CRÓNICAS DO QUOTIDIANO – – por Mário de Oliveira

quotidiano1

 

Não falta por aí quem me acuse de meter todos no mesmo saco. A acusação acontece, sempre que me refiro às religiões/igrejas cristãs e aos partidos políticos com assento nos parlamentos das nações, ou que lutam por uma das suas cadeiras, muito poucas, por sinal, para tantos candidatos a ocupá-las. Mas será que o poder tem mais do que um saco? Não é da natureza do poder ser um só, com múltiplas máscaras e muitas mais submáscaras, para, desse modo, enganar até os que se têm por mais avisados? Aliás, não é essa uma das suas especialidades, a de ser estritamente um só (= monárquico!), mas apresentar-se disfarçado de múltiplos rostos, nomes, para mais facilmente enganar, instalar-se, dominar, controlar, reinar? O poder não é um polvo – um só – com múltiplas cabeças, qual delas a mais pérfida, cínica, cruel, refinada, com o mesmo denominador comum, serem todas sem entranhas de humanidade? O poder não chega, até, a disfarçar-se de bondade, de virtude, de santidade, de honestidade, para seduzir, enganar, inclusive, muitas daquelas pessoas que se dizem avessas ao poder, quando elas próprias já estão a ser poder, o mais total, mas sempre a pensar que são simplesmente servos dos servos de Deus, precisamente, o deus poder? Só seres humanos politicamente ingénuos, por sinal mais que muitos entre quantos se têm por mais ilustrados e eruditos, é que insistem em pensar e admitir que há poder bom, poder menos bom e poder mau. Custa-lhes ter de reconhecer que todo o poder é mau. Mais lhes custa ter de admitir que o poder é o mal, o pai de todo o mal. E muito mais ainda, ter de reconhecer que o poder é o Dinheiro, e o Dinheiro é o poder. Acham, por isso, insuportável, pior, intolerável, encontrar alguém, um ser humano como nós, mas radicalmente lúcido como ainda mais nenhum de nós é, que já pratica e, por isso, anuncia, como o primeiro princípio gerador da única alternativa política a este tipo de mundo do poder, a dijuntiva, “Não podeis servir a Deus (= Humanidade) e ao Dinheiro (= Poder)”. E, como o não suportam, desfazem-se reiteradamente dele. Vivem já tão possessos do demónio poder, que se tornam assassinos da Verdade, para que ela nunca os liberte e faça humanos, maiêuticos, sororais, vasos comunicantes.

24 Outº 2014

Leave a Reply