DIA DE LISBOA – O Cinema Ideal para me esconder – por Joaquim Palmilha Silva

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«Hão-de vir os que gostam de salas de cinema. O encontro está marcado para o início da rentrée, no novo Cinema Ideal, na Rua do Loreto, números 15 e 17, Lisboa, entre o Camões e a Bica».

– Texto de Alexandra Prado Coelho sobre a reabertura do Cinema Ideal, in jornal Público, 14/6/2014.

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      Como poderão emergir as memórias das profundas águas pantanosas do tempo passado na Lisboa dos anos 60? Tempo repleto de medos, amarguras, ensopado de pelintrice, com o fato no fio, mas ainda assim engravatado, a disfarçar a ruína…

     O eléctrico prende-me a atenção na paragem junto à Praça Luís de Camões. Depois de subir aquela multifacetada Rua do Alecrim, despede à velocidade de antigamente. Não posso evitar um aperto no peito… Lá está o «Cinema Ideal», logo no início da Rua do Loreto.

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     Estamos em Janeiro de 1967…

     A partida para a guerra colonial parecia bem mais fácil do que a fuga para a paz porque, para a maioria dos rapazes, a razão era um instrumento mental bem difícil de manejar. Além da pouca informação disponível, o conhecimento político dos jovens soldados era quase inexistente, de forma a preferirem o perigoso uso da razão ao grosseiro imperativo categórico do regime da ditadura, e das circunstâncias que este último fabricava à medida de cada um. Por isso, quando decidi partir em direcção à paz, desertando do Exército, sabia que os riscos eram imensos e, por conseguinte, entrava em ruptura com as bem-aventuradas formas de vida corriqueira, segura, moderada, além de deitar fora o indivisível “dever”, pelo que passava a figurar na lista negra dos procurados pela polícia política… por “traição” à “pátria”!

     Depois de desertar por minha conta e risco do quartel de Artilharia nº 3, em Évora, mobilizado para a guerra na Guiné (Bissau), comecei a física e espiritual digressão em busca de um mundo melhor, alugando um quarto no 3º andar de um ou dois prédios acima do Diário de Lisboa (nº 44 a 48), isto é, na Rua Luz Soriano. A vizinhança do vespertino e, portanto, da sua página literária «Juvenil» (editada às terças-feiras) de que havia sido colaborador até há pouco tempo, parecia que me havia de proteger nas horas de solidão, de tantos meses vazios, apenas preenchidos pela asfixiante e solitária espera da oportunidade de passar a fronteira com a Espanha, a caminho de França.

*

     Nem sei por onde começar, embora atribua tudo à minha ingenuidade, sempre tão revestida de literatura que, reconheço hoje, só por “milagre” devo ter escapado…

     Na época, acreditava que havia na sociedade pessoas com trabalhos específicos, de forma a evitar que certas tarefas complicadas fossem executadas por amadores desajeitados, que só prejudicariam a comunidade. Esta divisão natural do trabalho estava conforme com a Humanidade e era, portanto, muito útil aos povos. Porém, ninguém me ensinou a especialidade laboral da clandestinidade, com as suas tarefas mais ou menos meticulosas. Sim! – A clandestinidade é um ofício que se aprende, carece mesmo de aulas teóricas e exercícios práticos demorados, para que se alcance alguma destreza elementar. Na altura, dizia-se que os comunistas tinham manuais a explicar isso tudo detalhadamente. Eu, porém, nunca vi nenhum…

     Enfim, como se pode depreender, não tive oportunidade de adquirir nenhuma breve especialização, nem sequer assisti a aulas teóricas sobre tal forma de vida. Mergulhei, portanto, na clandestinidade à bruta, atirando-me de cabeça, como então se dizia, “às cegas” e de uma só vez!

     Fui parar ao bairro mais pitoresco de Lisboa, vizinho do Chiado e da Rua António Maria Cardoso, onde a polícia política tinha a sua sede, creio que por causa do suposto (e falhado) apoio moral de conhecido que trabalhava como redactor no matutino O Século. Desde essa altura fiquei a angustiar Lisboa… Sim, tal como uns ficam a gostar da cidade, outros podem ficar a angustiá-la. Este sentimento teve origem na escala montante dos percalços, dos sustos, dos inesperados acontecimentos passageiros, das aventuras físicas provocadoras de suores frios, dos inumeráveis medos… – Eu, saibam quantos, fiquei a angustiar Lisboa… Durou isto até ao dia em que me apercebi que a angústia passara a viver comigo como se fosse uma segunda pele e, de irritante que é, ainda hoje me dá náuseas horríveis, suores frios e indisposições gástricas muito difíceis de acalmar.

     Não pressenti então o ambiente perigoso, a atmosfera doentia, deliquescente de um bairro (fantasmagórica casbá aparafusada à cidade) que desde há séculos os poetas, romancistas, jornalistas e fadistas teimam em enaltecer com as suas especulações, ora encharcados até aos ossos das lantejoulas do realismo, ora molhando a pena em narrativas inspiradas em Jorge Amado, de todo disparatadas no território lusitano, esfregando casos de amor e traição na cara de quem os lê e escuta!

     Por toda esta desilusão literária provocada pelo realismo fantástico da vida, fiquei a angustiar Lisboa e, muito particularmente, o Bairro Alto. Desde Luís de Camões e Barbosa du Bocage (eu os lia com alguma insistência, vá lá saber-se porquê) que me habituara a associar o Bairro Alto a um desfile de galdérias e rameiras, proxenetas, de brilho no sapato de fivela, tias bezuntas que entregavam recados e faziam mandados, marítimos falsos varridos da borda de água e marinheiros trazidos com a salsugem da maresia, fadistas de bodegas rascas e cantadeiras de fado, já marafonas aburguesadas, de xaile bordado a fio dourado, gargarejando uns versos em inglês para agradar ao turista, homossexuais catitas procurando seduzir marujos ébrios e, Rua da Rosa, Rua das Gáveas ou Travessa dos Fiéis de Deus, numa esquina destas artérias, a versão moderna do «Mal-Cozinhado», onde o cisco das almas do bairro, desempregados crónicos, vagabundos e personagens mal recortados na fotografia, como eu próprio deveria ser, se sentavam num banco corrido junto a uma mesa de mármore com tampo decorado de nódoas, para comerem uma «económica» por 1$50 tostões. Isto é, uma sopa de legumes tipo rancho militar, às vezes com a mosca-morta suplementar boiando na gordura, réplica microscópica de cacilheiro para a outra banda…

     Enfim, desde há muito perseguido pela “má sorte”, consegui adquirir o hábito de me considerar condenado a ser descoberto e preso pela polícia política, após período mais ou menos curto de liberdade. Uma vez aceite esta suposta certeza, a minha liberdade de movimentos, cuidadosamente calculados, encontrava-se garantida e a minha existência, no curto prazo, naturalmente assegurada. Aprendi então que tinha de fechar à chave a minha vida real e abrir a porta duma vida fantasiada, de forma a subsistir sem levantar suspeitas. À senhoria do meu quarto, uma mulher de Viseu à volta dos 40 anos, casada com um taberneiro que só aparecia à noite, tive de apresentar pela primeira vez a minha personalidade de fachada, toda enluvada em pequenas mentiras, estratagemas, alibis e disfarces, todavia verosímeis. Foi esta a primeira lição espontânea da clandestinidade: – Conseguir criar uma vida dupla para apresentar à senhoria e, assim, tranquilizá-la, convencendo-a de que o hóspede, a quem alugara um dos quartos no interior da sua casa, era pessoa de bem.

     O estratagema inventado era este: – Andava a estudar na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (o que era mentira, mas explicava a quantidade de livros que vinham comigo), chamava-me Joaquim (o que era verdade), vinha do Alentejo (Évora, Estremoz, Beja?), onde os meus pais possuíam uma “casa de lavoura” de alguma abastança (o que era a mais descarada das mentiras) … Mal sabia eu quanto esta última ficção proporcionava uma esplendida emboscada!

     Para habitar com segurança dentro desta vida de fachada necessitava inventar fórmulas, seguir cláusulas, obedecer a leis, respeitar rotinas. Eis a segunda lição espontânea da clandestinidade: – Como nos filmes de aventuras, tinha de andar de uma tarefa para outra em tecnicolor, sem falhar o desempenho e sem contradizer a personagem de ficção que havia apresentado à senhoria… e aos mais próximos. Enfim, mecanismos de defesa…

     Quase esquecia de dizer que estes mecanismos de defesa eram às vezes postos à prova de forma inusitada. A senhoria tinha uma filha de 16 ou 17 anos, a Adelaide. A Adelaidinha tinha o olhar brilhante e o corpo bem determinado, segundo certo ponto de vista, é claro! De propósito ou por engano, batia sempre à minha porta, quando vinha à noite à casa de banho (ao lado do meu quarto) fazer chi-chi, lavar os dentes e outras partes do corpo. Nos dias em que a senhoria saia à noite, Adelaidinha punha à prova os meus mecanismos de defesa, quando chegava a hora de vir fazer chi-chi e bater à minha porta (de propósito ou por engano?) … Ainda hoje, quando como iogurte, me lembro de Adelaidinha, tal o sabor a leite fermentado e adocicado que do seu corpo me vinha ao paladar… – «Faça de mim o que quiser! Eu não digo a ninguém!».

     Os mecanismos de defesa da minha ficcionada personalidade eram, pois, postos à prova, através de passageira hipertensão de nervos, e do convívio silencioso e fascinante da juvenil massa muscular (carne contra carne), instalando-se então, perigosamente, no meu espírito, uma loucura passageira que me fazia esquecer a minha periclitante situação. Mais tarde vim a saber que, a não serem observadas regras quase monásticas, o tempo de liberdade de um clandestino pode ser bastante curto, mas o período de liberdade de um desertor do Exército colonial da ditadura, sem a protecção de uma organização política experimentada, seria então curtíssimo. Todo entregue havia algumas semanas às carícias de Adelaidinha, começou a instalar-se dentro da minha existência de ficção uma nota de intimidade imprevista, que poderia custar-me cara. Foi então que me apercebi que a senhoria havia montado um conveniente sistema de ligações, entre as suas saídas aos serões, depois de jantar, e as liberalidades que Adelaidinha facultava à minha solitária e carente pessoa. Levou tempo, mas com a ajuda exterior que me foi proporcionada (já explico), compreendi finalmente onde queriam chegar, a senhoria e sua filha. De facto eram marotas, mãe e filha, e eu, armado em herdeiro de latifundiário alentejano, diga-se em abono da verdade, trabalhei ingenuamente para lhes dar uma boa oportunidade de me emboscarem e, quem sabe, caçarem assim um suposto casamento endinheirado…

     No entanto, recordo que na época pensei o seguinte: – E se, por distante hipótese, o meu eu de ficção se deixasse “apanhar” nesta armadilha… – Bom, a paixão juvenil, muito espessa e rápida, definha numa atmosfera de pobreza e dá-se mal quando um dos parceiros tem a liberdade presa por um fio. Entretanto, logo que a verdade se interpusesse entre mim, o eu de ficção e Adelaidinha, imagino como mãe e filha ficariam atónitas, ao verificarem que o seu ardil acabara derrotado por um ardil ainda maior, seguramente mais perigoso e com toda a certeza nada remuneratório.

     Eis, pois, a terceira lição da clandestinidade… Quando se sofre os incómodos da clandestinidade, bem como a consequente experiência da tormentosa solidão que a preenche, nada melhor do que nos deitarmos sobre a agonia de um amor não correspondido, distante e, se possível, impraticável a curto e médio prazo. Podemos meter-nos com toda a segurança dentro desse amor impossível, tal e qual como quem embarca num navio para os antípodas, com a certeza de que não há nada mais saudável para o nosso físico, nem mais garantido para a continuação da nossa precária liberdade de movimentos.

*

     Vou explicar como apareceu a «ajuda exterior» de que falei atrás. Chamava-se Suzana, habitava no único quarto verdadeiramente independente daquele 3º andar, com porta directa (ou discreta) para as escadas do prédio, portanto, hóspede na mesma casa…

     – Dá licença que me sente? (perguntou Suzana, arrastando uma cadeira para a minha mesa, no pequeno café da Rua do Loreto). Ainda não almocei e quero comer alguma coisa.

     Nunca fui do tipo de homem que pensa que as mulheres o perseguem. Mas desde aquele dia, ocorreu-me… Pois bem, Suzana simpatizava comigo mais do que seria de esperar. Inicialmente não fiquei satisfeito, já me bastavam as facilidades de Adelaidinha, de quem começava a ter fundado receio.

     Sem mais nem menos, após breve conversação cujo assunto não recordo, Suzana aconselho-me a ter cuidado com Adelaide e sua mãe… Percebi que ela odiava a senhoria, não se conformando com o facto de ter sido empurrada para o quarto das escadas e, assim, rejeitada, quando tudo o que desejava era pertencer a alguém, fazer parte de uma família (nesta altura da narrativa, creio, representou a presença de soluços na garganta).

     Órfã, saída aos 20 anos de um «colégio interno» do Estado para crianças abandonadas, Suzana fora empregada doméstica na casa, mas encontrara melhor saída profissional no «Niágara-Bar», ali ao Cais do Sodré. Prostituta? Garantia-me que não. Como se eu tivesse alguma coisa que ver com a sua vida… Tinha mesmo um horário de trabalho, das 10 da noite às 2 da manhã. Este período era preenchido a fazer companhia aos frequentadores do bar, levando-os a beber com exagero, acção combinada com a gerência, donde extraía uma percentagem. Além de um vencimento-base, naturalmente muito reduzido, tinha meses em que tirava «para cima de um dinheirão», sobretudo quando havia porta-aviões americanos, franceses ou navios de guerra ingleses fundeados no Tejo. Disse isto acendendo um cigarro do maço «Sagres». Talvez para me demonstrar a sua cultura ultramarina, explicou-me que estes cigarros eram de «marca marítima» e ia bem com o seu serviço.

     Suzana não era letrada, mas aprendia muito a escutar o crepitar da vida à sua volta, sensibilidade apurada, enfim, «tocava de ouvido». Para provar que sabia do que falava disse-me: – «Sabe, senhor Joaquim, o que eu faço no bar durante a noite pode ser comparado a consultas de psicologia marítima. Os marinheiros são homens espantados que se fingem valentes, mas logo que pisam terra têm telhados de vidro. Vivem compartimentados dentro dos navios à espera do porto ideal, como os cegos à espera de verem a luz do dia. Chegam a um porto e destroem-se, marginalizam-se, suicidam-se. São pessoas desnorteadas. O meu trabalho é aliviar-lhes um pouco toda essa pressão. Nem vou para a cama com eles… Apenas empurro a garrafa de whisky um pouco mais para a sua frente, a caminho do sono…». Nesta altura, pus-me a imaginar o «Niágara-Bar» inundado pelo som da marcha Stars and Stripes Forever. Tinha então a mania de aplicar as “bandas sonoras” dos filmes ao meu dia a dia. Por exemplo, se quisermos salientar hipotéticas semelhanças psíquicas com diferenças manifestas, quando estava mais abatido, costumava assobiar em surdina, e caminhando, a marcha do filme «A Ponte do Rio Kwai». O facto é que a imaginada versão musical, na atmosfera daquele café, deu-me tempo para raciocinar depressa e, a páginas tantas, apercebi-me que o enquadramento de Suzana sentada à minha mesa, com as pernas traçadas, insinuando aveludados recortes, a sua conversação e a aproximação da hora da sessão da tarde no «Cinema Ideal», eram razões suficientes para minha inquietação. Sentia-me dormente, manipulável, e não estava a gostar disso. Disse-lhe que tinha de partir. Estava atrasado para as aulas da Faculdade… Suzana sorriu… Estranhei. Mas ela olhou-me nos olhos e atirou-me: «Depois digo-lhe.».

     Tenho de encurtar a história… No entanto, sempre digo que havia muitos lugares na plateia do «Cinema Ideal» para as sessões da tarde. Não tinha, portanto, necessidade de abandonar a mesa do café a correr. Mas estava ciente de que não queria experimentar nenhuma modalidade sentimental com Suzana. Não queria ser varado pela seta traiçoeira do fado e, uma vez atingido, acabar embalsamado numa tragédia sentimental pouco política e quase nada antifascista…

     Nos seus 30 anos, ela era mulher atraente, rosto corado, busto generoso, cabelos e olhos negros e… devo dizer, pareceu-me (profissionalmente?) sensual. Mas eu não podia satisfazer a minha curiosidade. A disciplina, a rotina, a segurança avisavam-me! Na altura, teria sido inútil Suzana apelar à sua técnica de sedução? – A ver vamos…

     Estava atrasado para as aulas, perdão, para o cinema, perdão… já não sei o que estou a escrever. Depois, ao meter no bolso o troco do bilhete para a sessão da tarde, veio-me à ideia o sorriso de Suzana, quando mencionei as aulas na Faculdade. Recordo que disse de mim para mim quanto devia conformar-me com o respeito rigoroso da rotina, pois não estava em posição de indagar o que pensava ou deixava de pensar Suzana sobre a minha pessoa. A verdade é que havia estabelecido que as tardes deveriam ser ocupadas na escuridão do «Cinema Ideal» que, além de me guardar das vistas perigosas de algum conhecido, desempenhava o papel de máquina do tempo, devorando assim as horas que decorriam na “cidade universitária”, nas aulas da Faculdade de Direito.

     Fiquei zangado comigo por ter dado confiança a uma estranha. De repente, enchi-me de uma cólera enorme, quase capaz de empurrar para os seus lugares aqueles reformados (velhos e velhas) sem destino, peganhentos, a tresandar amargura e acre sujidade, que nunca mais se sentavam nas cadeiras da plateia. Por fim apagaram-se as luzes e, a preto e branco, começou a correr a fita. Até cerca das cinco e meia da tarde estava nas aulas de Direito. Isto é, escondido no «Cinema Ideal», a queimar tempo.

     Assistia então a aulas de várias matérias que, depois, se desdobravam na minha imaginação, através de personagens oníricos, com nomes de fazer a memória e o bom senso darem cambalhotas, que hoje podem ser identificadas como contradições. A recordação desse tempo provoca-me um riso amargo… Apesar da ilustrada e viajada geografia dos filmes cidades e regiões de nomes atrofiados (Far West, Malta, Guadalcanal, Sebastopol, Marselha, Paris, México, Singapura, Alasca, Kilimanjaro, Nova Orleães, Roma, Califórnia, Arábia, Benarès, New York), nunca consegui especializar-me numa área cinematográfica. Fui sempre um pobre cinéfilo, uma ilhota atrasada no seio de uma espectacular dramaturgia. Estava ali, na plateia, apenas por necessidade de camuflagem. Fosse como fosse, com tantas sessões de cinema, a dois filmes cada sessão, pela módica quantia de 4$50, apanhei uma tal sobrecarga de exibições de todo o tipo de violência, bem como milhares de modalidades de ternura e afectividade, beijocas sorvidas, amplexos asfixiantes, exageros de abraços e mãos entrelaçadas, atrevimentos irreais e desmentidos realistas que, clandestinidade, abandono, precoce desilusão, fome e falta de meios materiais de subsistência, acabaram impregnando-me a alma e o corpo de amargura. Com o tempo, aprendi que todo este destempero, apesar de me condenar à vida solitária, podia ser também um grande armazém de auto-defesa, pois dava-me rijeza de carácter para ser um duplo de mim próprio, protegendo assim a verdadeira identidade de perigos e percalços, ciladas e mulheres atrevidas. Cheguei mesmo a roçar a categoria dum praticante de filosofia vagabunda. Foi desta forma que, por estrita necessidade, também adquiri hábitos de prevenção, procurando imaginar cada passo antes de meter os pés na calçada da Rua Luz Soriano e, depois, na Rua do Loreto.

*

     Patrocinado com modéstia económica por um familiar que tinha tanto de anti-salazarista como de anti-comunista, para desgosto de memórias futuras os meus dias eram um tem-te-não-caias de oscilante banalidade… Mesmo assim, as coisas que eu aprendi naquele tempo de clandestinidade! – Por exemplo, aprendi que algumas virtudes existem muitas vezes onde prospera o vício. Penso assim hoje porque fiquei a saber, desde então, que nem todos os miseráveis são sabujos. No pantanoso Bairro Alto, sobre os miasmas do fado (que ainda não tinha a “modernidade” pendurada ao pescoço), haveria seguramente almas capazes de telegrafarem para o Céu! Algures naquele dédalo de vielas e pátios, de corredores, escadas de madeira velha e quartos de aluguer, existiria seguramente quem não olha-se de soslaio para os outros. Nem todos tinham olhos de besugo de aquário, valentes só à distância dos problemas.

*

     Estava a chegar à altura em que começava a ter piedade de mim. Já nem o meu duplo me salvava da inquietação. De resto, o espectáculo que oferecia a minha personagem de ficção tornara-se preocupante, na medida em que começava a denunciar a presença dos demónios desenfreados do desespero, da submissão ao fatalismo e, no meio das lamúrias que este duplo me dirigia, apercebi-me que ele dera nascimento a um desejo fora do meu controlo, a um perigoso apetite de confidências, como se a sua missão fosse desmoralizar-me, fazendo nascer em mim a perigosa necessidade de me revelar… – Isso suscitou-me um alerta ainda maior, fechando-me mais na dita ficção e, simultaneamente, desdobrando a vida de duplo para lá do verosímil!

     O meu presente, sujeito a rigidez constante por obra do duplo, parecia ganhar vida de autómato sem me pedir licença, tombando no imaginário delirante e na aventura embasbacada. Na verdade, o duplo levava-me para insuspeitos terrenos de loucura, de repetido suplício. Enfim, estava a ficar desarvorado de todo, e o «Cinema Ideal», com as mil histórias dos seus filmes, possibilitando-me uma quantidade de acontecimentos empalhados, ajudava o meu inconformado quotidiano a encher-se de fantasias!

     Salvou-me Suzana… Devo confessar!

     Ali ia eu a subir as escadas até ao 3º andar, com a existência sob tantos resguardos que, quase apalermado pelas rotinas defensivas, corria o risco de esquecendo uma, perder a memória da quantidade que era obrigado a respeitar, acelerando assim a minha ruína, denunciando-me e habilitando-me a ser apanhado pela polícia política mais cedo do que previsto.

     Quando cheguei ao 3ºandar e parei frente à porta, antes de meter a chave na fechadura a caminho do meu quarto, ouvi que me chamavam nas escadas. Era Suzana que me acenava, em silêncio, para que entrasse no seu quarto… Disse de mim para mim; – «Eis uma situação embaraçosa. Quais vão ser as consequências?».

     E aqui vai outra lição da clandestinidade: – Talvez hoje esta observação pareça banal. Todavia, não o foi naquela altura. O meu duplo considerava a natureza humana, e seus imprevistos, empecilhos à salvaguarda e segurança da vida em clandestinidade, pelo que julgava não ter nem paciência nem tempo disponível para dispender com pessoas que se davam ao trabalho de ir ver a paisagem, de viajar até à beira mar ao sol poente para observarem as tonalidades do céu, menos tempo ainda a perder com as almas que se deixam arrastar pelos aleijões da sentimentalidade e das paixões amorosas.

     Naquela ocasião, sem o pressentir, Suzana ensinou-me que a natureza humana é um ser sem juízo, capaz de saltar à corda quando menos se espera, imitar o gorjeio do pintassilgo, sonhar ascensões e infernos, sofrer espinhos, mas apesar dos olhos pisados e gotas de sangue rubro nas solas dos pés, ver as luzes do Além… e um grande e azul céu aberto!

     Entrei no quarto de Suzana e, súbito, o mundo em redor volatilizou-se, senti-me a flutuar num sossego inexplicável, abrigado numa intimidade inesperada, naquela sã brandura de alcova com unção de alfazema. Antes que o duplo me surpreendesse, prevenindo-me, não abracei e beijei Suzana menos do que, impulsivamente, ela se abraçou a mim, beijando-me. Lembro que pensei: «O mundo lá fora é mau!».

     E assim chegou ao fim o meu disfarce? A grande engenharia daquela existência ficcionada, laboriosa, solitária, com um plano oculto de grande evasão, atingira o seu termo?

     As bagas de suor nascendo na minha fronte, não eram só resultado do esforço da volúpia física, nasciam sobretudo da retornada noção da contingência das coisas da vida… Olhei Suzana… Um sorriso leal, aberto, nos seus lábios carnudos e vermelhos da excitação, parecia responder-me: – A tua maquilhagem acabou! Involuntariamente, o teu duplo tem os dias contados! Mas ele que se não queixe, pois morreu em apoteose!

     Liberta pela espontânea intimidade conseguida, e após readquirir a organização dos sentidos, ela dirigiu-me breves palavras. Ainda um pouco ofegante, deitada a meu lado, de meandros corporais mal cobertos, Suzana perguntou-me: «-Joaquim, diga-me, porque não vai às aulas e passa as tardes no Cinema Ideal?».

     A versão que Suzana tinha da vida e rotina do meu duplo, estava certa, correspondia por inteiro ao guião do filme que havia apresentado à senhoria, e que a coscuvilhice de “vão de escadas” havia divulgado: – Vinha do Alentejo. Era estudante de Direito. Só tinha aulas de tarde. Ocupava as manhãs a estudar no quarto, após o pequeno-almoço. Regressava da Faculdade cerca das 19 ou 20 horas. Recolhia então ao quarto, pois vinha de jantar na cantina universitária.

     Foi este guião, há meses atrás apresentado à senhoria, que motivou a frase dita no café por Suzana, «Depois digo-lhe». Podia estar ciente de que Suzana sabia que não ia às aulas, mas sim às sessões da tarde no «Cinema Ideal».

     A energia despendida a recortar a personalidade do duplo, a acumular rotinas pensadas mil vezes, todas abotoadas umas às outras, equilibrando-me no arame que era a vida do Bairro Alto, mais isto e mais aquilo, caiu tudo por terra naquele instante. Porque me esgueirava eu dos deveres de estudante, para me sentar na plateia do «Cinema Ideal», em vez de ir às aulas da Faculdade? – Tive vontade de lhe responder que usava a plateia do «Cinema Ideal para me esconder!». Porém, apercebi-me que Suzana era uma mulher decidida. Estaria disposta a gracejar enquanto isso lhe conviesse, mas não deixaria insatisfeita a sua curiosidade. Porque não ia eu às aulas, uma vez que havia dito que as tinha todas as tardes?

     Comecei a descrever o princípio das enxaquecas, o seu horroroso sofrimento quando usava o raciocínio. Depois segui em frente na mentira. A dor de cabeça aumentava à medida que pensava fosse no que fosse. Tinha então de encontrar uma distracção que desempenhasse o papel de anestesiante, de forma a ajudar o repouso cerebral. Aí estava, pois, a explicação da frequência do «Cinema Ideal»: – Encontrava-me no seio de uma grande depressão!

     Depois de mil planos, melhores uns piores outros, brotou-me a primeira ideia inspirada: – Estava a viver um mau momento psicológico. Daí ir ao cinema de tarde em vez de ir às aulas. Com um pouco de paciência, tudo haveria de passar… E voltaria à Faculdade.

     «- Não se rale. Eu não digo nada à senhoria. Mas deve evitar ao máximo as conversas com ela e a… intimidade com a filha. Sabe… Eu sei! – Já vi outras tentativas para apanhar jovens desprevenidos.».

     Depois de ela ter dito isto, conclui que Suzana poderia descobrir mais coisas sobre mim e sobre a existência do meu duplo. O grande busílis agora era o relacionamento com Suzana. Esta atracção tonitruante por Suzana, e em plano inclinado, por assim dizer, estava atada a uma invisível varinha mágica, mas sem o socorro de uma fada madrinha, pelo que tudo começava a ser demasiado preocupante. O mistério do nosso relacionamento estava sobre o fio de uma navalha. Lembro-me que pensei: «Já que te deixaste apanhar na rede como um pintassilgo, agora aguenta!». Mais um pouco e pensei: «Tenho que me pirar!»; «Como há-de ser?».

*

     Lembro as escadas do prédio a cheirarem a gatos, as pensões rascas e as tabernas remediadas para gente pobre do Bairro Alto, com um eterno cheiro a meias-desfeitas. Lembro tudo emoldurado num quadro de decadência mal disfarçada e “marialvice” desdentada… Lembro à tarde o pregão dos ardinas, em louvor dos jornais amordaçados: República, Diário Popular, Diário de Lisboa, que a atrevida cantilena do ardina cantava assim: «Olhá República, o Popular de Lisboa»!

     O sangue circulava-me nas veias promessas que nunca mais se repetiram com as outras mulheres. Aninhada a um canto da cama, com a cabeça encostada ao meu peito, dizia-me que, por amor de Deus, acabava de ter um pouco de sorte na vida ao conhecer-me. A vida esbofeteara-a até ali, sem razão e sem remorsos. Com uma clarividência trágica, com a pele arrepiada, depois de saber a minha real situação de clandestinidade, resistindo à ideia doida de viver mais um dia a meu lado, recomendou-me que partisse do Bairro Alto, que deixasse de ir ao «Cinema Ideal» e, pesando o tempo como se os ponteiros de relógio lhe ferissem o coração, aceitando a sua própria perda como uma vitória, pedia-me de partisse rápido…

*

     Dizem-me, passados tantos anos, que o «Cinema Ideal» vai reabrir… Em nenhuma outra madrugada, o sonho de um amor sem explicação, fora do tempo, no meio do perigo e da perseguição, me deixou a escorrer tanta luz!

     Vai reabrir o «Cinema Ideal» … Suzana, de mãos postas, enlaçado na tua memória, agradeço a Deus ter-me proporcionado a graça de um pouco de sol d’alma, sem literatura, sem explicações e sem a podridão sossegada das conveniências.

 

 

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