O doutor Teles, professor de História, numa das suas habituais e chatíssimas digressões filosóficas, falou-nos de raspão na hipótese do eterno retorno, concebida por um maduro alemão com um nome arrevesado. Não demos qualquer importância aos meandros da explicação, mas retivemos a designação, que nos pareceu gira. O Abílio resolveu mesmo atribuí-la ao seu último invento – uma moeda de cinco tostões furada a que se atava uma linha de nylon, como as que se usam na pesca. Metida nos matraquilhos, a moeda accionava o mecanismo, saíam as bolas, após o que puxávamos a linha, recuperando a moeda. E assim sucessivamente. A coisa foi correndo bem durante muitos dias. Em todos os momentos livres, furos, faltas, íamos até à taberna do senhor Adrião, que ficava no pequeno largo em frente ao liceu. O velhote, satisfeito de nos ver jogar tantas vezes, depressa nos colocou na categoria dos seus melhores clientes e, ao fim da tarde, premiava-nos com o bónus de um jogo grátis (favor que nos fazia sentir falsos como Judas). Jogávamos com tal frequência que atingimos uma perícia fora do vulgar. Durante esse pequeno período de ouro de prática desportiva, acordei diversas noites com a mão direita fora da cama, dando o fatal e característico golpe de pulso com que costumava, com a bola parada no meio dos três avançados, fazer uma finta com o boneco do meio, sem tocar a bola, que rematava depois enviesada para um dos cantos da baliza, pondo os olhos tortos ao Manuel, que se considerava um super guarda-redes.
O que se deve ter passado foi que, ao abrir os jogos ao fim do dia, o senhor Adrião terá concluído que as receitas não correspondiam à fabulosa quantidade de partidas que o nosso grupo jogava. Uma tarde, quando íamos já a sair após uma fatigante sessão desportiva, o velhote chamou-nos e, abrindo o tabuleiro à nossa frente, disse:
– Estão a ver? Vocês jogaram vinte e dois jogos, contei eu, e não há nenhuma moeda, pois esvaziei os «bilhares» todos a seguir ao almoço, antes de vocês chegarem.
E depois fez uma caritativa chantagem connosco: ele não chamava a Guarda, nem fazia queixa aos nossos pais e, em contrapartida, nós revelávamos o nosso segredo, dizíamos-lhe como é que fazíamos sair as bolas. Não nos foi preciso pensar muito para anuirmos. Se ele dizia aos velhos, estávamos lixados, o Abílio em particular, pois o pai, quando se zangava com ele, dava-lhe tareias com o cinturão do uniforme.
Encabulados, lá mostrámos ao senhor Adrião a fatídica moeda do «eterno retorno». Ele riu-se, parecendo até mesmo ter achado graça à invenção. Deu-nos uma reprimenda longa e bondosa, e concluiu exortando-nos a não tornarmos a fazer trapaça no seu estabelecimento. Mandou-nos embora em paz. Uma humilhação, uma autêntica vergonha. Nunca mais tivemos cara para lá voltar.
Os deuses, coitados, tinham-nos mandado todos estes avisos, mas nós fizemos orelhas moucas e prosseguimos teimosamente na senda do crime. A terceira ideia genial da temporada veio-nos do Manuel, que sempre fora mais dado às literatices do que às coisas práticas da vida. Estávamos já no fim da Primavera e tinham-se iniciado as sessões de cinema no Cine Esplanada: dois filmes por cinco escudos. A ideia era esperarmos que as luzes se apagassem e, entrando pela porta em que estivesse de serviço o Mário Holofotes, assim chamado por ser míope como uma rata cega e usar lentes que pareciam fundos de garrafas, passar-lhe para a mão rectângulos de papel de jornal cortados com o tamanho exacto dos bilhetes. Para reduzir os riscos da operação, ainda sugeri que tentássemos arranjar papel com a cor e a textura aproximadas das dos bilhetes. Iam-me comendo vivo! Isso era uma concessão ao medo, disse o Manuel (onde estava afinal a nossa ousadia?); era uma autêntica mariquice, acrescentou o Abílio, pois assim não tinha graça nenhuma. Tinha de ser papel de jornal, disseram os dois. Fui democraticamente vencido.
De facto, foi canja, o Mário rasgou-nos os papéis e nós entrámos. Porém, à terceira vez em que executámos este verdadeiro passe de alquimia, junto do Holofotes, na sombra, fora do alcance da pequena lâmpada que, cá fora, iluminava a entrada, estava o senhor Cordeiro, o gerente. Só o vimos quando tínhamos já entregado os «bilhetes» ao Mário. O Manuel foi agarrado e feito cativo, eu e o Abílio lá conseguimos fugir, mas tínhamos sido identificados. O Cordeiro deu uns safanões ao Manuel e o cegueta, cheio de ressentimento e mau perder, queria mesmo chegar-lhe a roupa ao pêlo. Houve gritaria, as luzes do recinto voltaram a acender-se e toda a cidade assistiu ao opróbrio do nosso gangue, pois, enquanto o Manuel era ali humilhado fisicamente, os nomes dos fugitivos eram gritados pelo Cordeiro e pelo Holofotes. Eu e o Abílio fomos, como se costuma dizer nos livros de História, «queimados em efígie». Um escândalo.
O Abílio não perdeu pela demora e levou o tratamento do costume. O meu pai, que usava métodos diferentes, chamou-me ao escritório onde fazia as escritas que complementavam o seu pobre orçamento de funcionário público e iniciou um longo discurso em que quase remontou à Idade do Bronze, passando pela Grécia antiga, para finalmente, apoiado por Sócrates, Platão e mais meia dúzia de supercrânios, concluir que a dignidade, a honestidade e a honra são valores insubstituíveis. Eu ainda estava com algumas esperanças de me safar só com o relambório, mas o pior estava para vir – corte de saídas depois do jantar e aos fins-de-semana e suspensão da parca semanada (dez escudos) por tempo indeterminado. Isto é, todas as conquistas feitas penosamente ao longo de uma vida inteira perdiam-se num minuto. A propósito destas prelecções paternas, tão ricas em alusões filosóficas e em engenhosas metáforas, devo dizer que, quando me quero lembrar de algum ensinamento útil que o meu pai me tenha deixado, só consigo lembrar-me da sua bela receita de sangria – vinho tinto, gasosa, gelo, laranja, pêssego, de preferência um pouco verde… À modesta escala familiar, repete-se assim a cruel injustiça que a posteridade cometeu com o poeta ultra-romântico e grande jornalista Raimundo António de Bulhão Pato – pois sendo autor de uma boa dezena de obras, ficou a dever a celebridade à sua receita de amêijoas! Mas voltemos à narração da onda de tragédia que assolou o nosso gangue.
O Manuel foi o que teve mais sorte em matéria de represálias. A tia com quem vivia, pois a casa dos seus pais ficava numa aldeia relativamente afastada e ele viera estudar para a cidade, teve um desmaio quando soube do sucedido e ficou vários dias de cama. Depois andou mais de uma semana em que quase deixou de lhe falar, tratando-o por «senhor» nas raras vezes em que se lhe dirigia, o que, apesar de tudo, lhe deve ter doído muito menos do que a monumental tareia que o Abílio levou ou do que a cruel repressão económica e social exercida sobre mim.
Quando, já no último período, as coisas estavam lentamente a voltar à normal anormalidade, foi a minha vez de contribuir para a vaga de insucessos que naquele autêntico annus horribilis flagelou o nosso grupo. Durante um dos fins-de-semana em que fui forçado a ficar em prisão domiciliária, ao vasculhar gavetas para passar o tempo, descobri numa cómoda um punhado de moedas espanholas, despojos de uma excursão familiar a Badajoz, e, entre elas, uma de dez cêntimos. Era muito leve, parecendo feita numa liga de alumínio, mas embora ligeiramente mais espessa, tinha o mesmo diâmetro das moedas portuguesas de cinquenta centavos. E a ideia funesta perfurou-me implacavelmente o cérebro como um relâmpago de Satã. Logo que me foi possível, experimentei-a num jogo de matraquilhos de uma casa perto do quartel.
Magnifico. Fez-me recordar as entradas clandestinas para ver os filmes do Jardim-Cinema. Foi obra que tive o gosto de iniciar e que, por fim, tantos foram os meus seguidores e tanto enchia a sala que, alertada a firma – mágoa minha – vi encerrar-se o “caminho da fuga” percorrido, com tanto sabor, noite após noite, durante o intervalo posterior à exibição do primeiro dois filmes da sessão. Quanto pagaria para poder repetir!!!CLV
Magnifico. Fez-me recordar as entradas clandestinas para ver os filmes do Jardim-Cinema. Foi obra que tive o gosto de iniciar e que, por fim, tantos foram os meus seguidores e tanto enchia a sala que, alertada a firma – mágoa minha – vi encerrar-se o “caminho da fuga” percorrido, com tanto sabor, noite após noite, durante o intervalo posterior à exibição do primeiro dois filmes da sessão. Quanto pagaria para poder repetir!!!CLV