Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
16. A Segunda Grande Depressão
Primeiro foi a crise financeira de 2007. Então esta tornou-se a crise financeira de 2008. Em seguida, foi a crise de 2008-2009. Finalmente, em meados de 2009, a crise passou a ser chamada de “A Grande Recessão”. E, com a mudança do ciclo de negócios numa trajectória ascendente no final de 2009, o mundo deu um suspiro de alívio colectivo. Não nós, que não acreditámos, que a economia tenha mudado de perspectiva de depressão para a de retoma, porque a economia poderia inevitavelmente conter a temida palavra começada por D.
Mas a sensação de alívio foi prematura. Contrariamente às afirmações dos políticos e dos seus principais assessores de que tinha chegado o “Verão da retoma económica”, os Estados Unidos não tiveram um padrão de comportamento em forma de V quanto ao relançamento económico, como o teve após a recessão da década de 1970 e do início dos anos 80. E a economia dos EUA manteve-se muito abaixo da sua tendência de crescimento anterior.
Com efeito, de 2005 a 2007, o PIB em termos reais na América (ajustado pela inflação) cresceu um pouco mais de 3% anualmente. Durante a crise em 2009, os dados dizem-nos que foi 11% menor – e desde aí caiu ainda adicionalmente de 5%.
A situação é ainda pior na Europa. Em vez de uma fraca recuperação, a zona euro foi sujeita a uma segunda onda de contracção que se iniciou em 2010. E com a crise o PIB real da zona do euro atingiu 8% menos do que a tendência de 1995-2007; hoje é mais baixo e em 15% .
As perdas cumulativas de produção em relação as tendências de 1995-2007 estão agora situadas em 78% do PIB anual para os EUA e em 60% para a zona euro. É uma enormíssima quantidade de prosperidade perdida – e um resultado muito pior do que era esperado. Em 2007, ninguém previu o declínio nas taxas de crescimento e do produto potencial que os organismos de estatísticas e de formulação de políticas estão agora a cozinhar nas suas avaliações estatísticas.
Em 2011, era claro – pelo menos para mim – que a grande recessão já não era seguramente uma alcunha . Era tempo de começar a chamar este episódio “uma Menor Depressão “. Mas a história não termina aqui. Hoje, a economia do Atlântico Norte enfrenta dois choques adicionais que a estão a levar a uma maior descida.
O primeiro, como Lorcan Roche Kelly da Agenda Research observou, foi exposto e discutido pelo Presidente do Banco Central Europeu Mario Draghi, quando improvisou durante um discurso recente. Draghi começou por reconhecer que, na Europa, a inflação diminuiu de cerca de 2,5% em meados de 2012 para cerca de 0,4% hoje. Então, ele argumentou que já não podemos assumir que os elementos condutores e dinamizadores desta tendência – tal como uma baixa nos preços dos bens alimentares e dos preços da energia, uma elevada taxa de desemprego e a crise na Ucrânia – são de natureza temporária.
Na verdade, a inflação tem vindo a diminuir desde há tanto tempo que ameaça agora a própria estabilidade de preços – e as expectativas de inflação continuam a cair. As taxas de juro de swap a cinco anos – um indicador das expectativas de inflação de médio prazo – diminuiu em 15 pontos base desde meados de 2012, para menos de 2%. Além disso, como Draghi observou, as taxas reais de curto e médio prazo aumentaram; as taxas de longo prazo não têm seguido a mesma evolução, devido a um declínio nas taxas nominais a longo prazo, que se estende muito além da zona euro.
Uma declaração posterior de Draghi, que o Conselho do BCE usará “todos os meios não-convencionais disponíveis” para salvaguardar a estabilidade de preços e ancorar as expectativas de inflação a médio-longo prazo é disso um exemplo. A pretensão de que a zona euro está num caminho em direcção à retoma mostra-se claramente errada ; a única forma realista de ler os mercados financeiros é de antecipar uma recessão em triplo V.
Enquanto isso, nos EUA, o Federal Reserve sob a direcção de Janet Yellen não está a querer saber se é apropriado ou não parar a compra de activos de longo prazo e aumentar as taxas de juros até que haja uma subida significativa no mercado de trabalho. Em vez disso, apesar da ausência de um aumento significativo no mercado de trabalho ou de um aumento substancial na taxa de inflação, o Fed já está a cortar nas suas compras de activos considerando para quando, e não se, deve aumentar as taxas de juros.
Um ano e meio atrás, aqueles que esperavam um retorno até 2017 à trajectória do PIB potencial– o que poderia ser – calcularam que a Grande Recessão teria custado a finalmente à economia do Atlântico Norte aproximadamente 80% do PIB de um ano, ou seja, 13 milhões de milhões, em produção perdida. Se uma tal retoma começasse agora – um cenário muito optimista – significaria perdas de aproximadamente US $ 20 milhões de milhões. Se, como parece mais provável, a economia se comportar durante os próximos cinco anos como se comportou nestes dois últimos, então demorará mais de cinco anos para que estas se recuperarem e um enorme valor de $ 35 milhões de milhões de riqueza seria assim perdido.
Quando é que nós admitimos que é tempo de começarmos a chamar pelo seu verdadeiro nome o que nos está a acontecer?
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