SOBRE OS LEOPARDOS QUE QUEREM BEM SERVIR BRUXELAS – DA FRANÇA, FALEMOS ENTÃO DA POLÍTICA DE HOLLANDE – POLÍTICA DA OFERTA: A CAMINHO DA ECONOMIA LOW-COST – por XAVIER THÉRY

02

 Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

mapa_franca

 13.Política da oferta: a caminho da economia low-cost

Leopardo - XXVIII

Política da oferta: a caminho da economia low-cost?

A concorrência não é só qualidades

Xavier Théry, Politique de l’offre : Vers l’économie low-cost? La concurrence n’a pas que du bon

Le Causeur, 27 de Agosto de 2014

Parte I

Leopardo - XXVII

 

No momento em que todos os governos da zona euro juram apenas pela política da oferta, pode ser interessante interrogarmos-nos sobre as supostas virtudes  da concorrência desenfreada e sobre o efeito de uma baixa constante dos custos relativos dos bens e serviços.

A economia de mercado encontra o seu apogeu desde há já alguns anos numa desregulação intensiva da maior parte dos sectores económicos. Das privatizações aos desmantelamentos dos monopólios, da abertura à concorrência à liberalização, a certeza doravante está ancorada no espírito de um público bastante vasto de que a concorrência é “uma revolução libertadora” para o consumidor.

Este pôde medir, nos sectores mais abertos à concorrência, certos benefícios que esta lhes pode trazer: quem não se deu conta de que a sua factura de telefone tinha baixado fortemente? Quem não pôde beneficiar de um voo Paris-New York a 500 euros? Contudo, por detrás desta aparência libertadora, há uma outra evidência : “A concorrência, é uma chatice”.

Porque, nos sectores mais concorrenciais, o consumidor encontra-se confrontado com uma pluralidade de escolhas muito embaraçadoras. Doravante é obrigado a fazer uma avaliação técnica e económica de elevado nível se quiser de facto estar a julgar com pertinência sobre as ofertas que lhe são feitas.

Este, está a partir de agora cada vez mais sujeito a uma pressão ambiental muito forte: tudo se passa como se, culturalmente, o consumidor tivesse trocado “uma culpabilidade cristã” contra “uma culpabilidade económica”. São os seus filhos ou os seus amigos que vão assim tentar gozar com ele : “Como? Tu tens apenas 2 Mbits/s? Eu, eu tenho 20 megabits! …” A sua mulher vai tentar culpabilizá-lo “Como é que é possível termos de pagar 35 euros? Os Durand, estes são espertos, pagam apenas 29,90 euros! …” a guerra comercial está no seu máximo, o que quer estar actualizado é obrigado a andar sem parar de operador para operador com o risco de penalizar a sua continuidade de serviço e de se comprometer em contenciosos custosos…

A concorrência intensifica-se em certos sectores, o que inicialmente era percebido como sendo uma função libertadora tende a tornar-se um constrangimento: as situações de monopólio tinham isto de satisfatório para o consumidor que trocava o incómodo de não ter escolhas contra o alívio de não ter que escolher!

Para além das impressões em conflito que podem surgir a partir da “função libertadora da concorrência”, tão apregoada pelos economistas liberais, parece também que este conceito sofre com a confusão que é mantida na mente do público entre o que é ‘privatização’ e o que é ‘liberalização’, entre ‘monopólio’ e ‘serviço público’, entre ‘desregulamentação’ e a ‘concorrência’: os monopólios podem ser privados (cf. os monopólios locais de distribuição de água), a desregulamentação não se traduz necessariamente por uma maior concorrência (o consumidor inglês que deseja viajar de Londres a Oxford por comboio tem obviamente não o direito de escolha da sua companhia ferroviária, salvo a poder escolher passar por Glasgow, em vez de passar por Reading, aos operadores privados podem ser entregues obrigações do serviço público (desencravamento das zonas sem acesso ás telecomunicações modernas ou portabilidade dos operadores do telefone móvel, por exemplo).

Acresce-se a este aspecto das coisas, a segmentação de funções que eram outrora assumidas por um operador único: produção, transporte, distribuição e comercialização são agora muitas vezes divididos entre vários operadores sem que o cliente final seja capaz de avaliar a pertinência desta segmentação (que por vezes não existe ), nem para compreender as questões que lhes estão subjacentes. Desta incompreensão nasce por vezes uma forte insatisfação face a uma forma de irresponsabilidade dos operadores em caso de descontinuidade do serviço: quem sabe o que exactamente acontece entre a tomada do telefone e o servidor de um fornecedor de acesso à internet? Se ocorrer falha, quem é o responsável?

Portanto, compreende-se que para o consumidor, “liberalização” rima muitas vezes com ‘confusão’ e ‘concorrência’ com “falta de transparência”. Para lá dos comentários anteriores que são de natureza “relacional” (eles correspondem ao que é sentido, à experiência do consumidor confrontado à liberdade da concorrência), existem outras barreiras para uma concorrência virtuosa que são de natureza económica. O sector das telecomunicações é apresentado frequentemente como referência porque reflecte melhor os benefícios que a concorrência traz para o consumidor: liberdade de escolha – baixo custo – aumento de desempenho – emergência e satisfação das novas necessidades…

Mas este sector dispõe de uma característica bem especial: é a abundância virtualmente ilimitada de recursos que gera a espiral virtuosa das ofertas concorrenciais. Porque as telecomunicações, como a informática são regidas pela lei de Moore: “por cada 18 meses, o desempenho de sistemas é multiplicado por 2 a custo igual”; em 1990, os modems transmitem a 5 kbps, 24 anos depois (15 vezes 18 meses), a internet pode ser hoje servida comercialmente a 150 Mbps o que corrobora completamente a lei de Moore (5 K x 215 = aproximadamente 150.000K). Estamos em presença de um mercado onde há uma abundância de recursos. E essa abundância é, em si, geradora de novas fontes de valor: começa-se por transportar a voz, depois dados, em seguida, imagens, depois música, depois o vídeo; estes fluxos representam valores económicos cada vez mais elevados. A desempenho igual (ou igualdade de fluxo), é evidente que os operadores podem participar sem grande risco numa guerra de preços, sabendo que os recursos são sempre menos caros a partir do momento em que eles os partilham entre um número crescente de utilizadores…

(continua)

________

Ver o original em:

http://www.causeur.fr/politique-de-loffre-vers-leconomie-low-cost-28960.html

 

1 Comment

Leave a Reply