CARTA DE ÉVORA – 1 – por Joaquim Palminha Silva

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Meus amigos, venho para aqui transcendentalizar o passado e o presente de Évora. Urbe várias vezes milenar, umas vezes prisioneira de descrições materialistas, mais ou menos fastidiosas, sobre estilos arquitectónicos e artísticos, outras vezes enclausurada no recorte filigranado dos guias turísticos, de narrativa trapaceira e apressada, em “fila indiana” e à medida do freguês.

Cidade património da Humanidade (UNESCO), encontra-se hoje a viver uma fase desconstrutiva da sua génese, votada a abastardamentos, abandonos, sujeita a projectos grotescos, sofrendo a gestão de contrabandista da Cultura, servida por petulantes e cabotinos ou, na alternativa, bonifrates da política e histriões do “marketing”, na versão “grande lago é Alqueva”…

Enfim, não lhes vou contar coisas de papel de embrulho às cores e com um laço a condizer, bom para entreter turistas com o tempo contado. Pelo contrário, vou descrever-vos o que está dentro do embrulho! Isto é, depois de passarem as portas amuralhadas da cidade, vou mostrar-vos os atilhos das ceroulas torpes, as botas cambadas, os dentes podres e o mau-hálito, as unhas negras de sujidade, quer se queira ou não, vou acutilar com acinte as cabriolas da ignorância pretensiosa, sem escrúpulos.

Para quê? – Para que o visitante desta cidade, se livre da porcaria mental que lhe estendem como passadeira, e em vez das figuras burlescas e dos contadores de estórias (que hoje estão na moda!) frívolas ou burlescas, possa percorrer a cidade por dentro, a cidade espiritual, que corre paralela à cidade dos monumentos.

Há uma Évora monumental, mas também há uma cidade esotérica e misteriosa, tal como existe uma urbe romântica, trágica e, vejam lá, pitoresca, frívola e anedótica. É preciso apenas estar atento aos sinais…

Na realidade, este espaço sagrado e disputado ao longo de mais de mil anos, guarda dentro de si um mundo de histórias impressionantes, com o suplemento de que para muitas delas conservamos ainda o cenário original. O perímetro da cidade, e os seus imediatos arredores, com todas as suas histórias e mistérios, correm o risco de encher uma resma de papel de carta, fazendo de Évora a versão lusitana das mil e uma noites.

Mais que caricaturas para encher espaço, deixarei (se tal for possível) o documento fotográfico ou ilustração gráfica a testemunhar as minhas afirmações. Entretanto, se o leitor assim o entender, pode sempre utilizar as imagens numa visita à cidade, de forma a identificar locais, acções passadas, habitações de assinalados acontecimentos.

Depois desta carta, eu entrarei directamente no mare magnum que é Évora, cidade misteriosa, esotérica, romântica, trágica, pitoresca e…anedótica.

Grato pela atenção dispensada.

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