O RACISMO É …por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Carinhas esborrachadas contra o vidro da montra de uma loja de brinquedos.

Dois meninos, um rapaz e uma rapariga, que revelavam sinais exteriores de pobreza apontavam para vários brinquedos e falavam entre si.

Não se percebia o que diziam, sonhavam como poderiam brincar com eles.

Eis senão quando, se sentiu a presença de uma mulher, com uma saia comprida e que os arrastou, afastando-os da montra, com uma rispidez que incomodou quem passava por ali.

À rispidez as crianças responderam com um encolher de ombros e um olhar triste. A mulher era a mãe e já trazia outro sonhador de brinquedos dentro de uma barrida bem empinada. Sem ela dar por isso, ia afagando a sua própria barriga, sonhando não com brinquedos, mas com uma vida melhor.

_  Agora vamos ao café, mas não fazem barulho, se não…

Os olhinhos brilharam, agora, e as suas mãozinhas agarraram-se à saia da mãe. Foram logo a correr para a vitrine dos bolos e dos sumos.

Bem alto disseram:

– Eu quero aquele…aquele…, não, é aquele…

A mãe arrastou-os por um braço para se sentarem. Estavam num café!

Pediu um sumo para cada um e um croissant com fiambre, uma metade para cada um e, para ela, um galão e uma bola de Berlim…

Enquanto saboreavam  o pequeno almoço, quase às onze horas, não houve agitação nem barulho, mas… croissant comido… começaram, sem obedecerem à mãe que olhava aflita para todas as pessoas que estavam no café, a gritar um com o outro.

_he o teu bocado era maior do que o meu!

– olha…foste tu que escolheste primeiro!

Os clientes habituais voltavam a cabeça com um ar reprovador e de quem já estava à espera que aquilo acontecesse…as roupas dos meninos não se ajustavam ao corpo, ou eram mais pequenas ou eram maiores, os cabelos ásperos e despenteados emolduravam as suas carinhas de crianças perdidas no mundo.

Os clientes habituais pensaram, de imediato, que se tratava de uma família cigana.

A mãe arrastou-os aos gritos para fora do café, agarrando a sua barriga porque o bebé se mexia…saiu envergonhada porque mantém a sua dignidade de mulher, cuja vida lhe é adversa.

Não, não era uma família cigana, era portuguesa não cigana.

É uma família pobre que vive de subsídios o que faz a muitos pensarem ” pois tem subsídio, mas vai com os filhos tomar o pequeno almoço ao café!”

Será este um pensamento racista e discriminatório?

Não se é racista só com pessoas que têm a cor da pele diferente da maioria. É-se racista quando alguém se sente mais poderoso e pode fazer sentir esse poder perante os mais fracos.

o racismo

Quem pode ser mais fraco do que uma criança pobre?

Esta história é baseada em factos verdadeiros.

 

 

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