As imagens da execução pelo Estado Islâmico do segundo jornalista norte-americano continuam a ser exibidas até à exaustão. O que as torna, não simbolicamente horrendas, mas aliciantes, sobretudo, para jovens europeus, sem outras causas que não as do vazio e da frustração. Sejam portugueses, britânicos, franceses, ou de qualquer outro país do Ocidente cristão, que se fez e mantém rico e poderoso, à custa do saque estrutural e do reiterado exterminínio de povos e de culturas que apenas cometeram o “crime” de se não terem especializado em armas de destruição maciça, como ele. O carrasco jihadista, vestido a rigor, de preto da cabeça aos pés, os olhos a faiscar e as mãos a vibrar com a arma branca pronta a executar o ritual do sacrifício da vítima, transfigura-se em sacerdote. De jovem, pleno de capacidades, sem qualquer oportunidade de as fazer render no seu Ocidente cristão, vê-se, de repente, integrado no Estado Islâmico e, de desempregado e excedentário, passa a herói e a sacerdote do islamismo, nascido do cristianismo que, há dois mil anos, sadicamente anima e dá sentido ao agir de todos os estados ocidentais, do Vaticano, do papa Francisco, ao da América, de Obama. O que os sacerdotes do judaísmo, primeiro, e do cristianismo, depois, fizeram, aqueles, de forma cruenta com animais sacrificados, dia e noite, no templo de Jerusalém, e estes continuam a fazer de forma incruenta, nas missas, em todos os altares, semana após semana, fazem-no, também agora e em directo nas tvs e redes sociais, os novos sacerdotes jihadistas do Estado Islâmico. “O próximo será britânico”, anunciou, com solenidade, o jovem sacerdote, no final da segunda execução/ sacrifício. O rito, liturgicamente, perfeito e limpo, promete prosseguir, enquanto o Ocidente continuar cristão, católico, protestante ou ateu, tanto faz. Mas cristão, isto é, poder invicto, estruturalmente ladrão, assassino, genocida, ecocida. Tudo para glória do seu sádico Deus, nos antípodas do de Jesus, que, desde Abril do ano 30, continuamos a crucificar. Impunemente! (3Set2014)