BISCATES – “As independências e as causas dos divórcios”- por Carlos de Matos Gomes

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Como podem ser vistas as atuais pulsões independentistas na Europa à luz das causas gerais dos divórcios? (Bela tese de doutoramento!)As causas que os peticionários anunciam publicamente são claramente do género da mulher de meia idade que “encheu o saco” de vida doméstica: «Estou farta de ti. Não preciso de ti para nada. Só me exploraste. Limitaste a minha autonomia, sufocaste a minha criatividade e génio. Nunca me ouviste. Vou à vida, recuperar o tempo perdido.» Éo mesmo discurso das clínicas do tempo: faz-se um lifting, uma lipoaspiração, uma depilação, mete-se um silicone! As televisões até têm – elas têm tudo – um programa desses, o Second Life!

Também há quem se divorcie porque surgiu um outro cheio de novidades, de promessas e comichões, um outro que oferece mais e torna o outro num mono.Ou porque entretanto surgiu uma herança inesperada ou saiu um bilhete premiado na lotaria. O novo surto de independências é impulsionado tanto pelo legítimo desejo de uma segunda oportunidade como pelo da facada num velho matrimónio. Quem pede o divórcio garanteque vai recuperar a liberdade!

É nesta fase entre a Second Life e a Caça ao Tesouro que estamos relativamente às duas esposas mais desesperadas da Europa: a Escócia e a Catalunha. Se houvesse racionalidade nestas petições, à espera do resultado da Escócia devia estar a região do Champanhe, um uisquinho à entrada, uma tacinha com borbulhas para a sobremesa, mas de facto está a Catalunha. Se há coisa que escapa à crise do défice e da austeridade, que desafia a razão, são as justificações para as independências. Como todos têm direito à liberdade e à felicidade basta ir à história e à geografia. Em algum ponto no tempo e no espaço um dado grupo humano teve uma bandeira e um chefe, um prato típico e um linguarejar próprio.

A discussão doméstica da Escócia está sanada sem abandono do lar. Resta a Catalunha. Utilizando os argumentos dos clarins da independência – Pujol e agora Artur Mas – toda a bacia do mediterrâneo podia ser fundamentadamente dividida em talhões independentes: a Sardenha, a Córsega,a Provença (ducado), Nápoles (reino), a Sicília (reino), Maiorca e Minorca, Génova (república), Veneza (república)têm dialectos mediterrânicos e históricos governos. Só não têm um arcanjo libertador como o Pujol, que ia colocar o patriótico dinheiro a Andorra. No norte da Espanha estão os bascos espanhóis, mas pela história e a geografiatambém o Piemonte, a Alsácia, todos têm direito a referendarem a saída das atuais casas. Enfim, se o Liechtenstein é independente com 160 km2 e 36 mil almas porque não uma Europa à sua medida? Como diria o velho Mao na Revolução Chinesa: que mil Liechtenstein floresçam!

Não me custa, a sério, imaginar uma Europa de Liechtenstein, de Andorras, de S. Marinos, de Mónacos, atéde ilhas do Castelo do Almourol, onde o Luxemburgo seja uma superpotência, todos com economias em offshore, zonas francas, paraísos fiscais, casinos, corridas de automóveis. Se o Isaltino Morais prometer fazer de Oeiras o Mónaco da Costa do Sol (a nossa Côte d’Azur) eu voto nele para príncipe. Palavra.Só apreciaria que me assegurassem que uma Europa de Liechtensteines, de Mónacos, de Andorras é viável! Os comparsas catalães do Pujol vendem essa ideia. A maioria dos europeus que vive em territórios com língua e história – todos – pensa que lhe estão a vender banha de cobra.

Mais do que argumentos para a sua justificação,o problema dos divórcios e das independências é o dia seguinte (foi o que os escoceses perceberam).Com o divórcio e a independência há uma realidade que deixou de existir. Ou que passou a existir como destroços. O que fazer dos destroços do divórcio? Onde vão eles parar? Quem se vai aproveitar deles? O mesmo para as independências.

É evidente que a actual febre dos divórcios traduz um estado de espírito e este é fruto de uma realidade de desilusão. Depois da fase dos casamentos,tão interesseiros quanto apaixonados,que deram origem à União Europeia, chegou o tempo dos divórcios, igualmente interesseiros e apaixonados. Depois da fase de fazer o pão passamos ao pão ralado. Não é a mesma coisa, mas é vendida pelos mesmos. É a crise (material e a ética). O salve-se quem puder. Cada um por si. Mais do que de divórcios e de independências trata-se de fugir com o produto do assalto, ou do saque, ou da herança. A imagem do Pujol libertador da Catalunha com a pasta do dinheiro a caminho de Andorra não me sai da cabeça.

Os atuais nacionalismos assentam em dois pilares nunca revelados: a opção por um novo protector em tempo de crise e o egoísmo do tipo da criança a quem saiu um chupa-chupa e não o quer partilhar.

Quanto ao novo protector, que na linguagem das mulheres da vida tem a prosaica designação de proxeneta: os pregadores das independências propõem a separação das suas oprimidas pátrias das odiosas metrópoles por não poderem viver com elas, com essas megeras, mas vão juntar-se a elas na União Europeia, onde quem manda é uma sogra de bigode e cacete: a Alemanha! Os novos independentistas não o dizem – jamais! – mas preferem ficar sujeitos a uma Alemanha unificada e reunificada, a negociar com poderes mais fracos em Londres e em Madrid, por exemplo. O sonho não declarado dos independentistas é serem Liechtensteins à volta da Alemanha. É uma opção, mas convinha explicitá-la.

Quanto ao egoísmo, a questão tem a ver com a possibilidade de escapar com o chupa-chupa escondido no bolso do bibe (o petróleo no caso da Escócia, a pastinha com as notas da Catalunha a caminho do offshore dos Pirinéus) ou um deles julgar que tem um negócio onde se safa melhor largando despesas fixas para o abandonado e assim se vender mais barato. Estamos a falar de assuntos domésticos. De patriotismo de mercearia. Respeitável, é claro, mas sem epopeia, nem arcos do triunfo.

É evidente que os povos são soberanos e é melhor fazerem estas escolhas com referendos e tráficos de divisas e fugas aos impostos do que à canhoada. Mas a História pode ajudar a prever o resultado das suas opções. Se repararmos num mapa da Europa vemos que as comichões independentistas ocorrem na periferia da Europa: Escócia, Catalunha, País Basco, Córsega… É fácil verificar que enfraquecem estados-nação de média dimensão periféricos – Reino Unido e Espanha. Fortalecem os chamados poderes centrais, a Alemanha.

Ora, sempre que os poderes centrais atingiram uma determinada massa crítica lançaram-se numa guerra pela hegemonia continental.

É isto que pretendem os líderes independentistas? Lembraram-se de avisar disto os seus povos? Já tornaram o alemão obrigatório nas suas escolas? Berlim e Frankfurt são mais generosas e bondosas que Londres e Madrid?

1 Comment

  1. Há muito tempo que não lia algo de tão disparatado. Retórico, manipulativo (a Escócia, a Catalunha e o País Basco não são, nem pela dimensão nem pela história, que pelos vistos desconhece, S. Marino ou Andorra), sem qualquer compreensão do que são os processos identitários, só lhe falta censurar a nossa independência em 1640, com argumentação tão superficial como esta. O aproveitamento dos erros de comportamento do líder catalão, que existem, substitui a análise política pela chicana. A comparação das motivações para a independência com as motivações que levam aos divórcios é de chorar, não sei se está traumatizado pessoalmente, mas também de divórcios não percebe nada. De facto, não percebe nada de nada e escreve só porque lhe dão espaço. Lamentável.

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