CRÓNICA DE DOMINGO – “Territórios e fronteiras da arte” – por Adão Cruz

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Li no Público de há uns dias atrás um artigo sobre arte contemporânea, em que é destacada pela Art Price, organismo que monitoriza o mercado da arte, a exposição de Jeff Koons no Museu Whitney, e a sua liderança à cabeça de uma lista dos 500 artistas mais valorizados. Com efeito, a sua escultura Balloon Dog, imitando os balões de plástico que se vendem nas feiras e nas ruas, foi vendida por 38,8 milhões de euros tornando-se a obra de Arte Contemporânea mais cara arrematada em leilão. Tudo isto, para mim, constitui uma fenomenologia estranha e dificilmente compreensível.

Jeff Koons é um artista e escultor norte-americano, conhecido pela reprodução de coisas banais em grande dimensão. São dele as gigantescas esculturas do cão feito de flores que se encontra frente ao Guggenheim de Bilbau e o “Balanço Partido”, uma escultura presente na sua actual exposição de New York, feita de 50000 plantas floridas e uma canalização interior que permite a sua irrigação, e que representa metade da cabeça de um cavalinho e metade da cabeça de um dinossauro bébé. Segundo se diz, jeff Koons, artista controverso, hiper-realista, autor de gigantescas esculturas de madeira polícroma, tem uma equipa a trabalhar para ele e nem sequer põe as mãos nas obras. Penso que estas realizações de arte contemporânea, não são superiores em valor artístico a obras mais pequenas, mas impõem-se, sobretudo, pelo seu tamanho e gigantismo. Julgo que o seu valor seria muito inferior fora destas dimensões.

Ao ler estas notícias não resisti à vontade de fazer uma pequena reflexão sobre arte contemporânea. A arte contemporânea, como é do senso comum, nasceu pelos anos sessenta do século passado e parece ter-se proposto a toda a espécie de metamorfoses, desvios e subversões. Assim nasceram a Pop Art, o Novo realismo, a Op Art, a minimal Art, o Colorfield Painting, os Happenings, a Arte Ready Made e mais tarde a Arte Conceptual, a Arte Anti-Form, a Arte Povera, a Land Art, a Body Art, o Supremacismo, a Transvanguarda, além de outros conceitos e movimentos.

Ao rever, com alguma atenção, imagens das obras de alguns dos inúmeros representantes de cada movimento, cheguei à conclusão de que as fronteiras entre todas estas propostas de arte contemporânea são, talvez com excepção de poucas como a Land Art, a Arte Povera, o Novo Realismo…, que nos abstemos de caracterizar, por longo e fastidioso, muito ténues e muito pouco concretas, todas elas se intrincando de uma forma ou de outra, quer no aspecto formal, quer nos materiais e na expressão. A pretensa distinção entre si, a ponto de as enclausurar em vitrinas específicas, estou convencido, resulta muito mais do preconceito, da vaidade, da falta de humildade e do cabotinismo, do que da liberdade. Cada vez dou mais valor à frase de Óscar Wilde quando diz que a verdade na arte é tudo aquilo cujo contrário também pode ser verdadeiro. Escrevi há uns anos atrás que desde as expressões artísticas anteriores ao século XX, passando por todas as correntes artísticas do século XX anteriores à Segunda Guerra Mundial, até aos movimentos artísticos contemporâneos, todas as intervenções procuram apoderar-se e assenhorear-se da Arte como seus definitivos herdeiros e como sua conquista final. Nada mais errado, como pode concluir-se, por exemplo, do pretensiosismo enraivecido do Dadaísmo.

Mas onde quero eu chegar com tão insuficientes palavras? Ao fim de uma vida já longa, em que tão pouco aprendi, mas na qual o pensamento, a razão e a reflexão foram os meus guias e mestres, cheguei à seguinte conclusão, sem qualquer pretensiosismo, partindo do meu próprio caso: como pessoa pouco mais que ignorante nestas matérias, tentei, com o tempo, enquadrar a minha pintura em algum destes movimentos e conceitos. Depois de reiteradas tentativas de me compreender a mim próprio, lá consegui descrevê-la, não muito convencido, como um expressionismo ficcionista do sentimento. Hoje, depois de reconhecer, como disse atrás, que as fronteiras entre as mais diversas expressões da arte contemporânea são muito mais artificiais do que reais, e depois de descobrir mais um movimento que conhecia vagamente, a Transvanguarda, aderi convictamente à sua filosofia, nele encaixei conscientemente o meu expressionismo ficcionista e nele me senti perfeitamente enquadrado como ser humano procurando através da arte ir além da minha condição de mortal. A transvanguarda é um conceito ecléctico que denuncia a concepção evolucionista da arte e da história natural da arte, por assim dizer, o seu “darwinismo”, o seu ADN determinista, defendendo que os artistas têm o direito de seguir uma trajectória “nómada”, absolutamente livre e errática, utilizando todos os estilos ao seu alcance e saltando livremente de estilo em estilo, de forma pragmática, insubmissa, a fim de transmitirem com toda a liberdade o que sentem e o que pretendem dizer com a usa criação. Sempre com a convicção do grande princípio de que a obra de arte é tanto mais obra de arte quanto mais os seus efeitos conseguirem eliminar os processos formais.

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