CRÓNICAS DO QUOTIDIANO – SALÁRIO MÍNIMO, A HUMILHAÇÃO DE QUEM TRABALHA NO DURO – por Mário de Oliveira

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Dos míseros 485 euro brutos/mês em que se manteve alguns anos, o salário mínimo de quem trabalha no duro, 40 horas por semana ou mais, sobe em Outubro próximo para os míseros 505 euro brutos/mês. A decisão foi tomada por este governo PP/PSD, com o acordo entusiasta de uma central sindical zeladora dos interesses do grande capital explorador. Precisamente, no mesmo dia em que o novo seleccionador de futebol de Portugal, o senhor eng.º Fernando Santos, foi apresentado ao país, com honras de abertura nos telejornais nacionais, com um salário mínimo de 100 mil euro/mês, de acordo com notícia de um matutino de Lisboa, que não foi desmentida pela respectiva Federação. Façam as contas e vejam quantos anos têm de trabalhar no duro, 40 horas por semana ou mais, os trabalhadores, elas e eles, por conta de outrém, para apurarem o equivalente ao salário mínimo de um mês do seleccionador nacional de futebol. Bastaria isto para vermos quanto o aplaudido regime democrático é bem o pior de todos os regimes. Só não se percebe porque há-de acrescentar-se a esta definição, aquela frase, “à excepção de todos os outros”. Quais?! Os países da Europa e do Ocidente bem podem orgulhar-se, mas para sua vergonha, de serem países civilizados e de raízes cristãs! E depois digam que a escravatura foi extinta e que Portugal foi um dos primeiros a fazê-lo. Somos cínicos incorrigíveis e ainda nos orgulhamos. Mas por que razão há-de um profissional de futebol, jogador ou treinador, ter um salário mínimo que lhe garante num ano, o que os trabalhadores no duro das empresas não auferem em toda a sua vida laboral? Onde está a igualdade entre seres humanos? Onde a dignidade do trabalhador por conta de outrém? Pode falar-se de dignidade do trabalho, quando este está na continuidade do “tripallium”, o instrumento de tortura dos antigos escravos? Evoluímos, ou regredimos? O que nos distingue dos antepassados da idade da pedra? As tecnologias com as quais nos manipulam e oprimem? Podemos dizer-nos humanos, enquanto o nosso ser-viver colectivo não for organizado ao modo dos vasos comunicantes? Haja pudor. Tanta e tão grande degradação humana social não se extingue, só porque somos escravos com telemóvel!

25 Setº 2014

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