RAPARIGAS E RAPAZES DE LISBOA – LEONOR UMA, MENINA DE ARROIOS

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Rapazes e raparigas de Lisboa? Sim, a uma lista solene de lisboetas ilustres, preferimos uma galeria informal de filhos de Lisboa que, depois de terem sido crianças, só depois de terem sido jovens, de terem sido moços e moças, rapazes e raparigas, foram escritores, músicos, humanistas, pintores… Sob o céu azul, iluminados pela luz única da nossa linda cidade, sonharam, amaram, sofreram desilusões, como só os corações jovens sabem – com o sentimento de que o nosso sonho, o nosso amor, tal como a nossa desilusão, são únicos e irrepetíveis. Não temos a pretensão de que a lista que escolhemos seja a melhor possível. Deixámos de fora lisboetas de grande valor – a verdade é que querer falar de todos equivalia a não falar de nenhum. Vamos começar com uma rapariga, com a Leonor.

LEONOR, ALCIPE, MARQUESA DE ALORNA…

 

A Leonor nasceu em 31 de Outubro de 1750 na freguesia de São Jorge de Arroios e morreu em 11 de Outubro de 1839, na freguesia do Coração de Jesus. Tinha um200px-Marquesa_de_Alorna_par_pitschmann_1780_lis[1] nome um pouco mais extenso – Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre e era filha do 2º Marquês de Alorna D. João de Almeida Portugal e a sua família foi perseguida por ter parentesco com os Távoras. A própria Leonor teve uma infância difícil, pois os avós maternos foram  executados barbaramente e aos oito anos foi encerrada com a mãe e a irmã no convento de São Félix em Chelas, entre 1758 e 1777. Seu pai esteve encarcerado por suspeita de conhecimento do crime dos Távoras. Segundo diz Hernâni Cidade em Marquesa de Alorna, Poesias, «era acusado de ter emprestado uma espingarda caçadeira a um dos conjurados.» Pombal ordenara a prisão dados os laços de parentesco que ligava os Alorna com a família dos Marqueses de Távora. Só quando D. José morreu e D. Maria I subiu ao trono, mandou libertar os prisioneiros. Mas o Marquês e a sua dureza prestaram um serviço inestimável a Leonor e à cultura nacional – durante a sua juventude passada em reclusão, a jovem leu e estudou as obras de Rousseau, Voltaire, Montesquieu, leu a Enciclopédia de D’Alembert e Diderot. E escreveu poesias que revelarm um enorme talento. Leonor transformou-se em Alcipe, árcade distinta, uma mulher que venceu a frivolidade da sua condição e (é só um exemplo) quando, com 54 anos ficou viúva e se retirou com os filhos para as propriedades de Almeirim. E aí criou uma obra assistencial que revela o modo como encarava as realidades sociais –  pagava a uma mestra para ensinar as prostitutas da vila e das povoações vizinhas a ler, escrever, coser… Uma pessoa de eleição., esta alfacinha. Eis um soneto seu:

 

Eu cantarei um dia da tristeza

por uns termos tão ternos e saudosos,

que deixem aos alegres invejosos

de chorarem o mal que lhes não pesa.

 O

Abrandarei das penhas a dureza,

exalando suspiros tão queixosos,

que jamais os rochedos cavernosos

os repitam da mesma natureza.

 O

Serras, penhascos, troncos, arvoredos,

ave, ponte, montanha, flor, corrente,

comigo hão-de chorar de amor enredos.

O

Mas ah! que adoro uma alma que não sente!

Guarda, Amor, os teus pérfidos segredos,

que eu derramo os meus ais inutilmente.

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