EDITORIAL – A «incontornável» Escócia

logo editorialÉ aquilo a que na linguagem estereotipada, formatada pelos media, se chama um tema incontornável. É um exagero, pois não existem assuntos que não possam ser contornados. Acontece que não queremos evitar um tema que, na realidade, dá pano para mangas. Assunto talvez mais grave é o da coligação militar que se está a construir para fazer face à Jihad Islâmica – parece-nos que a estratégia fundamentalista está a obter resultados, pois do ponto de vista dos integristas ter o mundo em peso contra, funciona como evidência da pureza da sua luta contra os infiéis. Contornemos este barril de pólvora e falemos da Escócia. Escócia onde, depois de amanhã, se joga mais do que a eventual saída do país do chamado Reino Unido.

Tínhamos salientado a inteligência britânica, com a rainha inglesa a declarar que só os escoceses com o seu voto iriam determinar a decisão de permanecer ou não no Reino Unido, pois a coroa era neutral. Era uma posição sábia, face à grosseira e primária atitude do governo de Madrid, ameaçando, proibindo, atemorizando, numa nostálgica posição herdada da boçalidade fascista anterior a 1975 – camisa azul, braço estendido, Cara al sol con la camisa nueva …

Afinal, Isabel II cedeu à pressão dos unionistas e já apelou ao não e David Cameron ameaçou os soberanistas com a afirmação de que a vitória do sim é viagem sem regresso – a Escócia ficará para sempre fora do Reino Unido. E cá temos os ingleses a evidenciarem a sua dificuldade em compreender que exista vida fora da sua maneira de viver. Para quem não seja inglês ou espanhol, é evidente a viabilidade da Escócia e da Catalunha – por que haviam de não ser viáveis num mosaico continental onde estados aparentemente frágeis mantêm a sua independência – para já não jfalar dos estados minúsculos, a Bélgica, a Holanda, Dinamarca, terão melhores condições de sobrevivência? Portugal, sem fronteiras naturais, com uma economia frágil, que outra razão tem para se manter independente que não seja a que lhe advém de possuir uma História, uma Língua e uma Cultura, próprias. Atributos que, quer a Catalunha, quer a Escócia também possuem.

Da vitória ou derrota do sim do eleitorado escocês dependem algumas coisas – o sim da Escócia será importante para a Catalunha e não só… Do outro lado do oceano, o Quebeque não perde a esperança. Os ingleses e os espanhóis «espanholistas» precisam de ser ajudados a limpar as mentes. Ainda que bradem Rule, Britannia! Britannia, rule the waves! Britons never, never, never shall be slaves – há muitas formas de escravatura – quem oprime, não é livre.

2 Comments

  1. Congratulo-me com a perspectiva do editorialista que, quem sou eu, atrevo-me a considerar muito feliz e muito bem apresentada. O regresso da reafirmação das Nacionalidades será um factor decisivo para a criação do clima de Paz que há séculos, nesta Europa, muito tem sido proclamado mas, de verdade, nunca procurado. Se Portugal – e muito bem – não podia ter colónias com que direito há outros que podem tê-las. Para ser-se colonizados a cor da pele é indiferente. Com efeito, enquanto houver estados prepotentes a quererem sentir-se no direito de dominar qualquer Nacionalidade melhor será contar-se com os barbarismos bélicos sempre repetidos. Espero que a Escócia consiga tornar-se um Estado independente com a sua representação mais que legitima na Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas. Se assim acontecer quantas outras Nacionalidades haverão de querer dar um passo em frente e virem a juntar-se ao exemplo português de ser, na Europa, o único Estado com uma só Nacionalidade. Aos portugueses, ao contrário que já vi escrito na “Viagem”, compete incentivar todas as Libertações a começar pelas quantas Madrid oprime. CLV

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