Carinhas esborrachadas contra o vidro da montra de uma loja de brinquedos.
Dois meninos, um rapaz e uma rapariga, que revelavam sinais exteriores de pobreza apontavam para vários brinquedos e falavam entre si.
Não se percebia o que diziam, sonhavam como poderiam brincar com eles.
Eis senão quando, se sentiu a presença de uma mulher, com uma saia comprida e que os arrastou, afastando-os da montra, com uma rispidez que incomodou quem passava por ali.
À rispidez as crianças responderam com um encolher de ombros e um olhar triste. A mulher era a mãe e já trazia outro sonhador de brinquedos dentro de uma barrida bem empinada. Sem ela dar por isso, ia afagando a sua própria barriga, sonhando não com brinquedos, mas com uma vida melhor.
_ Agora vamos ao café, mas não fazem barulho, se não…
Os olhinhos brilharam, agora, e as suas mãozinhas agarraram-se à saia da mãe. Foram logo a correr para a vitrine dos bolos e dos sumos.
Bem alto disseram:
– Eu quero aquele…aquele…, não, é aquele…
A mãe arrastou-os por um braço para se sentarem. Estavam num café!
Pediu um sumo para cada um e um croissant com fiambre, uma metade para cada um e, para ela, um galão e uma bola de Berlim…
Enquanto saboreavam o pequeno almoço, quase às onze horas, não houve agitação nem barulho, mas… croissant comido… começaram, sem obedecerem à mãe que olhava aflita para todas as pessoas que estavam no café, a gritar um com o outro.
_he o teu bocado era maior do que o meu!
– olha…foste tu que escolheste primeiro!
Os clientes habituais voltavam a cabeça com um ar reprovador e de quem já estava à espera que aquilo acontecesse…as roupas dos meninos não se ajustavam ao corpo, ou eram mais pequenas ou eram maiores, os cabelos ásperos e despenteados emolduravam as suas carinhas de crianças perdidas no mundo.
Os clientes habituais pensaram, de imediato, que se tratava de uma família cigana.
A mãe arrastou-os aos gritos para fora do café, agarrando a sua barriga porque o bebé se mexia…saiu envergonhada porque mantém a sua dignidade de mulher, cuja vida lhe é adversa.
Não, não era uma família cigana, era portuguesa não cigana.
É uma família pobre que vive de subsídios o que faz a muitos pensarem ” pois tem subsídio, mas vai com os filhos tomar o pequeno almoço ao café!”
Será este um pensamento racista e discriminatório?
Não se é racista só com pessoas que têm a cor da pele diferente da maioria. É-se racista quando alguém se sente mais poderoso e pode fazer sentir esse poder perante os mais fracos.

Quem pode ser mais fraco do que uma criança pobre?
Esta história é baseada em factos verdadeiros.

