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DOS COMPROMISSOS DA ESQUERDA DE ONTEM AOS FALHANÇOS TRÁGICOS DA ESQUERDA DE HOJE: QUESTÕES À VOLTA DE UMA SÉRIE DE CAPITULAÇÕES. – CIGARRAS, OS VOSSOS DOCUMENTOS! – O EDITORIAL de ÉLISABETH LÉVY
Cigarras, os vossos documentos! O editorial de Élisabeth Lévy
Élisabeth Lévy, CIGALES, VOS PAPIERS!
Le Causeur, nº 17, Outubro 2014
Se entendi correctamente, tenho a possibilidade de escolher entre ser uma “criminosa” ou “uma pessoa muito doente”. Desde o problema Thévenoud, sou altamente inoportuna. Mesmo assim, isso não é nada, o presidente disse que eu deveria ser considerada inelegível, sobre isso daria uma palavra à Alta Autoridade para a Comunicação Social. Felizmente, nunca planeei apresentar-me a uma qualquer eleição política. Não importa, o certo é, 300 jornalistas ouviram passivamente François Hollande a afirmar, sem qualquer hesitação, que pessoas que não tinham em dia as suas obrigações financeiras eram a escória da sociedade, que estas não eram dignas da República.
Devo acrescentar que me senti visada, não deveria ser eu a única. Tentei recapitular mentalmente as facturas em atraso, as ordens de pagamento não aceites, os cheques à espera de serem enviados – saiba-se que se encontram cada vez menos selos à venda nas tabacarias. Lembrei-me que, no processo a Thévenoud, um médico de carteira bem recheada se terá queixado num grande jornal de ter uma factura em atraso. Esqueceu-se de pagar o kinesiterapeuta da sua filha, mas que infâmia! Começa-se assim e acaba-se por mentir sobre o seu próprio diploma em Sociologia.
Desisti rapidamente de todo e qualquer cálculo. Eu sei que as pessoas sensatas, as que que não pertencem à grande família das cigarras – para sermos amáveis e evitar uma conotação-médica- não entendem que se possa ignorar o saldo da sua conta bancária. É que, por definição, a situação financeira do retardatário flutua constantemente, uma vez que este se esgota para tentar ganhar o dinheiro que já gastou, colmatando as brechas quando pode, ao mesmo tempo que joga ao gato e ao rato com o seu banco. Quando se adiou durante tanto tempo acaba-se por considerar que é tarde demais para enviar a sua declaração de rendimento, mesmo com os 10% de acréscimo, sabe-se que se é taxado mais tarde mas diz-se que se irá encontrar uma solução daqui até lá. Esta relação irracional ao mundo material, muitas vezes paga-se com um preço bem elevado e com ansiedades pelo meio. O mau pagador acaba sempre por pagar e a um alto preço. O defraudador rouba, caros amigos, mas nós pedimos-lhe sempre dinheiro emprestado e não à taxa de mercado.
Não há nenhum orgulho a tirar do facto de ser um mau gestor. Até então, pessoalmente não sabia que era necessário sentirmo-nos envergonhados – digamos que esta não é a mais grave das falhas humanas. No caso de Thévenoud,, não se pode excluir de imediato a dimensão patológica que ele próprio terá invocado (não nos preocupemos, o meu caso é muito menos grave). Tais disposições não predispõem talvez à gestão administrativa ou de negócios, e Thévenoud, como lhe foi dito, tem que entender isso. Acima de tudo, ele deve compreender que, sob o impiedoso regime de transparência que ele próprio ajudou a criar, ninguém é inocente. Mas o verdadeiro erro de Thomas Thévenoud, é o seu farisaísmo. A menos que ele esteja, de imediato, completamente a Oeste, as suas imprecações contra Cahuzac sugerem-nos Cláudia a apedrejar Maria Madalena.
No entanto, Cahuzac e Thévenoud, não são a mesma coisa. O primeiro é punível pelos tribunais, o outro não o é. Então, quando o Presidente denunciou publicamente como um crime moral o que a lei não qualifica sequer de delito, quando o primeiro-ministro diz que por isso não contará mais com a voz do ministro, um dia que seja aquando do voto de confiança, como se este o manchasse, sim, eu fico um pouco assustada. Será que é necessário afastar de toda e qualquer responsabilidade pública os desorganizados, os despreocupados, os mandriões, as pessoas um pouco indecisas, os equilibristas, os sonhadores, para benefício exclusivo daqueles que estão sempre na ordem estabelecida? Em suma, na França, pode-se ser ministro, sendo estúpido, cínico, oportunista, desleal, inculto. Por muito pouco que se faça ironia com o dinheiro. Era efectivamente necessário que a esquerda do casamento para todos acabasse, eventualmente, por (re)inventar a República dos bons pais de família.