
I
Aquele homem, eu conheci-o. Já sei o que vão dizer. Pois não, senhores. Não se chamava Melo, não era negro, nem vibrante, nem luzidio. Era um bípede relativamente racional, estatura regular, nariz comum, boca comum, olhos comuns, falta de cabelo castanho e sem sinais particulares, parecidíssimo, em resumo, com noventa e sete por cento dos homens que insistem em viver nesta capital de distrito, apesar de tudo quanto diariamente se inventa para nos tornar a vida agreste e tormentosa.
Recordo-me que, a primeira vez que o vi, o medi desconfiadamente com o olhar e verifiquei que tinha, como qualquer de nós, um metro e sessenta e oito de altura. Quando já éramos amigos íntimos, um dia que falávamos da idade da pedra – e isto a propósito de umas costeletas que estávamos almoçando – confessou-me que tinha trinta e cinco anos. Respondi-lhe que os corvos viviam até aos trezentos, que o patriarca Matusalém falecera aos setecentos e tantos e que, portanto, ele tinha um lindo futuro diante de si.
– Não hei de chegar a essas idades provectas, declarou-me o próprio com um sorriso desconsolado.
– Ora essa! Porquê? – indaguei eu, sem que, aliás, o assunto me interessasse de forma alguma.
– Porque sou um sentimental e uma cigana predisse-me, aos cinco anos, que eu havia de morrer de um desgosto de amor.
– Nesse caso…

