A sociedade contemporânea está organizada para o cultivo incessante da bondade de estufa. O que é a bondade de estufa? – Explico já a seguir, exemplificando…
- Às vezes vem ao nosso encontro uma dessas criaturas que nos aborrece ou exaspera, “caindo sobre nós” num péssimo momento. O impulso inicial (verdade da alma e dos sentidos) empurra-nos para despachar a criatura ou voltar-lhe as costas com manifesta indiferença… Porém, uma camada de verniz (digo, hipocrisia) cobre a nossa existência. Uns chamam-lhe cortesia, outros, boa educação, entretanto adquirida com anos de treino (aulas teóricas e acção prática). Os nossos lábios são impedidos, assim, de praguejar, e vimo-nos obrigados a esboçar um sorriso, enquanto o tal verniz nos persuade a ouvir com “mártir” benevolência o que a palradora criatura tem para dizer, suportando a sua tagarelice fatigante com uma máscara de simpatia. Eis, pois, que acabamos de praticar uma das várias modalidades da bondade de estufa.
- No meu estado de saúde e, embora não contagiosa, doença mortal e a prazo (só Deus sabe quando!), algumas vezes tenho ouvido (sem que eles saibam que os escuto), a alguns zelosos “samaritanos” que me são próximos, estas significativas palavras: «Não quero ficar com remorsos! Até que a vida lhe dure, farei tudo o que me é possível: quero que todos saibam que estou de consciência tranquila!». Como se pode verificar é significativa, esta aberta confissão: – Estas ”piedosas” almas, não pensam propriamente em aliviar o sofrimento de uma vida que supostamente lhes é querida; antes pelo contrário, estão sumamente interessadas em salvarem-se a si mesmas das amarguras de um futuro arrependimento, do aguilhão dos remorsos; estão preocupadas com o seu enorme “ego” e, por acréscimo, em não desiludirem a comodidade social que estima e louva esta caridade encenada, cultivada e sulfatada a tempo e horas. Enfim, esta bondade de estufa!
- A educação social e os conceitos correntes que nos obrigam a ser bondosos à tarefa e a tantas horas/ano, como essa publicitada e multifacetada prática de voluntariado que invadiu a sociedade portuguesa, não é genuína, pura e desinteressada bondade. De facto, os seus efeitos práticos, exibidos publicamente (como uma passagem de modelos ou promoção de saldos num super-mercado), assemelham-se bastante à solidariedade humana. De tudo isto podemos concluir que a bondade de estufa abunda nos países onde a sociedade provoca mais desigualdade, onde a genuína caridade está mais exausta e os costumes mais corrompidos.
A bondade de estufa “ensina” que, à força de fazermos de obsequiosos, nos podemos tornar respeitáveis e misericordiosos; que à força de agir como se fossemos naturalmente simpáticos, nos libertamos da nossa rudeza e nos transformamos em pessoas afáveis; que à força de nos mostramos disponíveis, e abafarmos o nosso egoísmo, escondendo as nossas reais intensões, nos tornamos pessoas amorosas, prontas a ajudar o próximo. Porém, tudo isto são mentiras ou, dito de outra forma, intoxicações espirituais, compartimentos de dissimulação, que tornam menos repugnante a convivência com o egoísmo e indiferença social. A bondade de estufa é uma mímica da decência moral e, como as flores criadas em cativeiro climatizado, não tem o mais leve perfume…de amor autêntico!
Conclusão: – A verdadeira bondade não é exibicionista! Mais: a verdadeira bondade detesta a exposição pública da sua acção prática! Porque a única, preciosa e genuína bondade é a que nasce espontânea da alma, sem necessitar dos “cosméticos” do “voluntariado” e seus diplomas, para lhe emprestem as cores da solidariedade humana. A verdadeira bondade não nasce forçada pelas convenções sociais, é radicalmente desinteressada e, bela como como o amor, não espera que lhe deem ordens para aparecer e actuar; não se deixa arregimentar e, porque é simples e pura, não convive bem com o autoritarismo das organizações de “solidariedade social”, com os seus “chefes”, hierarquias, “desfiles de caridade” e “marchas de misericórdia”! A verdadeira bondade é libertária!
Na verdade, para obter e praticar a autêntica bondade é preciso cumprir, antes de mais, a única e difícil tarefa que Jesus Cristo reclamava a todos: – Conseguir ter boas maneiras de coração antes dos gestos, da exibição dos rituais; amar o próximo como a si próprio, sem nada esperar em troca.

