PRAÇA DA REVOLTA – 11 de Setembro de 1973 – «Portugal não será o Chile da Europa!» – por Carlos Loures

Imagem1Com pequenas alterações, este artigo é uma adaptação de um outro que publiquei num anterior dia 11 de Setembro. O título é diferente e, a meu ver,  consubstancia o sentimento das esquerdas portuguesas quando, na sequência do incendiário Verão quente de 1975, se começou a esboçar no horizonte, com os assaltos às sedes dos partidos de esquerda, a criação do ELP e os atentados bombistas, a hipótese de um banho de sangue. Uma direita revanchista, cobarde e apoiada pelas franjas mais reaccionárias do catolicismo, sonhava vingar a humilhação a que fora sujeita – a de ter imperado no País durante quase meio século e ver-se agora reduzida à sua mesquinha dimensão. Beatas e cónegos, um ou outro militar, conspiravam na sombra. O Chile de dois anos antes era referência para todos – uns, temendo que a direita militar radicalizasse posições e com o apoio que o Estado espanhol desse e luz verde vinda de Washington, se desencadeasse aqui uma orgia fascista. Outros, deleitando-se com esse sonho. Augusto Pinochet era um ídolo para os fascistas – um tipo «com eles no sítio», um asqueroso bandalho para a maioria – católicos progressistas, democratas-cristãos, social-democratas, comunistas de várias tendências, anarquistas… gritavam: “Portugal não será o Chile da Europa!”.

 

Em Portugal, em 1973 as reuniões das oposições multiplicavam-se. A situação agudizara-se com a vigília da Capela do Rato – na passagem do ano de 1972 para 1973, em 30 de Dezembro, um grupo de católicos iniciara uma greve da fome e uma reflexão sobre a guerra colonial. As Brigadas Revolucionárias espalharam com petardos panfletos apelando à solidariedade com os grevsitas. Embora as forças policiais tenham assaltado a capela e procedido a dezenas de prisões, os movimentos de solidariedade e adesão não deixavam dúvidas quanto à força da contestação política à ditadura A organização de novos movimentos, a acção de grupos que praticavam a luta armada – LUAR, Brigadas Revolucionárias, ARA , configuravam uma nova realidade. E o Chile de Salvador Allende era uma imagem viva da nossa utopia

No dia do golpe fascista, lembro-me de estar na estação do Cais do Sodré, pouco depois das seis da tarde – passava do meio-dia em Santiago e tudo estava perdido. Tinha o Diário de Lisboa tremendo-me nas mãos e fazia um grande esforço para que as lágrimas não se soltassem. Para nós, os que não acreditavam que da Rússia, da China, da Coreia ou da Albânia viesse algo de positivo, vendo Cuba cada vez mais ligada ao bloco soviético, o Chile era para nós uma luminosa esperança. Uma luz que, naquele 11 de Setembro de 1973, se extinguiu.

Depois de 25 de Abril de 1974, cada tendência política fez do golpe militar a leitura que mais lhe convinha – os católicos conservadores viram nele a consequência lógica da tomada do poder por forças ao serviço do marxismo internacional, uma espécie de castigo de Deus. Os neo-liberais, não fugiram muito a esta explicação, pondo a tónica nas dificuldades que Allende colocou às leis do mercado. Puseram o mercado no lugar de Deus. As diferentes linhas marxistas – pró-soviéticos, pró-chineses, pró-albaneses – viram o golpe como uma resposta do imperialismo à política «aventureirista» do governo do Chile. Condenaram o golpe, mas a lição que tiraram foi a de que não se deve provocar o capitalismo. No fundo, quando se falava do Chile, era de Portugal que se estava a falar. Nos dezoito meses que a Revolução de Abril durou, o povo, nas manifes. nas assembleias realizadas à revelia dos partidos, preocupava tanto os que defendiam uma solução «democrática» como os que pugnavam pela entrada do Poder Popular nos seus carris ideológicos. A cada um sua verdade, como diria Pirandello, neste caso, a cada um o seu Chile.

Quando no «Verão quente» de 1975 gritávamos «Portugal não será o Chile da Europa!», procurávamos esconjurar o perigo de um banho de sangue. Após o estúpido assalto à Embaixada de Espanha, Franco, apesar de moribundo, não hesitaria em nos enviar a divisão Brunete. Os generais espanhóis, apenas esperavam autorização do Pentágono. Que não veio, pois Frank Carlucci, o embaixador norte-americano e homem da CIA, viu maneira de o assunto se resolver com a prata da casa – os Comandos e as suas «chaimites» foram suficientes para dominar uma esquerda militar dividida e hesitante. Otelo, comandante do COPCON, dispunha de força suficiente para fazer os Comandos engolir as «Chaimites», deixou-se aprisionar em Belém. Sem fuzilamentos, sem tanques nas ruas esmagando o povo, os «partidos democráticos», a partir de 25 de Novembro de 1975, foram construindo o «socialismo de face humana». Os «partidos democráticos» assassinaram a democracia e reduziram-nos à triste realidade que vivemos. Portugal não foi o Chile da Europa. Porém, sem o feio circo fascista que os militares chilenos montaram, o resultado final foi o mesmo.

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