«Toda a nossa dignidade consiste no pensamento.
É nele que devemos exaltar-nos e não no espaço e na duração, que não podemos preencher.
Trabalhemos pois para bem pensar: é esse o princípio de toda a moral.»
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– Pascal, Pensamentos Escolhidos (tradução de Esther de Lemos, edição de 1972).
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Não sabem o que seja um genuíno Perdedor? – Eu explico como acontece tal coisa a um ser humano…
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Quando cheguei à vida adulta, cerca dos trinta anos, compreendi finalmente que era um perdedor… Na altura (lembro-me bem), adquiri a impressão de que viveria para sempre num estado de infelicidade difusa, indecisa, magoada, porque mergulhado na atmosfera esponjosa do azar…
Há homens que nascem para ganhar, seja lá o que for que isso queira dizer! Há outros que, porque são desportistas ou foram levados a isso pelas circunstâncias, passam a vida activa a ultrapassarem as tabelas nacionais disto e daquilo, a baterem recordes! Há ainda outros cavalheiros que, joguem o que jogarem (fracção de bilhete de lotaria, por exemplo), ganham sempre avultadas quantias, mesmo que não seja a “sorte grande”! Há homens que, sem nenhuma justificação física ou intelectual, sobressaltam as mulheres, fazem-nas vergar de ternura e paixão como caniços de juncais à beira rio, e recolhem os amores de todas de forma displicente, inacreditável, como se isso lhes fosse devido.
Há homens de sorriso artificial e triunfante, que não conhecem a melancolia nem o cansaço, e todos os dias chegam ao emprego a horas de vencer, e são sempre aumentados, aconchegados a uma promoção … Há homens…
Deveria ter vergonha de mim… Sei que muitos, ao olharem-me, dizem entre si e nas minhas costas: «Pobre homem! Um desgraçado! Sujeito aos encontrões da vida… Sempre crédulo, caindo de azar em infortúnio, de desgraça em infelicidade!».
Quando cheguei à idade adulta, cerca dos trinta anos, percebi que estudasse o que estudasse, trabalhasse onde trabalhasse, fizesse o que fizesse, vestisse o que vestisse, amasse quem amasse, a minha vida seria sempre um sussurro de desventuras, e tudo se passaria continuamente dentro de uma tristeza irremediável.
Percebi que nasci para perder! Vim ao mundo para ser derrotado! O destino escolheu-me para fracassar! A infelicidade acomodou-se a mim como se fosse parte do meu sangue.
Fizesse o que fizesse no decurso da vida, embora não seja um homem incómodo nem conflituoso, teria sempre o ar de quem está sentado a um canto, seria sempre o que perdeu o bilhete de entrada, o que ficou esquecido, encostado no vão de uma porta, na rua do «Fala Só». Entendi que passaria a ser o contínuo esquecido. Enfim, a sorte, os vários modelos de acasos felizes que cruzam o mundo de um lado para o outro, passariam pelo meu quotidiano ignorando-me completamente…
A minha vida seria uma paisagem desolada, mesquinha, empapada em tédio e melancolia … Uma paisagem em que ninguém repara… A menos que…
De repente, fez-se um grande silêncio na minha vida… Escutei a voz da imaginação que chamava por mim. Compreendi nesse momento que poderia caminhar sobre a própria infelicidade, passear sobre o contínuo infortúnio, vaguear sobre a tristeza… Só necessitava de ser capaz de acordar para a fantasia, despertar sem medo para a improvisação diária de pequenos nadas festivos, alegres, imprimir em cada coisa uma nota romântica, colorida, inventar em meu redor jardins flutuantes. Partindo da minha triste e azarenta realidade, comecei a desembrulhar paulatinamente a quente fantasia dos meus sonhos… Como se fosse director de cena de teatro ou esmerado encenador, fui modificando a forma de aparecer face ao material banal que me enegrecia o quotidiano.
Ah!, meus senhores e minhas senhoras, os ideais, a imaginação, bastam para viver! Quanto mais a vida me pisava e amarfanhava, mais eu me abria para a fantasia, para a Natureza, para a Poesia!
Só as improvisações imaginadas fazem o caminho e a beleza das pessoas e dos sentimentos… Agora que acabo de fazer esta confissão, falta dizer o mais importante…
Tomei um caminho que ia mais além do que a materialidade da vida, e Leonor assustou-se… – Mas assustou-se de quê?
Assustou-se, porque todos os dias lhe oferecia meia dúzia de belas e vermelhas rosas! Todos os dias! Não a desejei apenas como mulher. Coloquei Leonor num patamar de fantasias: – Arruinei-me, endividei-me, para a cumular de perfumes, de roupas caras, de jantares, de idas ao teatro, de passeios até Sintra, Estoril, Vidago, Porto, Viana do Castelo, Fátima, Guimarães…
Ela nunca me pediu nada. Eu é que fazia de conta. Procedia como se cada dia em que estávamos juntos fosse o aniversário de um de nós. Leonor, ao sentir tanta fantasia pegar-se-lhe à alma, ao ver como eu me ía arruinando, assustou-se e desapareceu da minha da min vida, sem mais nem menos: – Assim, tal como havia aparecido vinda do nada, desapareceu para sempre.
Não, não fiquei desiludido… Era o azar outra vez? – Muito bem, passei a festejar sozinho o aniversário do meu encontro com Leonor. E oferecia a mim mesmo um jantar de festa, uma noite de Ópera, champanhe… Eu sei lá! Sobre o chão da infelicidade eu imaginei uma festa, e engalanado pisei esse mesmo chão: – Como se pisasse assim o meu próprio azar!
Todos os dias entrava no escritório, naquela atmosfera abafadiça que vinha do teto falsificado das salas, como se entrasse numa igreja para o meu casamento! Vestia o meu melhor fato e, na botoeira do casaco, pregava uma linda rosa branca! Bem sei que riam de mim… Deixá-lo! Não poderia permitir que a infelicidade me roubasse a fantasia!
Comecei a fazer uma vida ainda mais optimista que o artificial optimismo, recomendado pelos psicólogos aos seus pacientes.
Nunca mais me deixei dominar pelos pensamentos subterrâneos de que fala Dostoiewski, materiais do estreito realismo, onde até então era um ser deprimido, apagado, triste de dar dó, como um soneto de António Nobre. Se porventura ainda lembram a «Feira Popular de Lisboa», podem imaginar o que será a alegria colorida, saltitante que eu praticava todos os dias, como se fosse uma representação humana dessa feira.
Entendam como quiserem… A verdade é que deixei de pedir desculpa ao destino pelo facto de existir, com o objectivo de que ele me poupasse algum infortúnio, alguma infelicidade, algum enxovalho à minha dignidade.
Foi então que aconteceu o que nunca esperaria… Conto já…
Como todos sabemos, o ser humano ri daquele que deu um trambolhão, porque está em pé e não sujou a roupa. Os homens riem da bacoquice do néscio, porque se julgam inteligentes e, em tal e tal emergência, acreditam que se conduziriam com grande sagacidade. Para dizer tudo, os homens riem sempre que o seu semelhante se comporte de forma inferior relativamente ao que consideram comum.
Até uma certa altura as pessoas (eu bem sabia) riam de mim. Julgavam-me um moscardo falacioso e fantasioso. Nas minhas costas chamavam-me «palhaço», com uma carga de tal forma pejorativa que não sei se um camião “tir” chegaria para a carregar.
Todavia, como eu continuasse a festejar o meu quotidiano e, sobre as mil e uma infelicidades, azares e falhanços que tombavam sobre mim todos os dias, erguesse uma efectiva festa, «um dia de anos», um palco de comédia, as pessoas começaram a deixar de rir e, aos poucos, olharam-me com outros olhos…
Admitir a minha singularidade festiva, fantasiosa, era um problema social, um caso de destreza cultural. Então, a sinuosa psicologia das pessoas inventou que eu havia enlouquecido e, dado que a festividade que eu manifestava era por vezes exuberante e ruidosa, estava visto que não existia garantia alguma sobre as intenções pacíficas do meu procedimento. A violência física, contra mim e contra os outros, poderia explodir a todo o momento, diziam. Foi nestas circunstâncias que me bordaram o caminho de espinhos e, proibido de ser festivo na desgraça e alegre nos azares, sob risco de internamento psiquiátrico por ordem municipal, obrigam-me a ficar silencioso e sem emprego para as minhas faculdades imaginativas, impondo-me que aceite com irredutível passividade quanto nasci para ser perdedor e, portanto, não há nada para festejar… – A menos que tenha enlouquecido!
Agora que vou já na ladeira descendente da vida, esta tragicomédia já não tem nenhuma interesse nem representa perigo social… Meus senhores e minhas senhoras, aqui têm o que é um genuíno, exclusivo, efectivo Perdedor! – Pior, um perdedor que está socialmente proibido de rir das suas perdas, infelicidades, azares, desastres, falhanços, frustrações… Um perdedor perdido, até à morte…

