CORREIO DA CIDADANIA – EDITORIAL

 

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A consolidação do consenso conservador de que a solução dos problemas fundamentais do país passa por uma nova rodada de reformas liberais dá a dimensão da vitória eleitoral da burguesia e define de antemão o caráter do mandato do próximo governo. No segundo turno, o eleitor poderá escolher entre duas doses de neoliberalismo: a dose mínima, oferecida pela esquerda da ordem, e dose máxima, proposta pela direita da ordem.

Porém, da forma como foi obtido, o sucesso eleitoral pode ser um tiro no pé. Funcional para a perpetuação do analfabetismo político, a politicagem rasteira não consegue criar lideranças sólidas e consistentes – o pilar fundamental de qualquer sistema democrático. Se no chafurdar da politicagem todos são iguais, então, a escolha perde sentido. Se não há escolha, para que serve a representação? Se não há representação, quem tem autoridade para liderar a Nação na hora de decisões?

Vista dessa perspectiva, a eleição de 2014 entrará nos anais da história do Brasil como um marco na crise do sistema político. À exceção das candidaturas contra a corrente que, em circunstâncias adversas, se comportaram com dignidade e valentia – PSOL e Luciana Genro à frente –, todas as demais saem da contenda moral e politicamente diminuídas e desmoralizadas.

A busca de uma improvável síntese entre PT e PSDB, pretendida por Eduardo Campos, acabou precocemente, deixando a volúpia pelo poder dos enjeitados por Lula nas mãos de Marina Silva. O sonho de uma terceira via capitaneada pelo discurso da nova política derreteu quando os programas e os debates eleitorais desmascararam os interesses ocultos de Marina e desconstruíram sua demagogia deslavada.

A carnificina do embate do segundo turno encarregar-se-á de liquidar o pouco – bem pouco – que ainda resta de reputação e credibilidade dos dois principais partidos da ordem. A polarização plebiscitária entre “a miséria e a corrupção do passado” e “a miséria e a corrupção do presente” é uma estratégia política suicida, pois explicita que, dentro dos parâmetros da ordem global, na prática, a alternativa entre Dilma/Lula e Aécio é entre o muito ruim e o ainda pior.

Qualquer que seja o resultado do segundo turno, a ressaca eleitoral será monumental. Desmoralizado, o candidato perdedor será imolado impiedosamente pelos próprios correligionários (que se trucidarão, em seguida, na luta fratricida pela divisão do espólio eleitoral). Após breve momento de glória, o vencedor terá de enfrentar a dura realidade e cumprir seu compromisso com o grande capital de aplicar doses crescentes de remédios amargos. Logo, terá de se defrontar com a frustração tectônica de uma população imersa em grave crise econômica e social.

A destruição da base de representação política construída nas últimas três décadas avança em ritmo galopante. A corrupção da democracia deixa o status quo sem utopia e órfão de lideranças para enfrentar um contexto histórico adverso e uma população cansada de esperar um futuro radiante que nunca se realiza.

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A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania

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