2014: ANO EUROPEU DO CÉREBRO E DAS DOENÇAS MENTAIS – AS CONSEQUÊNCIAS DO MAU TRATO por clara castilho

ano europeu saude mental 5

Decorre o Ano Europeu do Cérebro e das Doenças Mentais escolhido pelo Parlamento Europeu, considerando que se trata de um problema que poderá ter causas e tentativas de intervenção comuns a alguns países da Europa. Continuamos a reflectir sobre o assunto.

Não podemos falar de saúde mental sem falar de abusos sexuais. Se eles deixam traços traumáticos numa pessoa adulta, o que dizer quando tal acontece nas crianças!

Eles são definidos como todas as formas de lesão física ou psicológica, abuso sexual, negligência ou tratamento negligente, exploração comercial ou outro tipo de exploração, resultando em danos actuais ou potenciais para a saúde da criança, sua sobrevivência, desenvolvimento ou dignidade num contexto de uma relação de responsabilidade, confiança ou poder. Habitualmente são divididos em quatro tipos de maus-tratos: físico, emocional, sexual e negligência.

Estes actos são contemplados na Convenção dos Direitos da Criança, que Portugal ratificou em 1990, como uma violação dos seus direitos. Em consonância, também na  Lei de Protecção de Crianças e Jovens em Perigo (n.º 147/99).

ano s.m. mau trato

A questão que põe é esta: uma adversidade prematura tem impacto no cérebro, amplificando os riscos já existentes? Pode esse facto conduzir as crianças a ainda maiores riscos na adolescência, tais como depressão, ansiedade, perturbação de conduta, adições, sexo sem protecção, condução rodoviária perigosa?

Se existem muitas dúvidas em relação à forma como se processa, existe também a certeza deque maus tratos físicos estão associados a alterações na actividade cerebral. Já eram conhecidas imagens de ressonância magnética de crianças sofrendo de maus tratos comparadas como uma população que os não sofria.

Mas, novos estudos estão a tentar ver as consequências na amígdala (centro regulador da agressividade). O que se verifica é semelhante ao encontrado em adultos expostos a situações de guerra. Os estudos também abrangeram o campo caloso e o lobo frontal (zona relacionada com a regulação social e dos comportamentos).

Vejamos um exemplo: No Hospital Fernando Fonseca (Amadora Sintra), entre 2009 e 2010 foram sinalizados 247 casos, 25% dos quais crónicos, referentes a crianças do sexo feminino, com uma idade média de 9 anos. No topo da lista das situações sinalizadas estão a violência física (161 casos) e o abuso sexual (80 casos). Isto corresponde a um aumento de 76% dos casos sinalizados em relação a 2005 e um aumento do número de pais maltratantes.

Outro: dados mais recentes confirmam que existe um maior número de crianças vítimas de maus-tratos físicos e psicológicos a chegar às urgências, sendo isto interpretado pelos médicos como um dos efeitos da crise económica.

O director do Plano Nacional para a Saúde Mental, Álvaro de Carvalho, concluiu que as crianças são vítimas silenciosas das consequências da austeridade. Em entrevista à Rádio Renascença (6.03.2014), disse que a explicação é simples e está estudada internacionalmente: “A situação de crise provoca um aumento de tensão, em primeiro lugar nos adultos, que depois se vai repercutindo na cadeia familiar e na cadeia dos conviventes. E como é infelizmente tradicional, quem tem menos poder em qualquer grupo, acaba, muitas vezes, por ser o bode expiatório da situação de tensão, desespero, angústia, depressão, de quem tem mais poder, que neste caso são os adultos”, afirmou.

 Mas será que estes traumatismos não podem ser “revertidos”? Se as intervenções que se seguem forem o mais precoce possíveis acredito que podemos recuperar as pessoas que passam por estas situações, recuperar no sentido em que poderão enfrentar as suas com alguma saúde mental e capacidade de serem felizes. Acredito que: “História não é destino. O apego é recuperável”( Peter Fonagui).

Leave a Reply