O SOM DE TRAVADINHA – UMA DAS “ALMAS” DE CABO VERDE – por Clara Castilho

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Quem foi Travadinha? Chamava-se António Vicente Lopes, nasceu em Cabo Verde, era violinista e aprendeu a tocar sozinho. Não se ficava pelo violino, também a viola, o cavaquinho e o violão, nas suas mãos, encantavam quem o ouvia. Mornas e coladeiras, assim como géneros musicais tradicionais de Cabo Verde, em tudo era mestre.

Começou a tocar nos bailes populares quando tinha apenas nove anos, mas só alcançou a fama já nos seus quarenta anos, quando empreendeu, em 1981, uma tournée por Portugal. Faleceu em 1987 no auge da popularidade.travadinha

Tomei conhecimento com a sua música com CD, de edição francesa, “ Musique capverdienne : Travadinha”. Que oiço frequentemente, uma música contagiante de boa disposição, por vezes um pouco triste.

Em sites estrangeiros, referem a sua música e o respeito que os músicos contemporâneos têm pela sua música.

No XXVII Simpósio Nacional de História, de Julho de 2013, realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, foi apresentada uma comunicação, de Luiz Moretto, com o título Ritmos da Diáspora: o Violino como Tradição em Cabo Verde. Luiz Moretto é Bacharel em Música e Doutorando no Departamento de Estudos Brasileiros e Portugueses do King´s College London, sob orientação de David Treece e co-orientação de Frederick Moeh.

 […] O músico Travadinha é, provavelmente, o primeiro violinista a alcançar notoriedade no exterior, gravando em Portugal a sua obra. Vivendo no contexto social de transição para o pós-colonialismo, quando os movimentos políticos de independência estão voltados ao importante reconhecimento das subjetividades africanas e identidades nacionais na Guiné e em Cabo Verde. Este é um período que muitos cabo-verdianos buscam na migração a alternativa para escapar dos sintomas de subdesenvolvimento de uma economia dependente de chuvas sazonais escassas para manter-se produtiva.

Não apenas por sobreviver artisticamente a este período difícil mas também devido a sua coesão de estilo e a expressividade das suas interpretações, Travadinha é referido neste estudo como o primeiro representante da tradição de violino em Cabo Verde a ser analisado. Ao ouvir Travadinha e seu grupo, surge a sensação de familiaridade com estilos brasileiros, mas ao mesmo tempo um estranhamento. Diferentemente da tradição de rabecas no Brasil, os estilos são tocados sobre ritmos originários de Cabo Verde, uma estética construída por elementos musicais africanos, predominantemente com instrumentos de luteria europeia embora seja uma tradição popular.

 O violino de Cabo Verde é outro contexto, outra sonoridade, uma maneira popular de se tocar o instrumento. Apesar das similaridades na narrativa histórica de como as duas nações Cabo Verde e Brasil foram construídas, ou mesmo na miscigenação entre os povos, a questão a ser tratada é de constituição de marcos identitários através da música. O que pode ser considerado tradição cabo-verdiana, possui ritmos únicos, maneiras distintas de condução harmónica, um timbre também compreendido na ótica de uma expressão própria.

 […] Considerando as várias tradições violinisticas ao redor do mundo (como a cigana do leste europeu, a irlandesa, a do jazz, do bluegrass, a da música carnatica indiana), o violino de Cabo Verde é uma entidade própria, a escola de violino africana, tendo Travadinha como um dos representantes entre Bau, Malakias, Nhô Djonzinho Alves, Nhonany Djarfogo, Nhô Kzik, Djo de Kunim e outros nomes.

 […] Travadinha modelou sua performance através do repertório e dos ritmos comuns aos músicos da sua época. Além disso seu estilo e expressão, mesmo fora do mercado e da mídia de alto consumo, atingiu a mesma dimensão de outros tantos músicos improvisadores, transportando-o para além das fronteiras do arquipélago. As narrativas de eventos familiares aos cabo-verdianos como a perda de amigos para terras distantes, o amor acabado, alegria e sofrimento aliados a expressões estilísticas como a morna, coladeira, mazurca trouxe uma contribuição para a tradição e a história musical de seu país. A intenção rítmica e as respirações na performance de Travadinha são complexas dentro da notação tradicional.

 Oiçamo-lo.

 

 

1 Comment

  1. Porque razão os músicos actuais nunca falam do Grande Travadinha?Será medo ou falhados que nunca chegarão a ser como ele?

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