SOBRE OS LEOPARDOS QUE QUEREM BEM SERVIR BRUXELAS – DA ITÁLIA, FALEMOS ENTÃO DE UM BOM EXEMPLAR – O DESASTRE ITALIANO , por PERRY ANDERSON

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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O Desastre Italiano

mapa itália

Perry Anderson, The Italian Disaster*,

London Review of Books, Volume 36, Nº 10, 22 de Maio de 2014

 Parte VII

(continuação)

As sondagens durante  algum tempo indicaram que o centro-esquerda mantinha  uma liderança firme nas intenções de voto  e estava prestes a vingar a sua humilhação de  2008. Monti provou ser um fracasso. Berlusconi estava cada vez mais desacreditado  e a coligação  de centro-direita estava  dividida em três partes. Não só Fini tinha rompido  com Berlusconi  mas Bossi tinha também se separara dele, recusando-se a dar apoio ao governo Monti antes de ele próprio ter sido  envolvido num  escândalo de corrupção e marginalizado numa liga muito enfraquecida. No Outono, as três partes da antiga coligação estavam a ter  pouco mais de um quarto do eleitorado.

O centro-esquerda, embora em si longe de estar florescente, estava em melhor forma. O renomeado partido democrático, nascido de uma fusão entre os remanescentes do que outrora fora o Partido Comunista italiano e uma ala  da democracia cristã, tinha tido resultados desastrosos  em 2008 sob a direcção de  Walter Veltroni – aos olhos afectuosos de Napolitano, ‘Obamaante litteram’. Depois de Veltroni  ter sido substituído, o PD adquiriu um novo líder, Pierluigi Bersani, vindo das fileiras dos Emilian administradores do antigo PCI e uma mudança de imagem para melhor, passando da insípida à fleumática. Sem ser inspiradora, a liderança de Bersani impedia pelo menos que o Partido continuasse a descer  nos  seus    apoios, deixando-o num  nível relativamente estável nas sondagens  de opinião, bem à frente do centro-direita. No Outono de 2012, desafiado pelo jovem prefeito de Florença, Matteo Renzi, que tinha feito um nome para si mesmo, apelando a toda a geração mais velha  dos políticos fosse enviada para o  ferro-velho da política, Bersani derrotou-o confortavelmente nas primárias do partido, com uma participação substancial que levantou a base  do PD, aumentando a sua liderança nas sondagens.

Permanece  um cartão-convite, um wild card. Três anos antes, o comediante Beppe Grillo tinha lançado um movimento contra o sistema político com o qual  teve  alguns sucessos nas eleições locais. Ficou claro que não devia ser levado a  sério. Mas uma vez que não tinha havido até agora  nada de semelhante na  Europa, e não havia nenhum precedente para o analisar e julgar, não podia ser ignorado. Grillo tinha começado como um comediante em cabarés na década de 1970, tendo aumentado a sua popularidade com  os shows populares na  televisão em que o seu sentido crítico foi –se tornando cada vez mais agressivo.  Em 1986, depois de ironizar à volta de  um banquete com  Craxi em Pequim,  um de seus ajudantes perguntou-lhes  com ares de muito perplexo:  ‘Se todo o mundo aqui é um socialista, como é que podem eles andar a roubar?’, e Grillo foi retirado dos canais públicos. Não foi a sua única previsão do que estava para acontecer. Nos anos 90, levou cada vez mais para os seus espectáculos em  teatros e praças  monólogos com uma moldura  ambiental forte,  a que acrescentava  os escândalos inumeráveis do período que se vivia, com uma combinação de bruta profanidade e de grande   sagacidade.

O seu público cresceu e aumentou ainda mais  quando  começou a utilizar a internet como um meio alternativo para realizar contundentes demolições da ordem dominante e dos seus políticos  – centro-direita e de centro-esquerda, televisão e a imprensa escrita, igualmente.  O seu  blog tornou‑se  um sucesso verdadeiramente corrosivo e quase que selvagem.  Escravos modernos, um livro de desenho com as respostas dos leitores, ampliou  os  seus alvos  sobre o destino  do trabalho informal na Itália. Por esta altura, trabalhava  de perto com um especialista em software, Gianroberto Casaleggio, e em 2009 os dois lançaram o Movimento Cinco Estrelas como uma revolta contra o sistema político. As  5 estrelas representavam  as questões-chave que pretendem levantar: o circuito de abastecimento de  água (sob a ameaça de privatização), o meio ambiente, os transportes, as redes de interesses e  o desenvolvimento. Os candidatos do M5S que concorreram às eleições  tiveram que assumir –  o que é único  em todo o mundo – não aparecer na televisão, e se eles fossem eleitos, a obrigação de  reduzir os seus salários de parlamentares ao salário mediano, atribuindo o resto para fins públicos. Grillo foi impedido de entrar  para o Parlamento por uma condenação  de  homicídio involuntário  no início dos seus  30 anos, quando o seu jipe patinou numa estrada com gelo e caiu numa ravina, matando três dos  seus passageiros. Mas não foi eliminado da campanha. Viajando em torno do país  numa excursão apelidada  Tsunami por cerca de  oitenta cidades, com o seu ar  grisalho e pugnaz de juba de leão familiar agora a toda a gente, atacou não somente as “duas castas” – políticos e jornalistas – de Itália, mas o sistema burocrático europeu e o sistema  financeiro  no seu conjunto  e sua ideologia neoliberal de que  sobressai a imposição de políticas de austeridade e a única moeda. Largas multidões, de  curiosos a gente simpatizante,  enchiam os seus comícios.

Quando os resultados começaram a aparecer, o PD teve  um choque duplo. Embora a coligação residual com Berlusconi tenha perdido  7 milhões de votos, a sua resiliência como um militante tinha trazido o centro-direita, que no início parecia um caso perdido, para muito próximo de poder cantar vitória : somente 0,35 por cento atrás do centro-esquerda, e estes também eles perderam milhões de votos, cerca de  3 milhões mais precisamente, não  tendo assim nenhum bloco atingindo os 30 por cento do total dos eleitos. O M5S, por outro lado, tinha passado  de zero para 25 por cento, tornando-se  – se os expatriados fossem excluídos – o maior partido a concorrer sozinho  no país, tirando votos a ambos os campos  convencionais. O lema  de Grilo de três fases  para fazer disparar uma revolta popular – riso, informação, acção política – provou ser incrivelmente eficaz. Os grillini tiveram    mais votos dos operários, dos  pequenos empreendedores, dos trabalhadores independentes, estudantes e desempregados do que o centro-direita ou o centro-esquerda; o centro-direita prevaleceu apenas entre as donas de casa, o centro-esquerda entre os pensionistas e os  trabalhadores de colarinho branco.

Tal era a aritmética eleitoral. Os números de parlamentares são uma outra questão. Central para a segunda República tinha sido, desde a sua criação em 1993, uma mudança no sistema eleitoral – a abolição da representação proporcional, a favor de um sistema de pluralidade simples largamente ao estilo anglo-saxónico. Nenhuma mudança foi tão mais acaloradamente  exigida pelo pensamento único, como sendo a chave para um governo responsável e eficiente. Nada disso se seguiu. Uma década mais tarde, em 2005, a coligação  de centro-direita no poder, temendo a derrota sob este sistema – do qual tinha anteriormente  beneficiado – mudou o processo eleitoral para  um sistema nominalmente proporcional, mas acoplado  com um prémio dado  à  coligação que tenha tido  o melhor  resultado, não importando sequer  qual a percentagem dos votos que tenha tido , e obteve uma maioria automática de 54 por cento dos lugares  na Câmara. Descrito este processo eleitoral desdenhosamente como uma nojeira, até  mesmo pelo ministro responsável pela sua arquitectura de base  o fiel e corajoso   membro da Liga do Norte , Roberto Calderoli, o Porcellum, como ficou conhecido, resultava  de duas outras distorções notórias da vontade  popular em  Itália: o Acerbo Law de 1923, de Mussolini criado para consolidar o seu poder, premiava  com dois terços dos assentos no Parlamento   qualquer que seja o partido que tivesse a maior votação acima de um limite de 25 por cento; e a Legge Truffa de Scelba de 1953, que dava  65 por cento dos assentos  à  coligação que tivesse  mais de 50 por cento dos votos e foi tão impopular que teve que ser revogada depois da  coligação da  DC não conseguido  ganhar os necessários 50 por cento mais um voto na única eleição realizado sob este sistema  eleitoral. O Porcellum foi menos generoso do que os  seus antecessores sistemas, o fascista e o criado pela Democracia Cristã  na dimensão do prémio atribuído  – 54 contra 65/66 por cento dos deputados –, mas também menos exigente no requisito para o ganhar,  pois mesmo  menos de  um quarto dos votos seria o suficiente  para obter  mais da metade dos assentos na Câmara.

Em 2013, isto significava que o centro-esquerda – que, mesmo aos  seus próprios olhos, tinha conseguido resultados desastrosos nos escrutínios eleitorais  – no entanto, em virtude de gozar  de uma  pequena margem de vantagem, obteve  uma esmagadora maioria dos Deputados: 345 para o centro-esquerda ,  125 para o centro-direita e 109 para M5S, num total de 630. Mas isso não garante  o caminho para alcançar o poder. Nos termos da Constituição, o Senado – cujos poderes são de igual nível – requer uma base regional da eleição. O prémio atribuído pelo  Porcellum numa base nacional, portanto, pôde não  lhes ser aplicado, como Ciampi, que era presidente na época que o Porcellum foi introduzido, muito bem salientou.  O prémio tem que ser atribuído à  coligação com o maior número de votos dentro de cada região. O resultado foi muito menos favorável  para  o PD, que ganhou não mais do que  123 dos  315 lugares. Para formar um governo exige-se  um voto de confiança em ambas as Câmaras.

(continua)

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*Ver o original em:

http://www.lrb.co.uk/v36/n10/perry-anderson/the-italian-disaster

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