FRATERNIZAR – ESCLARECIMENTO À NAVEGAÇÃO! – por Mário de Oliveira

(postado hoje no Grupo dos Ex-Combatentes, cujo administrador fazia questão de que tb eu lá figurasse, certamente, por ter sido capelão militar à força, não por opção, na Guiné-Bissau, ao tempo da Guerra Colonial)

001

A minha Crónica de ontem sobre a tortura a céu aberto que Fátima é, foi um veemente apelo a que acabemos de vez com as causas do sofrimento das populações, de modo que não haja mais humilhados e condenados da terra a terem de continuar a correr para aquele local, em busca do ópio religioso necessário, para poderem continuar a suportar os seus quotidianos de dores evitáveis, gritantemente intoleráveis. Ora, em vez de acolherem este Evangelho/Boa Notícia, muitos ex-combatentes deste Grupo decidiram insultar-me de “demente” para cima. Sei que o primeiro e o último (o alfa e ómega) praticante e mensageiro do Evangelho, Jesus Nazaré, acabou, ele próprio, crucificado na cruz do império de Roma, como o maldito dos malditos. E adverte-nos que o discípulo não é mais que o mestre. Pelo que, se a ele o odiaram e mataram, também odiarão e matarão quantas, quantos o seguirem/prosseguirem. Sabemos bem que quem está instalado nas suas rotinas e nas suas mediocridades, não suporta o “novo” que, como um tornado não anunciado, vem desinstalá-lo/dessassogá-lo/estimulá-lo a nascer do mesmo sopro que vem das bandas das vítimas da História e reage, quase sempre, agressivamente contra o mensageiro. Quero dizer-Vos que não me ofendestes. Ofendestes-Vos. Nunca fui combatente de armas na mão. Fui, sim, obrigado a ser capelão militar na Guiné-Bissau, ao tempo da Guerra Colonial. Integrei o Batalhão 1912, sediado em Mansoa. A comissão era de dois anos, mas, 4 meses depois de desembarcar em Bissau, já estava a ser expulso de capelão e a regressar de avião a Lisboa e daí ao Porto. O Bispo castrense de então, D. António dos Reis Rodrigues, rotulou-me, em carta endereçada ao Bispo Administrador Apostólico do Porto, D. Florentino de Andrade e Silva, que me havia entregado a ele para ser capelão militar, de “padre irrecuperável”. Só porque eu, ao contrário dele e do Administrador Apostólico da Diocese do Porto, em lugar de canonizar a Guerra Colonial como guerra santa, cheguei lá e comecei logo a pregar a paz que, naquele contexto, exigia, para ser efectiva, que o direito dos povos colonizados fosse respeitado e praticado, nunca impedido-combatido, como estava a ser. O anúncio do Evangelho da paz, no coração da Guerra Colonial, valeu-me esse rótulo proferido então pelo Bispo castrense, sem nunca antes me ter sequer ouvido, e acompanha-me desde então até hoje. Por sinal, coisa pouca, se comparado com o que os sumos-sacerdotes do seu tempo e país, fizeram a Jesus Nazaré, o filho de Maria! Sucede que, desde então, nunca mais baixei os braços, nem me acomodei a privilégios clericais que rejeito, em nome da Liberdade e da dignidade/igualdade humana. Muito menos, bati com a porta. Pelo contrário. Sou, desde 1975, presbítero jornalista, por isso, sem qualquer necessidade de ter um ofício canónico por nomeação episcopal, ao qual anda sempre ligado o respetivo benefício material e honorífico. Posso, por isso, dizer, como Jesus, que dou de graça o que de graça recebi/recebo. Os párocos e pastores comerciantes, empresários de várias paróquias-empresa, não me perdoam e odeiam-me. Mas sem razão. A todos eles só lhes posso dizer e digo, com toda a minha ternura de menino, como disse, no dia 2 de Janeiro 1968, no gabinete dele, ao meu Comandante do Batalhão, que me acusava de, nas homilias, não respeitar a Constituição, ao defender abertamente o direito dos povos colonizados à autonomia e independência, “Mudem a Constituição, que eu não posso mudar o Evangelho” Agora, aos bispos e aos párocos e outros pastores de igreja, Mudem o Código de Direito Canónico e o Catecismo da Igreja Católica, que eu não posso mudar o Evangelho de Jesus, que dá toda a prioridade às pessoas e à vida saudável e feliz, não às leis, às tradições, aos poderes. A concluir, não Vos peço que deixeis de me ofender. Peço-vos que não Vos ofendais mais do que já Vos ofendestes. Abraço-vos a todos e às vossas famílias. E terei muita alegria em partilhar a vossa Mesa, se, um dia destes, me quiserdes convosco.
Macieira da Lixa, casinha arrendada onde vivo,14 OUTUBRO 2014, Mário Pais de Oliveira.

 

Leave a Reply