CONTOS & CRÓNICAS – “Desencontro” – por Manuela Degerine

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Dispenso-os de decidirem a minha vida, crueldades com boas intenções ou, o mais frequente, sem quaisquer intenções… Tratei da mãe durante catorze anos, quando ela morreu quiseram partilhas, entreguei-lhes tudo, até a empresa, fui viver para as casas deles… Agora recuperei a liberdade. Ainda me resta a pensão, que chega para o meu sustento. E sei tomar conta de mim. O olhar dos filhos é o espelho onde me vejo mais velho. Mais caduco… Tarde me hão de compreender: estarei morto. Que idade me dá? Some mais três: sessenta e oito. E no entanto passei por muitas. Não acredita?

Os meus netos nunca me chamam “avô”: sou o “cota”. A culpa é dos pais que ouvem e consentem, talvez o tratamento exprima moda, brincadeira, falta de maturidade – mas custa-me. Pouco importa que venha do quimbundo e signifique “superior”, como a senhora diz, os meus netos são portugueses e para eles significa chato, ignorante, empecilho, ultrapassado… Consoante as ocasiões. Gostava de mais afeição, mais atenção, mais consideração. Compreende? “Idoso” também pouco vale, olhe, como o canceroso sofre do cancro, parece que o idoso sofre da idade, que é uma doença mortal, muito contagiosa e por isso, respeitando um perímetro sanitário, eles se sentissem mais protegidos; distanciam-se dos velhos para não vir a sê-lo. Já reparou? Só por conhecerem a informática, uma competência muito relativa, os meus netos pensam que sabem tudo, o computador tornou-se a cabeça, o café, a sala de convívio, namoram à frente dos ecrãs, passam as noites no Facebook e quejandos, mas nem os pais deles, todos doutores, viveram várias vidas, como eu, aqui e no Ultramar, nunca chegaram ao limite de nada, fiz parte dos Comandos, conheço o rigor, o sangue-frio, o altruísmo, a responsabilidade, que pai os transmite agora aos filhos, nem eu consegui, não lhe falo das operações, estávamos lá para garantir interesses nacionais, não para os definir, isso era política, olhe, basta a peripécia do jantar, uma entre tantas, esta definiu-me a mim, era oficial de dia, servem grão com atum, provo, tudo estragado, recuso-me a fazer de contas, nem aos porcos se dá comida podre, para não empregar aqui outra palavra, sou portanto chamado ao Comandante, que me despacha para o tribunal militar: o que eu esperava. Ora no julgamento o Jaime Neves tirou a patente e pediu o dobro da minha condenação… Fui absolvido. Encontra no Facebook homens com esta estatura? Um cota deve afinal ser isto. Confesso que vivi e continuo vivo. Pablo Neruda?… O Salvador Allende, sim, lembro-me bem. Ter mais anos não é sempre viver mais, mas ainda me sinto crescer por dentro, reparo em coisas que antes me escapavam, quando estava nos Comandos não ignorava que podia ser morto, o que for será, pensava eu sempre, no entanto se então tivesse sido, morria menos inteligente… Não me arrependo de ter vivido, esta viagem tem surpresas mas todos sabemos como se conclui, vou entretanto caminhando sem pressa, olho vivo e pé ligeiro, aproveito o sol, o vento, os pêssegos maduros, as conversas possíveis… Enquanto a cabeça ajudar, continua a valer a pena, não lhe parece?

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