Com pequenas alterações, este artigo é uma adaptação de um outro que publiquei num anterior dia 11 de Setembro. O título é diferente e, a meu ver, consubstancia o sentimento das esquerdas portuguesas quando, na sequência do incendiário Verão quente de 1975, se começou a esboçar no horizonte, com os assaltos às sedes dos partidos de esquerda, a criação do ELP e os atentados bombistas, a hipótese de um banho de sangue. Uma direita revanchista, cobarde e apoiada pelas franjas mais reaccionárias do catolicismo, sonhava vingar a humilhação a que fora sujeita – a de ter imperado no País durante quase meio século e ver-se agora reduzida à sua mesquinha dimensão. Beatas e cónegos, um ou outro militar, conspiravam na sombra. O Chile de dois anos antes era referência para todos – uns, temendo que a direita militar radicalizasse posições e com o apoio que o Estado espanhol desse e luz verde vinda de Washington, se desencadeasse aqui uma orgia fascista. Outros, deleitando-se com esse sonho. Augusto Pinochet era um ídolo para os fascistas – um tipo «com eles no sítio», um asqueroso bandalho para a maioria – católicos progressistas, democratas-cristãos, social-democratas, comunistas de várias tendências, anarquistas… gritavam: “Portugal não será o Chile da Europa!”.

Maria â