Meu caro amigo, espero que esteja tudo bem consigo. Aqui estou eu mais uma vez a maçá-lo com os meus problemas. Acredite que ando muito preocupado com as decisões que tenho de tomar. Neste momento, a dúvida maior diz respeito à Maria da Luz. Devo apresentá-la à minha mãe? Mas será que a Maria da Luz estará interessada em ser apresentada? Já sei o que vai pensar: o que será que o impede de lhe perguntar, em vez de se pôr a escrever cartinhas?
Bem, tenho de lhe confessar que o problema não é só a minha mãe. E a Maria Antónia ali no prédio, a morar no andar de cima? É verdade que a senti um tanto arredia, desde aquele dia do passeio a Cascais. Mas receio que arme algum escândalo, se aparecer lá em casa com alguma candidata à minha mão. Ela é bem capaz disso. Mas, para já, deixe-me dizer-lhe que o resto da minha estada na Covilhã foi muito agradável, sem grandes alterações em relação ao que já lhe contei na carta anterior. Voltei ontem, segunda-feira, e imagine que a Maria da Luz veio comigo. Apanhámos o comboio logo de manhã, passava pouco das nove. A D. Belisária e o Sr. Tructesindo vieram trazer-nos ao combóio, e despediram-se calorosamente de nós. Fizeram-me prometer que volto lá no Natal. E a D. Belisária ainda arranjou maneira de me dizer à parte, muito baixinho, que gostava muito que levasse a minha mãe. E assim terminou a minha visita à Beira. Acredite que consegui conciliar o trabalho com o prazer. Não se ria, por favor.
A viagem foi excelente. Apesar de ser segunda-feira, não vinha muita gente no combóio. A Maria da Luz disse-me que, no Verão, não são muitas as pessoas que vêm passar o fim de semana à terra. E a maior parte vão de carro. O facto é que viemos muito confortavelmente. Até aproveitámos para estudar. E também para conversar. Só não tive coragem de perguntar se ela quereria visitar a minha mãe. A certa altura pensei que, caso me decidisse a levá-la lá a casa, não deveria propor-lhe, para começar, assim de caras, uma apresentação com ar formal à minha mãe, mas apenas fazer-lhe um convite para ir jantar a minha casa. Faz uma grande diferença, não faz? Contudo, está a perceber, não me consegui decidir. E lembrei-me que, primeiro, deveria falar com a Heloísa. Quanto à Maria Antónia, teria de evitar maus encontros.
Quando chegámos a Lisboa, passava da uma da tarde, fui primeiro com a Maria da Luz a casa dela. Vinha muito carregada, de modo que tive de a ajudar. Digo-lheque o fiz com o maior prazer. É verdade que fiquei lá em casa até quase às cinco da tarde. Compreende… lá na Covilhã, na casa dos pais, não estávamos muito à vontade. Realmente, como já lhe contei, tivemos uns encontros clandestinos, mas muito a medo. Precisávamos de estar mais à vontade… Mas garanto-lhe que cerca das seis horas, já ia a subir a rua de Santo Ambrósio. Também lhe digo que, na véspera, tinha falado ao telefone com a minha mãe (falámos todos os dias em que estive lá na Covilhã), e disse-lhe que só deveria apanhar o combóio por volta do meio dia. E que levava comigo um bolo especialmente confeccionado pela D. Belisária, de propósito para ela.Que por sinal viajou num saco bem grande, com peso razoável.
O pior foi que, subia eu a rua, bem carregado, e ainda me faltava um bocado, talvez quase vinte metros, para chegar à porta do meu prédio, eis que esta se abre, e quem vejo a sair? A Maria Antónia! Ia deixando cair a bagagem. E ela olhou para mim, pôs a mão à cintura (seria melhor dito: pôs a mão na anca), e começou logo a atacar:
– Olha o Mauricinho! O santinho! Boa tarde, ao menos fale ao povo.
– Com certeza, Maria Antónia. Boa tarde! Por cá, está tudo bem? A D. Henriqueta, como tem passado? A minha mãe contou-me que ela esteve um pouco em baixo.
– Está melhor, muito obrigada. Aqui a rapariga é que agora anda votada ao desprezo, não é? Vai para a serra ter com a serigaita da colega, e para aqui não há nada.
– Então, Maria Antónia, o que se passa? Venho muito cansado, desculpe. Quero ir ver a minha mãe.
– Pode passar, mas amanhã à noite, às onze horas, quero-o a bater à minha porta. Baixinho, claro, para não acordar ninguém. Hoje, não, que a D. Henriqueta ainda não está bem, e o Mauricinho deve vir muito cansadinho, coitado. A serigaita deve puxado por ele, já se vê.
Como vê, os sarilhos são cada vez maiores. As minhas esperanças num “arrefecimento” por parte da Maria Antónia evaporaram-se. Nem quero pensar no que poderá acontecer se ela um dia dá de caras com a Maria da Luz.