O terceiro debate, realizado domingo último, supreendeu e elucidou.
A surpresa – boa – deveu-se à ausência de ofensas. Como os candidatos só fazem o que os marqueteiros mandam, é razoável supor que tenham percebido que erraram a mão na dosagem de insultos. Curvaram-se às demandas da sociedade, rendendo homenagem, mesmo involuntária, à democracia.
Saindo as baixarias, entraram os argumentos, os candidatos fazendo o possível para se distinguir: Dilma contrastou os doze anos petistas aos oito governados por FHC. Aécio destacou os últimos quatro anos problemáticos, comparando-os com o futuro risonho que ele promete. Choveram, então, dados e números, afirmados e desmentidos com igual determinação.
O debate tornou-se elucidativo, porém, quando apareceram as ideias e propostas para enfrentar e superar as grandes questões que afligem a sociedade. Houve aí, apesar dos esforços dos contendores, notável convergência.
Quando discutiram o desenvolvimento econômico, ao se referirem aos gargalos de infra-estrutura, ambos não fizeram nenhuma referência ao meio ambiente, à poluição, à predação dos recursos naturais. Contornaram estes temas incontornáveis, como se estivéssemos nos anos 50 do século XX. Como Eduardo Jorge e Marina fizeram falta…
Em relação a outros problemas, também os candidatos muito se pareceram no que afirmaram e, sobretudo, no que silenciaram.
Quanto ao sistema educacional – público e privado -, nenhum plano concreto para estabelecero horário integral para estudantes, professores e funcionários. Para ficar apenas num exemplo: como pode um professor de ensino médio ter 400/500 alunos e trabalhar simultaneamente em três lugares diferentes? Um sistema desses pode funcionar?
O sistema de saúde pública não é menos deficiente. Os candidatos o reconhecem e fazem promessas genéricas. Farão nos próximos quatro anos o que não fizeram em vinte. E o que dizem dos planos particulares, quedesrespeitam os contratos quando os pacientes mais deles precisam? Nada.
E o transporte público? É comum trabalhadores gastarem 3 ou 4 horas, em ônibus e trens caros, lotados e desconfortáveis. A mobilidade urbana é um caos. Aliás, falar em “mobilidade” avizinha-se da ironia cruel, porque as pessoas não conseguem mais se mover, presas nos engarrafamentos. O governo responde com incentivo à produção de mais veículos…O assunto não entrou na pauta, talvez porque os candidatos não usem nem pretendam usar os transportes públicos.
E o que dizer da segurança? Temos hoje uma polícia militarizada, com recordes mundiais de matanças. Em suas “operações de choque”, movem-se em veículos blindados – os “caveirões”…Que propostas têm os candidatos? Aqui houve acordo: tanto Dilma como Aécio querem reforçar a PM com o Exército, a Marinha e a Aeronáutica. Tansformar as Forças Armadas em polícia. Os dois acharam muita boa a “solução” encontrada para garantir a Copa e os negócios da FIFA. Dilma promete, e Aécio acha ótimo, formar comandos centralizados de controle para policiar, vigiar e reprimir. Novos DOI-CODIs? A respeito da recusa dos chefes militares em reconhecer a tortura durante a ditadura, ambos não disseram nenhuma palavra.
E quanto à homofobia? Aos assassinatos de homossexuais? À interrupção voluntária da gravidez? Os candidatos nem se dignaram a falar destes assuntos constrangedores. Podem perder votos… Que saudade de Luciana Genro!
Rompendo uma tradição estabelecida, os candidatos não apresentaram programas. Dilma assevera que não precisa, o que ela fez, falaria por si. O que Aécio chama por este nome, não o merece, eis que feito às pressas, com propósitos eleitoreiros, às vésperas do primeiro turno.
E por que não têm programas? Por incompetência? De modo algum. Não o fizeram, porque, se o fizessem, à vera, teriam que definir propostas precisas, orçamentando custos, definindo quem arcaria com os mesmos, ou seja, quem pagaria a conta, porque ela seria, e é mesmo, alta, muito alta.
Quem pagaria a conta de um sistema educacional e de saúde e saneamento dignos deste nome? E do transporte público gratuito? E de uma política de segurança, onde os cidadãos se sentissem protegidos e não ameaçados?
Para efetuar transformações deste tipo, haveria que enfrentar poderosos interesses, e romper com estes “arcos” gelatinosos de alianças sem princípios, estas “bases” pantanosas, que confortam os governos mas os paralisam. Garantem a alardeada“governabilidade”, mas impedem as reformas.
Aconteceu com FHC e com Lula. Dilma perpetuou o procedimento. E Aécio o reproduz, com aliados que já migraram da companhia petista para o ninho tucano. Outros estão com as malas prontas para fazer o mesmo, se ganhar o PSDB.
De sorte que deste sistema é de onde menos se podem esperar reformas profundas e indispensáveis. E, como dizia Aparício Torelly, o Barão de Itararé, “De onde menos se espera…daí é que não sai nada.”
Daniel Aarão Reis
Professor de História Contemporânea da UFF
Email: daniel.aaraoreis@gmail.com

