A França era uma sociedade democrática que possibilitou a mais de um milhão de portugueses emprego, estudos, amores, e até actividade política e social.
E se formos ver caso a caso, é evidente que o trabalhador explorado em Portugal achou uma benesse divina o dinheiro que ganhou em França, porque lhe permitiu em muitos casos voltar à terra, comprar casa, montar uma forma de ganhar a vida. Nos casos de activistas políticos, foi a fuga à prisão, a oportunidade de adquirir conhecimentos e de se desenvolver maior capacidade intelectual.
Para muitos que abandonaram o país por questão de postura profissional Universitária, também foi uma esplêndida oportunidade de enriquecimento. E como vantagem comum, a não esquecer, a verdade é que toda essa gente foi poupada a sofrer alguns anos a mediocridade fascista, e a não participar na crimi¬nosa e genocida guerra Colonial.
Mas então, isso quer dizer que não houve exílio?
Houve sim senhor, e é imperdoável e nunca recuperáveis os anos que o fascismo obrigou tanta gente decente a sair da sua Pátria.
Mas convém que não empolemos com cargas de sofrimento demagógico situações que foram benéficas em inúmeros casos.
E foi durante esses anos de boa memória que aconteceu Maio 68.
Era 3 de Maio, três da tarde. Estava eu a tomar uma bica com uns amigos no Boulevard 5 Michel, quando começou a descer uma manifestação de estudantes.
– Olha, mais uma!
– E os chuis? – Devem estar a chegar. Claro que já lá estavam, sabiamente escondidos à esquina da ponre, e passados uns segundos começaram a mostrar-se.
Pausa, silencio, só falrava a música do Morricone para recordar “Era uma vez no, Oeste”.
E nisto, a manifestação começou a avançar.
– Eh pá, os gajos estio a andar.
– Pois é. O que é isto?
– Isto hoje …
E, de repente, a manifestação desatou a correr.
Mas, oh milagre do inesperado, a correr em direcção à polícia! E a polícia, surpreendida com tal prova de afecto, recuou e entrincheirou-se. .Algum garboso centurião terá apelado ao nobre sentido cívico dos CRS, e ei-los que desembolaram enraivecidos.
Começaram a voar pedras, lixo, chávenas e cadeiras dos cafés.
– Vamos?
– Que remédio!
– Até parece mal se a gente não dá uma ajudinha.
Esta conversa e a descrita “perturbação da ordem pública” passaram-se nos primeiros minutos da primeira manifestação que lançou o Maio de 68.
A seguir, já se conhece a história toda: estudantes, trabalhadores, intelectuais, afir¬mavam que esta civilização não servia. O quê em troca? Não se sabia. Mas muitos milhares não pouparam esforços – bonitos e generosos, diga-se de passagem – a tentar descobrir caminhos para o futuro.
Mais do que um acto puramente político ou partidário, tratou-se de uma rejeição de um modelo de vida e de sociedade.
Talvez seja por isso que alguns cronistas e opinion makers despejam tanto ódio contra os soixante-huitards, contra essa geme e esse movimento indisciplinado, li¬bertário, afectivo, inimigo do PRECONCEITO, esse cancro ideológico que corrói as relações humanas, com a coragem de ressuscitar a UTOPIA, e a determinação de se entregarem de corpo e alma ao parto de uma sociedade nova.
Ainda não se conseguiu?
Há-de vir.
Aliás, foi essa a ideia daquela batida que marcava essas célebres manijestaçôes e que rezava