Era um mistério aquele ninho de vespas enorme no bico do telheiro do canastro. Um ninho tão grande como a cabeça de um homem com um buraco no meio por onde entravam e saíam vespas de um tamanho nunca visto em tempo algum.
Chamaram o professor que fora apicultor e também ele estranhou tal fenómeno. Alertou para o perigo. Com um enxame não se brinca. Irritadas, as vespas perseguem um homem e podem matá-lo. A solução seria chamar os bombeiros para o desfazerem, talvez com um jacto de água ou com um maçarico.
O milho estarrecia no canastro e não era possível tirá-lo para malhar na eira. Tudo tem o seu tempo e corria o risco de se estragar. As borboletas das lagartas já se soltavam pelas frinchas das ripas e à noite atraíam os morcegos que voltejavam numa tontaria frenética para atingirem a sua presa.
Os que passavam por ali espreitavam por cima do muro e davam os seus palpites. Palpites sobre as vespas e o modo de se verem livres do enxame. Talvez fossem as vespas asiáticas de que falaram na televisão ou as vespas do castanheiro que estavam a minar a saúde dos ouriços do próximo ano. O ninho era motivo de longas conversas nos encontros fortuitos na calçada.
Havia ainda alguém mais atrevido que aproveitava os buracos do muro para suporte dos pés, e se erguia quase à altura do ninho, na espreita do fenómeno, para melhor poder alimentar a fantasia que por ali andava à solta como as vespas à volta do canastro.
O certo é que o ninho lá esteve semanas a fio sem que ninguém encontrasse solução, deixando as vespas laborar em paz.
Começavam pêras e maçãs a amadurecer e para além das bicadas das pegas, a fruta aparecia toda picada, sugada, começando a apodrecer até cair de estiolada no chão. Servia ao menos para engrossar a lavagem dos porcos ou de estrume para a terra. Malditas vespas que não deixavam nada vingar até amadurecer! Grande praga!
Alguém mais atrevido decidiu com uma vara comprida e de longe tentar desfazer o ninho. Foi tal a nuvem de vespas que se soltou do canastro que ele teve de fugir a sete pés. Valeu-lhe a largura e amplidão do campo para escapar ileso à perseguição do inimigo. Vindo da Ásia, só podia ser uma invasão de insectos islamistas…criados à imagem do deus americano.
Do campo de cima, o destruidor foi espreitando o desenrolar dos acontecimentos, e com um jacto de água da mangueira do poço conseguiu desfazer o ninho de “jihadistas”que caiu de moleza no chão. Sem a intervenção da NATO não houve efeitos colaterais.
Quando ao outro dia tudo parecia estar calmo, voltou-se ao campo de batalha e reparou-se que não passava de um ninho com favos e larvas. Pais, mães e filhos. Eram apenas maiores do que o normal. Algumas vespas andavam por ali desgarradas, perdidas, e tinham o dobro do tamanho de qualquer vespa ou abelha mas não deixavam de ser os mesmos insectos.
Pouco se sabe ainda acerca da sua biologia ou comportamento. São apenas diferentes.
A diferença gera a desconfiança e a desconfiança leva à guerra …