EXPOSIÇÕES DE BÁRBARA ASSIS PACHECO EM 3 HOSPITAIS DE LISBOA de 16 de SETEMBRO a 17 de OUTUBRO

Será durante um mês que podem ser apreciadas as obras da pintora Bárbara Assis Pacheco,  aglutinadas em três exposições em hospitais de Lisboa. No Hospital de São José / Biblioteca – cabinet de curiosités  desenhos e peças várias. No Hospital de Santo António dos Capuchos / Igreja –

Adultícia – desenhos. No Hospital de Santa Marta / corredor de Nª Srª da Salvação – malaise de civilisation – desenhos.

 Retirámos esta informação do site da pintora (http://barbaraassispacheco.blogspot.pt/)

barbara a.p.

 CABINET DE CURIOSITÉS

 O meu universo é o dos “cabinets de curiosités”, sempre foi e sempre o disse mas nunca o tinha efectivado assim num conjunto (não exaustivo nem fechado) em vitrines e outros dispositivos.

Claro que se se vir tudo junto, o que fiz e vou fazendo e escolhendo, o resultado é um grande conjunto de curiosidades, coisas e temas insólitos, amostras do mundo, tudo com o acaso, a beleza e a ironia da vida e da natureza como denominador comum. São coisas e/ou relações em que “tropeço”, que me espantaram, que vou encontrando por acaso, em que reparei em determinado momento, em notícias de jornal ou ao meu redor.

Há pouco tempo pensei no que faltava para o materializar, fiz peças -uma das últimas foi o corno de unicórnio/dente de narval, objecto que havia sempre nos “cabinets”, assim como os bezoares e a caveira – e quis vê-lo e mostrá-lo já que no atelier ainda não tenho vitrines e está tudo disperso e arrumado, fora de vista.

Comecei por propor sítios mais convencionais de exposição mas não houve respostas e quando me lembrei da “Aula da Esfera”/Salão Nobre da Biblioteca do Hospital de São José tive um sim imediato. Se estou aqui é por causa do meu irmão: há talvez dois anos convidou-me para uma visita em grupo aos hospitais da colina de Santana, guiada por Célia Pilão, e foi quando conheci os edifícios onde agora exponho.

Os “cabinets de curiosités”, antepassados dos museus, não esquecer, demonstram ou exibem uma visão particular* do mundo, às vezes ingénua ou deslumbrada no seu desejo de abarcar tudo, todo o mundo recém-descoberto na época do Novo Mundo, por exemplo, época em que chegavam à Europa animais estranhos como o tatu, todo o exótico. São colecções de coisas tão díspares que são um mundo, o de quem o fez**, mas que contribuem para a aquisição de conhecimento, sobretudo quando exaustivos e à séria***.

E então, tendo sido este edifício um colégio e a “Aula da Esfera” uma sala de aula com lições de balística, astronomia, geometria, entre outras, em painéis de azulejos lindíssimos e únicos no mundo nas paredes, não seria assim tão estranho afinal expor isto aqui, fazia sentido. Por questões logísticas e de segurança, a exposição vai do átrio à sala da biblioteca mas não está longe da dita aula.

 ADULTÍCIA

 Quando propus expor o “cabinet de curiosités” em São José, logo na primeira reunião Célia Pilão sugeriu como outra possibilidade de local para outra exposição as capelas laterais da igreja de Santo António dos Capuchos. Fui visitar a igreja e quando vi a dimensão das capelas lembrei-me imediatamente dos rolos que o João Paulo Serafim me tinha dado um mês antes, fundos de cores para fotografias, em rolos largos e com vários metros de comprimento. E então aceitei o desafio e fiz seis desenhos, quatro dos quais estão aqui.

São caminhos na “selva escura” que está no “meio do caminho da nossa vida”; relacioná-los com a palavra “adultícia” que há pouco ouvi pela primeira vez; mais é psicanálise.

 MALAISE DE CIVILISATION

 Depois de outros sítios não terem sequer respondido e de ter sido tão bem recebida aqui na colina de Santana, aceitei a proposta de Célia Pilão para expor em Santa Marta também.

“Malaise de civilisation” é uma série que fiz em Maio deste ano e que queria mostrar num edifício que fosse opressivo de “tanta civilização” e as hipóteses de que me lembrei foram o Instituto Superior Técnico ou o monstro que é o Hospital de Stª Maria, o aeroporto ou uma estação de metro; mas como acima disse, não obtive respostas dos dois primeiros e os outros já não foram precisos.

O Hospital de Santa Marta não tem nada de opressivo, antes pelo contrário, tem uma escala e uma tipologia muito mais humanas, com um claustro muito bonito e aprazível com painéis de azulejos lindos e um repuxo e buxos no meio, não tem nada a ver com Santa Maria (ou São João no Porto, projectos idênticos) mas como queria mostrar estes desenhos aproveitei a ocasião – e sempre é um hospital com as “malaises” que se lhe associam.

“Malaise de civilisation” vem de um texto de Freud de 1929 que fui ler depois de ter ouvido a expressão e depois de ter feito os desenhos. Mas que fala do que pensava (ou então assim o li): a oposição entre o estado primitivo e o evoluído e o desejo (utópico, digo eu) de voltar ao estado primitivo para não sofrer, a necessidade inútil da beleza (ou seja, a beleza, mesmo sem utilidade, é necessária), das obras e instituições da civilização (“Kultur” no original, dizia na tradução francesa) nos afastarem do estado animal e servirem para nos proteger da natureza, da renúncia às pulsões instintivas e a repressão da agressividade se tornarem culpabilidade. E que me parece ter quase “dado a volta” hoje: ao nos afastarmos quase totalmente da natureza com tantas mediações e sem se pôr já “as mãos na massa” e quase só vivendo num mundo virtual, aumenta a tensão. A calmaria é só aparente, o animal obviamente continua a existir, dentro, e praticamente sem possibilidade permitida de escape (esse escape quase só existe no mundo virtual e isso é assustador). Equiparo a virtualidade de hoje à “consolação religiosa” como “delírio colectivo para aniquilar a realidade” de que Freud fala, esse “sentimento infantil de dependência” que hoje se observa ao se ser adulto cada vez mais tarde, sem hipótese de independência (“não tens hipóteses de ser independente mas diverte-te aí no éter, não precisas de mais nada”, parece ouvir-se). Hoje tudo o que não for produto ou divertimento fácil é ignorado e mesmo posto de lado, aniquilado, como a filosofia, a arte, a reflexão, a contemplação, o silêncio.

A civilização está doente. É um exagero? Talvez, depende do ponto de vista, claro.

 Horário das exposições:

Hospital de São José – de 2ª a 6ª das 9h às 17.30h

Hospital de Santo António dos Capuchos – de 2ª a 6ª das 9h às 17h

Hospital de Santa Marta – todos os dias das 9h às 18h

E ntrada livre

 

 

 

Leave a Reply