CARTA DE LISBOA – Dizem que é uma espécie de Orçamento – por Pedro Godinho

lisboa

 

 

cá estão eles, de novo, a enfiarem-nós pela garganta abaixo a ideia de que não há alternativa nem margem para fazer de outro modo.

É a economia reduzida a inevitáveis fórmulas matemáticas como se se tratasse apenas da técnica de bem utilizar as folhas de cálculo.

Ora, por mais que o procurem esconder, o nome de baptismo foi Economia Política, deixando bem claro que se tratava não de ciência exacta mas de ciência social e humana, cujo objecto era o estudo e análise das políticas económicas e dos seus impactos na vida das pessoas e das sociedades.

Um orçamento é, simplesmente, a arrumação em rubricas diversas das intenções (expectativas) de despesas e receitas espelhando as opções a tomar quanto ao governo económico da sociedade e à gestão dos bens e dinheiros públicos.

Mas não, Governo, meios de comunicação social, consultores e econometristas, muitos da auto-intitulada oposição, parecem interessar-se é pelo jogo do cálculo, das operações aritméticas simples, a descrever detalhadamente que soma aqui substrai ali, tira dum lado põe no outro. Como se fazer as continhas num computador, por isso, as tornasse uma verdade incontestável, na sua complexidade só totalmente compreendida pelos iluminados de serviço.

Para mais sabendo que as contas apresentadas são um faz de conta para ficar bonitinho nos quadros, gráficos e relatórios apresentados cá dentro e lá fora, mas que serão, mais tarde, desmentidos pela realidade, sempre diferente do que escrevinharam – o que também não os preocupa porque fazem uns rectificativos do pé para a mão e, uma vez mais, como se fosse só uma questão aritmética.

O que não se discute é o que importa: os pressupostos considerados e as opções de política económica e social tomadas (porquê umas e não outras, que distribuição e utilização dos recursos disponíveis). Mais, sem aceitar que as pessoas tenham uma palavra a dizer em matéria de tal importância e que as afecta directamente (mesmo admitindo que falta dinheiro porque não admitir que os cidadãos possam escolher para onde, e que parte, o pouco que há deve ir – saúde, educação, transportes, futebol, touradas, …).

Ah, é verdade, e depois disto tudo, a dívida (a razão que justificava a monumental austeridade) é hoje maior que quando o governo tomou posse.

Grande Passos. Grande Portas. Merecem um certificado Tecnoforma.

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