«Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
[…]»
– Cesário Verde, in O Sentimento dum Ocidental, 1887.
Marcha de Lisboa
A manhã acorda aos gritos
com vómitos de tédio…
Já se levantam aflitos
os vizinhos do prédio.
Lá está o som frio
na telefonia a tocar
leimotivs de vazio
para o povo trautear.
No reumático das ruas
anúncios sem graça
exibem quase nuas
mulheres e desgraça.
Estalam panos de graxa
entrechocam-se expedientes
brilham ilusões na Baixa
hospitais carimbam doentes.
Lençol sujo e suado
passa como de rio
o Tejo encardido
e saudoso de cio.
Salvé Rainha!
Peixeira e Salomé…
Lânguida andorinha
com meneios de maré.
Para quê boina maruja
ao que no sonho viaja?
Sem que a boina lhe fuja
ele já não se acha…
Adiante aponta o cego
desafinada viola
prime o gatinho ao eco
e acerta na esmola.
Recorte banal de Sodoma
desce a Avenida ondulante
perfil dúbio que nos chama
de olhar subtil e dissolvente.
Embriagadas de fantasia
passam o dia no comércio
raparigas que ficam p’ra tias
com dores de cabeça e bócio.
Com a identidade oculta
num quarto de aluguer
o barbitúrico sepulta
uma sombra de mulher.
Na penumbra da igreja
p’los cantos encardidos
sem que ninguém veja
choram santos esquecidos.
Mas há beatas expressivas
dum barroquismo sem uso
com devoções exclusivas
já cansadas p’lo uso.
Lá murcham a jogar
os reformados no jardim
poucas cartas a deitar
com o baralho no fim.
Brilham neons sem rumo
travestismo de esplendor
esvai-se energia em fumo
é o cinismo maior…
Chora pingona a rima
nos lares de nunca mais…
Coitado de quem cisma
porque um fadista dá ais!
Cosmopolita ergue-se a torre
Babel na cidade errada:
– Mesmo que a Europa a soterre
quer ser europeia ou nada!
Encaracolado de saudades
sempre o lusíada chora
mudam-se as idades
nunca lhe chega a hora.
Vencida desfalece
longa fila humana
que a mágoa entontece
e o regresso engana.
E sob a parda claridade
da Lua asa de penico
entra no porto a saudade
do último transatlântico…

