RETRATO DE RAPAZ, DE MÁRIO CLÁUDIO – por Manuel G. Simões

 livro&livros1

Depois da narrativa Tiago Veiga. Uma Biografia (2012), cuja arquitectura romanesca se constrói, uma vez mais, por uma escrita densa e pessoalíssima, Mário Cláudio percorre agora universos do Renascimento com o romance Retrato de Rapaz (D. Quixote, 2014). E a cada novo livro o Autor tem a capacidade de nos surpreender pela recuperação de formas e de fórmulas linguísticas, de resto o já conhecido idiolecto do escritor.

Retrato de Rapaz narra as peripécias de “um discípulo no estúdio de Leonardo da Vinci”, ao mesmo tempo que evidencia as deambulações de um viajante eruditoImagem1 pela geografia do genial toscano, e com os vários episódios a constituirem um afresco representativo das acções que intercorrem sobretudo entre duas personagens: Leonardo e o aprendiz rebelde, que um dia lhe entrou pela oficina levado pelo pai, «que o fora entregar com uma botelha de vinho, do mais vermelhão, e duas fogaças, acabadas de cozer, numa espécie de paga pela aceitação do valdevinos» (p. 13). Aqui reside o princípio de uma relação que se revelará algumas vezes tempestuosa mas quase sempre marcada por uma empatia, intuída pelo “Rapaz”, e por uma cumplicidade conquistada, como se o Mestre apreciasse a transgressão de alguém que projectara como modelo de Anjo mas que agia mais como Mafarrico e que, por isso, lhe mudou o nome de Gian Giacomo para Salai. Digamos que o núcleo da narrativa contempla justamente a complexidade do convívio entre Mestre e discípulo, revelando-se este, por força duma «ciência imemorial, herdada de antepassados» (p. 14), de um oportunismo sagaz, ora obediente ora desviado por caminhos ínvios, assim preenchendo o texto com muitas características distintivas da narrativa picaresca.

À medida que se desenvolve a acção, comparecem, entre as dobras textuais, os lugares que Leonardo da Vinci teve que frequentar com a sua oficina: ao serviço de Ludovico Sforza (Milão), a sua adorada Florença, Mântua, Veneza, Bolonha e Roma, com os últimos dias em França na corte de Francisco I. O discurso, sempre calibrado e fluente, detém-se por vezes em detalhes que revisitam aspectos relacionados com a grande curiosidade científica e artística do Mestre, à qual não raro participava o discípulo, como por exemplo, quando os surpreendemos «implicados os dois numa representação da Virgem, encomendada por Luís XII, de França» (p. 55) ou quando, sob o céu de Florença, os vemos empenhados em experimentar a máquina voadora, isto é, «o engenho em que haviam derrotado o velho Ícaro» (p. 79). E não falta a referência ao “Homem de Vitrúvio”: «Via-se assim, de pernas afastadas, e de membros superiores estendidos na horizontal, implantado no meio de um firmamento pontuado por estrelas cintilantes, e entre os principais planetas» (pp. 111-112).

Nas entrelinhas da narração, entrevemos o olhar do narrador/autor por espaços que constituem o pano de fundo e o suporte da estrutura textual. E aqui se manifesta, não sem sentido crítico, a atmosfera do poder e os bastidores das instâncias influentes na vida social e política da época. Paradigmático, a este respeito, é o episódio da recepção oferecida pelo então embaixador português em Roma, e futuro cardeal, Dom Miguel da Silva, onde, a propósito, se pode ler a veia irónica ou até pungente da voz narrante, referindo-se a Pietro Aretino como «o obeso poeta que pedia meças às enxúndias do próprio Santo Padre [Leão X]» (p. 91). Essa ironia, que é, como se sabe, um estilema de Mário Cláudio, é admiravelmente utilizada, desta vez sendo a voz a de Leonardo, como comentário à ostentação, por parte do discípulo, do anel no dedo da mão direita, símbolo da sua ligação a uma das Três Graças: «Admito-te tudo, meu Filho, menos que consintas na degradação dos pombos-correios, pobres deles, nascidos para a liberdade […] e de pata apertada pela anilha com que os perversos lhes controlavam o roteiro do voo» (p. 121).

Além de outros méritos, esta narrativa aliciante fixa-se numa questão privilegiada, ou seja, no valor dos afectos (amizade e solidariedade), sentimento que prevalece na relação entre o génio de Leonardo, feito de insatisfação e de  abertura intelectual, e o comportamento do discípulo, susceptível de passar da rebeldia à ternura. E tudo isto através de um discurso, cuja dimensão e originalidade são de há muito apanágio do Autor.

Leave a Reply