Selecção, tradução e nota por Júlio Marques Mota

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Um proteccionismo eficaz – o auto bloqueio decidido pela Rússia
Auran Derien, UN PROTECTIONNISME EFFICACE – L’auto-blocus décidé par la Russie
Revista Metamag, 13 de Setembro de 2014
É provável que os membros da Comissão Europeia se tenham esquecido de ler François Crouzet (De la supériorité de l’Angleterre sur la France, Perrin, 1985) antes de se alinharem sobre as posições americanas na questão ucraniana. As consequências das guerras do primeiro Império são no entanto interessantes para compreender o que se vai passar na Rússia aplicando-lhe sanções que, na maioria dos casos, nunca não foram dissuasivas.
Uma rápida leitura da história
François Crouzet mostrou claramente que o bloqueio era uma política muito frutuosa. Primeiramente, a economia europeia do século XVIII estava em boa parte virada para o exterior. Quando, no fim de 1807, os países do continente foram submetidos pelos Britânicos a um bloqueio marítimo rigoroso, isso provocou um declínio acelerado de algumas indústrias, como os tecidos, mas a deslocação introduzida pela medida terá finalmente efeitos positivos a longo prazo sobre o desenvolvimento da indústria continental. Seguidamente Crouzet estabelece quais foram as vantagens do auto-bloqueio imposto por Napoleão na medida em que a Rússia retoma força face aos Europeus.
O autobloqueio é na prática um sistema proteccionista que tem como efeito favorecer o crescimento das actividades mais ameaçadas pela concorrência estrangeira. No início do século XIX, o exemplo paradigmático foi o do algodão. Há uma relação incontestável, explica Crouzet, entre a proibição das mercadorias inglesas e a forte expansão da fabricação de fiação mecânica do algodão que começou em 1806. O autobloqueio salvou também a indústria do algodão da Suíça da mesma maneira que o fez na Saxónia.
Por volta de 1800, a supremacia da Inglaterra tornava quase que pastoris os países situados na sua órbita. A Europa estava ameaçada pelo destino da Índia. A deixar fazer o dominante, ninguém não podia entrar em concorrência. É exactamente do mesmo modo hoje onde a finança anglo-saxónica torna equivalentemente pastoris os países, zonas e continentes. Com o autobloqueio russo, é uma ajuda imprevista que emerge em prol das novas elites deste país.
A caminho de um afundamento da Europa
O bloqueio inglês de 1807 tinha atingido as actividades portuárias. Hoje, o bloqueio europeu vai reduzir a força de certas empresas russas, por exemplo o grupo Rosnef (petróleo) suprime um milhar de postos em termos de quadros. Mas o desastre abate-se sobre o continente. O Finlandês Valio começa a diminuir o seu pessoal; os Espanhóis assinalaram que todas as exportações directas de carne e de frutos e legumes em especial afectavam já as províncias de Almería, de Múrcia, Valencia e Córdoba. Não somente as vendas directas caem mas também as destinada a outros países europeus que transformam estes produtos antes de os voltar a exportar para a Rússia. O embargo de um ano sobre os produtos alimentares ocidentais causará também um prejuízo de centena de milhões de euros aos agricultores franceses produtores de porco e de queijo. Quando ao Comité oriental da economia alemão (Ost-Ausschuss der Deutschen Wirtschaft – OADW) o seu serviço de imprensa declarou que “daqui até ao fim do ano, as exportações para a Rússia poderiam cair de 20% à 25%. Isso afectaria quase 50.000 empregos na Alemanha”.
O primeiro-ministro inglês declarou que convinha excluir a Rússia do sistema de pagamento Swift. Se for claro que as perturbações imediatas são importantes para a Rússia, porque deveria vender sem estar a ser paga, por exemplo para o gás que fornece à Europa, não é duvidoso que a Rússia, como o fez a Alemanha depois de que diversos meios financeiros lhe declararam guerra em 1933, criará outros circuitos com outros parceiros. A relação entre a China e a Rússia reforça-se. Os dois países criaram uma comissão intergovernamental para a cooperação de investimento que tem mais já de 30 projectos ao estudo. E a lista dos países que desejam cooperar com a Rússia não deixa de estar a aumentar: a Turquia e a América do Sul, onde Putin se foi encontrar com os principais os líderes, mas também Marrocos dado que o Rei deve visitar a Rússia no Outono, sem estar a esquecer o Estado do Israel.
As novas milícias colocadas no comando da Europa
A geografia económica da Europa encontra-se numa viragem decisiva: a Europa vai modificar-se de forma duradoura, vai transformar-se duravelmente. As zonas industriais vão declinar, mas em contrapartida na Rússia uma actividade agrícola e industrial irão arrancar porque o autobloqueio russo terá um efeito positivo sobre a sua indústria. O tempo dos bolcheviques e a planificação total já passou. Desde 1990, uma nova elite ascende ao poder. Uma parte dos seus membros potenciais vergava sob a ditadura instalada na época de Boris Eltsine entre 1991 e 1999. Putin bloqueou o processo de pilhagem. Esta medida proteccionista permitirá a substituição de muitas importações por produtos russos, ao mesmo tempo que, para as actividades difíceis de criar na Rússia, novos circuitos de troca irão aparecer, nomeadamente com os BRICS e diversos países da América Latina. A Europa está condenada. A tecnologia chinesa não irá deixar nenhuma possibilidade de correcção do tiro nos anos próximos. A queda pode ser definitiva.
O desmoronar europeu
É difícil prognosticar os prazos necessários para a reorganização russa. É em contrapartida fácil de observar o desmoronamento europeu. Tudo desaba a um ritmo crescente, sob os olhares vazios dos membros da Comissão europeia. À questão de se saber porque é que os membros da Comissão são assim tão ignóbeis, Paul Craig Roberts deu a resposta, muito banal: “Aquando do meu doutoramento, o meu director de tese, que se tornou um alto funcionário do Pentágono afecto à tarefa de pôr um termo à guerra do Vietname, em resposta à minha pergunta sobre a forma como Washington sempre teve êxito em se impor aos Europeus em tudo aquilo que queria, ele respondeu-me: “o dinheiro, damos-lhes dinheiro”. “A ajuda estrangeira” perguntei eu? “Não, damos aos líderes políticos europeus malas cheias de dinheiro (“bag fulls of money”)[1] “. Eles estão à venda, nós comprámo-los. . E vêm trazer-nos o que queremos”.
Auran Derien, Revista Metamag, UN PROTECTIONNISME EFFICACE -L’auto-blocus décidé par la Russie, 13 de Setembro de 2014.
Texto disponível em :
http://www.metamag.fr/metamag-2243-UN-PROTECTIONNISME-EFFICACE-L%E2%80%99auto-blocus-decide-par-la-Russie.html
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