-se para verificar se tudo estava em ordem. Recolheu a escada para os passageiros e fitou, mais uma vez, o rosto da jovem viajante. Finalmente retomou o voo. A rapariga, que a princípio se mostrava faladora, comentando a meteorologia da região andina, a viagem e as sensações que se experimentam ao subir num avião sobre os Andes, pairando lado a lado com os condores, guardava agora absoluto silêncio. Era, sem dúvida, uma adorável passageira, mas a cabeça revelava-se-lhe bastante ocupada “sabe-se lá com o quê”! Daniel disse para consigo que poderia tornar a viagem agradável à moça, coisa que para um piloto da sua categoria e “charme” não seria difícil. Daniel gozava da aureola de corajoso, célebre na comunidade multicultural dos pilotos, por saber evitar perigos e acidentes com rara perícia… Acontecia, porém, que uma confusa sensação de insegurança e mal-estar o tolhia… Lançou um olhar ao painel dos instrumentos náuticos… Depois, estabeleceu contacto com o campo Navarro: «- Atenção, Daniel! Atenção! Perigo!», (ouviu perfeitamente estas palavras. Instantes após, fez-se silêncio. Sem dúvida alguma: era a voz do piloto de horas atrás!).

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  Com mil raios! A que perigo se referia? Daniel pensou imediatamente na pesada mala de couro… Depois, na mala que a rapariga transportava… Mas era ridículo! Uma jovem “cabeça de vento”… Ele era um espadaúdo homem de trinta e muitos anos, 1 metro e 75 centímetros de altura, com um talho na face que desanimaria o maior fanfarrão daquelas paragens! Depois deste raciocínio rápido, voltou-se sorrindo para rapariga. Esta insistia em representar o papel de mulher fatal, como se aquilo tudo não fosse mais que uma cena de filme negro de Hollywood. Daniel, para distrair, apontou-lhe um precipício, um profundo e negro abismo que se encontrava lá em baixo… Ela, porém, não seguiu o olhar do piloto…

            Daniel ficou imóvel por instantes… De repente, sentiu um objecto frio pressionando-lhe a nuca, para ver o que era, torceu um pouco o pescoço: – Era o cano de uma parabellum, pistola em serviço no recém-equipado exército alemão!

            – Vamos agora sobrevoar um espaço plano. Aterre logo que eu diga, imediatamente, sem tentar desobedecer-me! (disse a jovem ao seu ouvido com uma voz metálica).

            – E se eu resolver desobedecer-lhe? (disse Daniel, esboçando um sorriso trocista).

            – Nem tente! Disparo sobre si de forma mortal e, de seguida, tomarei por minha conta os comandos do avião e o rumo de terra. Saberei perfeitamente arranjar-me sozinha, não duvide!

            – Está bem! (volveu Daniel, ao mesmo tempo que acionava o comando).

             A pequena planície onde se desenhava uma tosca pista de aterragem, estava já muito perto. Daniel viu três homens armados de espingardas automáticas correndo pista fora… Na entrada de um barracão viam-se inúmeras caixas de madeira que, diga-se, pareciam esperar que as embarcassem.

            – Não tente desobedecer-me, compreende? (a mulher que queria ser fatal disse ao ouvido de Daniel, aumentando a pressão do cano da arma sobre a sua nuca).

            – Não tenha medo… (respondeu Daniel com ironia)…

            Como havia de lhe passar despercebida a “indústria da morte” que certos produtores exportavam para a América do Norte e para a Europa?! Como podia ignorar a presença de nazis alemães na região andina (Colômbia, Bolívia, Peru, Paraguai, Uruguai, etc.) a fazerem uso dos proventos financeiros que «Erythroxylon coca» proporcionava?! Daniel pensou: «Não! Também não posso conceber um indivíduo que sobrevive à sua própria morte espiritual!». Daniel considerava que havia morrido sob o céu de França, sobrevoando as trincheiras alemãs em 1917. Considerava que, se havia ganho a medalha da “cruz de guerra” pela audácia demonstrada debaixo de fogo, essa apenas lhe pertencia porque ali morrera a sua juventude e a sua verdadeira vida! Sereno, lógico, com um profundo sentimento da finitude total da vida, sem sofrer as limitadas coacções do tédio, Daniel manipulou os comandos, e o aparelho desenhou no céu um fenomenal looping que, recuando no espaço, o fez sobrevoar o negro abismo que havia apontado à mulher… No mesmo instante, a violência do looping atirou com a rapariga para o fundo da aeronave, completamente enxovalhada, “de pernas para o ar”… A violência da queda, e o choque no fundo do abismo, produziu uma explosão!

            Há quem tenha visto Daniel, pendurado num pára-quedas, descer sobre o curso de água que saltitava no fundo vale… Mas um pára-quedas confundia-se facilmente com as mariposas gigantesImagem2 daquelas paragens! Ninguém sabe se morreu ou não na queda do avião… O facto é que encontraram o corpo despedaçado da rapariga, mas não o do piloto de nacionalidade portuguesa que, assim, se transformou num dos fantasmas protectores e pioneiros da luta contra o nazismo e os traficantes, no período entre-as-duas-guerras. Enfim, uma das mais pitorescas e atribuladas lendas da Cordilheira dos Andes, na primeira metade do século XX.

 

 

 

 

 

 

 

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