2014: ANO EUROPEU DO CÉREBRO E DAS DOENÇAS MENTAIS – AS RESPOSTAS DE APOIO NÃO SÃO SUFICIENTES por clara castilho

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Decorre o Ano Europeu do Cérebro e das Doenças Mentais escolhido pelo Parlamento Europeu, considerando que se trata de um problema que poderá ter causas e tentativas de intervenção comuns a alguns países da Europa. Continuamos a reflectir sobre o assunto.

As assimetrias, no que se refere a apoios na área dos problemas de saúde mental,  entre as grandes cidades e o resto do país são muito grandes. Há locais sem serviços de urgência específicos ( Alentejo e Algarve) . Há falta de camas para internamentos.

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No que se refere às crianças, só existem 20 camas no país (dez em Lisboa e dez no Porto) para internar crianças e adolescentes com problemas mentais, sobretudo por falta de enfermeiros. Isto leva a que sejam atendidas em serviços de adultos, o que é extremamente desadequado.

Uma das classes profissionais que pode responder aos problemas de saúde mental é a dos psicólogos. “Encontre uma Saída” foi uma proposta da Ordem dos Psicólogos lançada em Março deste ano, numa tentativa de sensibilização pela saúde mental dos portugueses. Duarte Zoio, responsável pelo Gabinete de Comunicação da Ordem, afirmou:  “Com esta campanha, a OPP pretende mostrar que, ao contrário do que algumas pessoas pensam, não vai ao psicólogo “quem está maluco” e que é normal uma pessoa ir a um psicólogo para que este a possa ajudar, fornecendo-lhe ferramentas para enfrentar os seus problemasou, simplesmente, para melhorar as suas capacidades ou a orientar. Paralelamente, queremos que esta campanha transmita uma ideia de proximidade e que tenha coerência comunicacional com outra mensagem que temos vindo a passar: uma ida ao psicólogo não é um gasto, mas um investimento”.

Sabemos que nos serviços públicos (hospitais e centros de saúde) o número existente é mínimo. Também nas escolas, em que deveria intervir sobretudo a nível preventivo, deveriam existir em muito maior número.

Outra é a dos médicos psiquiatras e pedopsiquiatras que actuam nos serviços hospitalares. Mas também aqui o número existente não permite acompanhar devidamente os casos encaminhados. Uma consulta de mês a mês (quando o é…) não resolver quase nada.

O que revolta é que, quando existem formas de tentar corresponder às necessidades da população, são cortadas as pernas a quem tanto tinha andado e se esforçado para tentar encontrar soluções. É o casos, por exemplo, de um projecto que se implementou na zona do Algarve, no centro de saúde de Loulé.

Face à  inexistência de pedopsiquiatras na referida região criou-se, entre o Departamento de Pedopsiquiatria do Hospital Pediátrico de D. Estefânia, em Lisboa e a Administração Regional de Saúde do Algarve, no ano de 2001 um protocolo para supervisionar os Grupos de Apoio à Saúde Mental Infantil. Assim trabalharam equipas multidisciplinares, com médico de família, psicólogo, enfermeiro, terapeuta ocupacional, com referida supervisão.

Esta forma de articulação recebeu dois prémios de boas práticas (em 2008 o Prémio João dos Santos, instituído pela Associação Portuguesa de Psiquiatria da Infância e da Adolescência, em 2009 recebeu o prémio “Prevenção da Doença” instituído pelo Alto Comissariado para a Saúde) e foi apontada como exemplo a expandir a todo o país. Acontece que este tipo de protocolo facilmente cai….

De acordo com o relatório “Portugal Saúde Mental em Números 2013“, só 16,2% das pessoas com perturbações mentais ligeiras e 33,8% das que sofrem de perturbações moderadas recebem tratamento em Portugal.

Não nos espanta, com esta falta de capacidade de resposta, o aumento de suicídios, de agressões resultantes de crises psicóticas, de incapacidade de actuar na área das dependências.

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