EDITORIAL – «Eles são todos iguais»

logo editorialNão se pode dizer que sejamos melhores ou piores. É uma questão de perspectiva. Mas que somos diferentes e que reagimos de forma original ás revelações (e ás manipulações dos media), disso não restam dúvidas. Em que país regido por um regime democrático, com liberdade de expressão, seria possível que sobre um chefe de Estado pairasse a acusação de ter sido (alegadamente por motivos académicos) agente informador da polícia política da ditadura? Ou que sobre a mesma figura se diga ter tirado proveitos, por informação ilícita e privilegiada, de um negócio que dissipou muitos milhões de euros do erário público? Que sobre um ministro do actual governo, entre outras suspeitas de natureza diversa, se diga ter metido ao bolso comissões pela compra de material para a Marinha? Ou de ter fornecido a uma central estrangeira de inteligência milhares de fotocópias de documentos confidenciais? São suspeitas, dir-se-á. A informação sobre o fellatio de Monica Lewinsky também começou por ser uma suspeita e fez pairar o fantasma do impeachment sobre Bill Clinton. Se o caso tivesse ocorrido numa sala, oval ou quadrada, do Palácio de Belém, a mera suspeita traria apoiantes ao protagonista.

O caso Tecnoforma é gravíssimo. Um deputado que vicia a declaração de IRS deve ser punido com severidade. Um primeiro-ministro que praticou esse crime, provada que seja a sua culpa, deveria ser imediatamente demitido, caso não tenha a ombridade de se demitir. «Eles são todos iguais» é a justificação que os eleitores dão para votar em pessoas que se sabe ou se suspeita não irem corrigir o que está mal (quase tudo).

Pelo debate televisivo entre os dois candidatos do PS, ficámos a saber (os que ainda não sabiam) que, como se diz, «vamos ter mais do mesmo». A falta de conteúdo no discurso de ambos os pretendentes à sucessão, garante-nos que, caso qualquer deles seja eleito, no essencial, tudo se manterá nos seus lugares – os trabalhadores trabalhando, os desempregados esperando emprego, os corruptos enriquecendo. Porém, e sem ser com motivações eleitoralistas, dizemos – Este governo, este primeiro-ministro, excedem tudo o que é admissível. Venham os «outros»! Um dos outros.

Nem que se chegue depois á conclusão de que, afinal, não eram tão diferentes dos actuais quanto isso.

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