Entraram em San Sebastián num comboio já repleto de fadiga. Logo a seguir a Irun ou assim me pareceu de tal modo me mentalizara para a longa travessia da península. Instalaram-se no compartimento com seus cestos de emigrantes, garrafões, sacos do farnel e malas atafulhadas de roupa em segunda mão que poria em alvoroço a aldeia do destino. Das poucas palavras se percebeu então que eram Marido e Mulher e um Estranho ao casal, porém companheiro desta aventura inglória, todos trasladados dos alqueives da Beira Alta para o industrializado Nordeste basco. Mão-de-obra para substituir outra mão-de-obra escrava de gauleses, suíços ou alemães, similar à de outras geografias desembarcando em pleno mar da palha, pronta a ser transformada em mais valia do capital.
Intimidados porque eu lhes parecia estrangeiro, seria ou não seria?, ofereceram-me então de beber com a sabedoria atávica de que a minha resposta esclareceria o que o meu silêncio tinha calado até ali. Disse «não, muito obrigado!», três palavras apenas que desanuviaram o desembaraço e que levou o Marido a exteriorizar o seu à vontade: «Mas este senhor é português!». E então se lhes desatou a voz e a memória, evocando amargamente as recordações, os trabalhos, as idas e vindas neste comboio de tantos sonhos e de frustrações, evitando talvez as alusões a pessoas ou a factos, não fosse o diabo tecê-las, neste caso o quarto passageiro que se refugiara atrás dum livro em que parecia estar muito interessado.
E falaram então das suas experiências com emigrantes de outras paragens, saíram na rifa os argelinos, segundo eles gente estranha, que não come carne de porco, deixando no ar a constatação de que não satisfaziam as exigências do trabalho porque não se alimentavam para além duma garrafa de leite. E foi a vez do Marido relatar uma história recente, precisamente daquele mesmo dia de trabalhos na via férrea, perto de San Sebastián, quando o capataz mandara um argelino virar uns toros. Como este lhes pegasse com cuidado para não se aleijar, logo o capataz o tinha admoestado com rispidez: «Estás aqui estás a pegar na saca e a ir à oficina receber a féria e ala…». E confidenciou, com manifesto orgulho, que a ele o encarregado não reprovava («A usted no le digo nada»), aos marroquinos e argelinos, sim.
De vez em quando o Marido afaga as mãos, os dedos doridos, calos antigos e recentes. Doem-lhe as mãos, esfrega-as em jeito de massagem e dói-se. Mas tem coragem, quando chega a casa arma este seu modo aparentemente desprendido para animar a Mulher: «Eu é que sei o que me vai cá dentro!».
Abriu-se uma janela na conversa, aproveitada para o Estranho entrar em cena. Trabalhara com argelinos na zona de Paris, os quais reprovavam os portugueses porque se esforçavam muito por pouco dinheiro. E que quando os magrebinos se deitavam não lhes doía nada, nem os braços, nem as costas, enquanto ele se sentia derreado. E depois de breve silêncio, foi a Mulher que apanhou a deixa para intervir com veemência: «Bandoleiros, mandriões! Quem paga, gosta de ver trabalho, não?» E argumentou com provas recentes: «Porque é que as minhas patroas não me pagaram hoje? Porque eu lhes faço todas as vontades, e também com receio que eu não volte das férias».
Gente com anos de trabalho, igual a tanta com histórias mil vezes ouvidas e gravadas nos corredores deste lento comboio com o pomposo nome de Sud-Expresso. E haveriam de continuar a ouvir-se: os três emigrantes, então a trabalhar em Espanha, iam passar três dias a uma aldeia próxima de Figueira de Castelo Rodrigo (havia festa em Agosto), depois do que retornariam à rotina dos dias sem se questionarem sequer como tudo isto começou.