REFLEXÃO – Uma entrevista de Lídia Jorge a Frei Bento Domingues – por Adão Cruz


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Ontem, ao pegar na Revista do Público, deparei com uma entrevista de Lídia Jorge a Frei Bento Domingues. Confesso que, habitualmente, não leio nada que diga respeito a assuntos da igreja nem leio nada escrito pelos seus agentes. No entanto, procuro ler tudo o que me cheire a denúncia e desmascaramento da igreja, pois considero as igrejas e as religiões a principal causa do obscurantismo e da ignorância da humanidade, e uma das principais origens da violência e da barbárie. Lembremos  exemplos dos dias de hoje mas não esqueçamos  exemplos mais antigos, como o holocausto da Croácia.

Mas como se tratava de duas respeitáveis personalidades do nosso panorama intelectual e cultural, iniciei a leitura. Conheci pessoalmente Frei Bento e conversei com ele uma vez, há muito tempo, quando ele andava, como diz Lídia Jorge, pelos seus trintaianos. De Lídia Jorge pouco tenho lido e não conheço bem a sua forma de pensar.

Ao fim de algum tempo comecei a ver que Lídia Jorge conduzia a entrevista  de forma cortês, afável, inofensiva, em modos de conversa para entreter, o que me soube um pouco a placebo. É certo que a entrevistadora foi dando alguns “beliscões” ao entrevistado, o qual reagia com a destreza de um hábil pensador, mas valendo-se dos subterfúgios, dos raciocínios e pensamentos viciados, das habilidades para contornar a verdade e das nebulosas filosofias de que a igreja sempre se valeu para defender o indefensável, isto é, a sua posição perante a evidência e os avançadíssimos conhecimentos do mundo actual.

Mas um teólogo progressista da craveira de Frei Bento merecia mais do que “beliscões”, merecia umas boas “dentadas”. À falta de alguém como Christopher Hitchens ou Richard Dawkins, que não estariam para aí virados, dado que, como eu, já não perdem tempo discutindo com pessoas crentes, penso que haveria entre nós muito boa gente capaz de lhas dar. Mas nós compreendemos bem que nada disso interessa ao sistema que nos enforma.

Como disse atrás, já lá vai o tempo em que eu discutia religião com pessoas crentes, o que sempre se me afigurou de uma extrema inutilidade. Gostaria, no entanto, de fazer uns pequenos comentários a alguns dos temos abordados na entrevista, sem qualquer presunção e com a humildade de quem pouco sabe e muito gostaria de aprender. Em primeiro lugar, a noção de Bem e de Mal não pode ser percebida e entendida se não conhecermos a Verdade. Ninguém é senhor da Verdade mas somos senhores do caminho da Verdade, por mais longo que seja. E o caminho da Verdade é o caminho do conhecimento, com o conhecimento científico à cabeça, dentro da mais lógica das lógicas. No entanto, toda a crença é legítima e todo o crente deve ser respeitado, ainda que não tenhamos o mínimo respeito pelas crenças em si mesmas.

Em segundo lugar, não sei o que Frei Bento entende por ciências duras e ciências moles, dizendo que são estas as que entendem os homens (talvez convenha à igreja o que sempre conveio, o nem sim nem sopas), da mesma forma que considero abusiva a afirmação de que todos somos crentes e de que a fé é um grau de confiança em alguma coisa que nos transcende. Em relação a esta armadilha, lembro que na minha terra o povo diz que se trata de  pôr o carro à frente dos bois.

Refere ainda Frei Bento que São Tomás diz que “livre” é aquele que é causa de si mesmo e que é senhor dos seus actos, o que é um contra-senso e um absurdo dentro da doutrina da igreja que apelida de ovelhas e de rebanho os seus fiéis. Provavelmente, sem querer, São Tomás referia-se aos ateus.

Admirei a franqueza de Frei Bento quando diz que “João Paulo II era um polaco com uma devoção estranha, uma coisa muito primitiva. A religião dele não ia lá muito longe. Idolatria”.  Todavia foi feito santo à pressa. Admitimos que não foi a santidade (o que haveria a dizer sobre isto!) mas a conveniência, muito mais terrena do que celestial, a empoleirá-lo no altar.

Para terminar, uma última questão em forma de interrogação (causou-me alguns arrepios a referência a Fátima em resposta a uma pergunta de Lídia Jorge). E pergunto, como é possível um homem com esta envergadura intelectual falar de Fátima de forma tão tolerante, tão compreensiva, tão humanizante, tão pouco racional, sabendo que se trata da maior mentira e da mais monumental fraude do século vinte?

Adão cruz

1 Comment

  1. ” “João Paulo II era um polaco com uma devoção estranha, uma coisa muito primitiva. A religião dele não ia lá muito longe. Idolatria”. Todavia foi feito santo à pressa. Admitimos que não foi a santidade (o que haveria a dizer sobre isto!) mas a conveniência, muito mais terrena do que celestial, a empoleirá-lo no altar.”

    Nem mais -Maria

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