A OPINIÃO DE DANIEL AARÃO REIS – Pela esquerda, com a direita.  

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A primeira eleição presidencial depois da transição democrática, em 1989, opôs dois campos diferenciados: de um lado, as esquerdas, com vários partidos: o PDT lançou Brizola. O PT, Lula. O PSDB, Covas. Havia ainda o velho Ulysses, na centro esquerda. O que unia estas tribos, em versões mais ou menos radicais, era a cultura política nacional-estatista, preocupada com mudanças que levassem a uma sociedade mais justa e igual, baseada num Estado forte.  Num outro campo,  Fernando Collor  polarizou as direitas. Também queria mudar, mas em outra direção. Defendia um discurso liberal, coma primaziado mercado e dos grandes negócios.

Depois que o vitorioso Collor foi para o ralo, assumiu Itamar com a república da broa. Embora debochado, foi em seu governo que se fez o Plano Real.

Nas eleições seguintes, em 1994, o PSDB, liderado por FHC, bafejado pelo sucesso da luta contra a inflação, ganhou no primeiro turno, derrotando Lula e o PT. Deu-se, então, uma metaformose singular – os tucanos, renegando o passado, resolveram aliar-se com a direita, o PFL, ancestral do atual DEM. Assim,  o PSDB, de feição  progressista e  social-democrata, decidia governar com lideranças liberais e carimbadas pelo apoio à ditadura, até o seu fim, em 1979.

FHC sustentou que a manobra era imprescindível à “governabilidade”. Foi como se abrisse a garrafa da fábula – dela saiu um monstro desconhecido: tinha orelhas e rabo da reação, costado e orelhas liberais, olhos, boca e nariz social-democratas.  E foi este estranho ser que governou o Brasil durante oito anos, porque, em sua reeleição, obtida por métodos nada ortodoxos, FHC bisou a dobradinha, ganhando, mais uma vez, no primeiro turno.

Sucedeu-o, em 2002, Lula e o PT. Ainda eram e já não eram o mesmo bicho dos anos 1980. O que seriam? Lula recorreu ao poeta popular: “sou uma metamorfose ambulante”. E a coisa  ficou mais confusa com a famosa Carta aos Brasileiros, cujos destinatários foram menos os “brasileiros”e mais o mundo empresarial e os homens do chamado mercado.

Ao assumirem o governo, Lula e o PT, em vez de formar um governo com  forças de esquerda, preferiram, também em nome da sagrada “governabilidade”, constituir um governo com partidos e lideranças de direita. Surgiu um outro monstro. A fórmula estranha atravessaria os doze  anos de governos petistas, mantendo-se na atual eleição.  De um lado, os tucanos,  dançando, rosto coladinho, com liberais e reacionários. De outro, o PT, cheek-to-cheek com a “vanguarda do atraso”.

Invocando a cultura política nacional-estatista, pela esquerda, Dilma faz campanha com Collor, Barbalho e Sarney.  Chegaram a fazer parte de sua “base”o inefável Bolsonaro e Marco Feliciano, o pastor homofóbico, que, em reviravolta, já apóiam os tucanos. Estes reproduzem o ecletismo: Aécio vai com Marina, o PSB, os próprios pastores,  a nata dos economistas liberais eo jovem ACM, e ninguém fora mais neto do seu avô do que ele.

E assim vamos, e iremos,  pela esquerda, sempre,  mas com a direita.

 

Daniel Aarão Reis

Professor de História Contemporânea

Universidade Federal Fluminense/UFF

 

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