DOS COMPROMISSOS DA ESQUERDA DE ONTEM AOS FALHANÇOS TRÁGICOS DA ESQUERDA DE HOJE: QUESTÕES À VOLTA DE UMA SÉRIE DE CAPITULAÇÕES. – DOSSIER- DECRESCIMENTO – CRESCIMENTO, O PARADIGMA PERDIDO – por GIL MIHAELY

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 Selecção, tradução e notas por Júlio Marques Mota

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DOSSIER- DECRESCIMENTO

2. Crescimento, o paradigma perdido

 

GIL MIHAELY, CROISSANCE, LE PARADIGME PERDU

Causeur nº 17, Outubro de 2014

 Parte I

Desde o fim dos Trinta Gloriosos e com a multiplicação das crises, o Ocidente assiste impotente à redução das suas taxas de crescimento. Devemos nós contar sobre a inovação para sairmos deste marasmo? Devemos nós sobretudo nos adaptar e permanentemente a um futuro onde o crescimento será fraco, ou será até mesmo nulo e em que isso irá ser a norma? Ou antes, devemos nós organizarmo-nos deliberadamente para ter um mundo de decrescimento, e muito antes que os danos causados pelo progresso se tornem irremediáveis? Três pistas, entre as quais teremos de escolher.

“Aquele que crê que o crescimento exponencial pode continuar indefinidamente num mundo finito ou é um louco ou é um economista”. Se o autor desta fórmula, o anglo-americano economista Kenneth Boulding, tem razão, então, depois de mais de dois séculos, o nosso planeta será um gigantesco asilo. Mesmo hoje, para a maioria de nós, o debate económico resume-se à seguinte escolha: modelo Valls ou Montebourg, Keynes ou Friedman, modelo alemão ou escandinavo? Dito de uma outra forma, tanto à esquerda como à direita, tanto entre os capitalistas como entre os marxistas, de Melenchon a Marine Le Pen, a ausência de crescimento é geralmente considerada como um fracasso, uma “crise”, um interlúdio entre dois períodos ditos ‘normais’. O crescimento, este é a regra, o meio-ambiente natural do homem. Para os cidadãos, o crescimento é o que lhe devem os seus dirigentes e, para os governantes, o crescimento o horizonte de toda e qualquer política séria.

No entanto, esse paradigma universal não resulta tanto da loucura como da crença. O crescimento assemelha-se a uma religião, enraizada na grande promessa das Luzes: progresso. O credo é simples: o paraíso é possível na terra, através da acumulação de bens e serviços, o que se torna possível através da utilização das máquinas e pelos novos processos inventados pela ciência e pela tecnologia. Atenção, o objectivo é nobre: trata-se de encorajar o otium do povo, os tempos livros consagrados ao desenvolvimento pessoal, do em-si, do eu singular, dedicado ao auto-aperfeiçoamento, o que é, por seu lado, o oposto do negotium, a raiz do nosso “comércio”, termo com o qual se designam todas as actividades necessárias para a nossa sobrevivência material. No brilhante futuro de progresso, as máquinas substituiriam os domésticos e os escravos da Antiquidade para que cada um e não apenas uma pequena minoria, possam aceder a este luxo.

Em “Progresso futuro da mente humana”, Condorcet prometia à humanidade que se empenhasse na via da ciência e da técnica, uma expansão das riquezas cujo único limite seria a capacidade de inovar: numa palavra, o crescimento perpétuo. Estaria Condorcet louco?

É verdade que, na sua primeira acepção, o crescimento não era uma escolha, mas uma necessidade: é necessário produzir mais para alimentar mais seres humanos. Incontestável. Se nós somos cada vez mais numerosos, é necessário cada vez mais para que cada possa ter o mesmo. Só que, uma vez embalada a máquina, o crescimento tornou-se a lei do “sempre mais” para todos: mais para cada um, durante toda sua vida, mais para as crianças e mais para os pais. Desta forma, quase foi esquecido que assim poderá não haver nem mais ar, água, petróleo, em suma, foi esquecido que o planeta, este, é limitado. A felicidade foi definitivamente associada com conforto e com posse. De um crescimento simples que corre atrás da demografia, surgia um crescimento exponencial que corre após a publicação trimestral dos resultados das empresas

No entanto, para as crianças do período do pós guerra, realizou-se o fantasma do crescimento ilimitado. ‘Ilimitado’, é uma grandiosa palavra para as décadas infelizes – 1945-1974. Mas em apenas uma geração, nós ganhámos hábitos. Jean Fourastié, autor dos Trinta Gloriosos, um livro que deu o seu nome a esta época, que não via neste período mais do uma transição entre duas fases de crescimento muito fraco : a primeira, indo de 1800 a 1945, depois a da dupla revolução – agrícola em primeiro lugar e a seguir industrial- a segunda fase de fraco crescimento, o nosso, que começou na década de 1970, anunciando a era pós-industrial em que a maior parte da força de trabalho e do consumo se iria concentrar-se no sector terciário.

No entanto, estas últimas décadas têm colocado em má situação esta visão idílica de um futuro sempre mais abundante. Para a maioria dos ocidentais, principais beneficiários do progresso e do crescimento no período pós-guerra, o primeiro a estragar a festa foi a ecologia: começámo-nos a preocupar com a degradação do meio ambiente – poluição dos mares, rios e a atmosfera- o que ameaçava a saúde e a qualidade de vida, antes de se descobrir e com uma brutal angústia os riscos bem mais sérios que o homem fazia correr ao homem – aquecimento climático, extinção acelerada de espécies, os desastres nucleares. Em seguida vieram as críticas do turbilhão do consumo, e com tanto mais barulho quanto os ganhadores eram menos numerosos. Tecnologia, decoração, vestuário, carros, comida, viagens: a classe média ocidental, acompanhando a evolução da classe média americana, adoptou um estilo de vida de que instintivamente nos apercebemos que não é «universalizável sem contradições”, segundo a fórmula de Michea, que demonstra a impossibilidade de um mundo no qual haveria a mesma proporção de piscinas privadas que nos Estados Unidos. Mas, afinal de contas, de acordo com algumas previsões do fim do século XIX, o grande problema do século XX seriam as gigantescas quantidades de bosta de cavalo que seria gerada com o grande “boom” dos transportes urbanos.

Os profetas ocidentais do final do crescimento estão eles tomados de um pessimismo cultural que os faz temer erradamente o declínio económico da sua civilização e a ascensão de novos actores asiáticos e africanos? São eles os Malthus do século XXI, notando-se, a partir de uma extrapolação do passado, a impossibilidade do “continuar assim” ou lúcidas mentes que nos tentam trazer de volta para o caminho da razão? E finalmente, o pastor britânico do final do século XVIII e do início do século XIX estava errado ou certo, muito antes?

Para tentar trazer elementos de resposta às questões que desenham o nosso futuro, conheci três pensadores que conjugam ensino, reflexão económica e participação activa no debate público, e cujas posições sobre o assunto nos podem dar uma espécie de panorâmica geral sobre este tema. Jean-Hervé Lorenzi, Professor emérito de economia em Dauphine, encontra-se sobretudo bastante próximo de Condorcet: ele acha que ‘crescimento sustentável’ não é só possível mas também desejável. Para Aurélien Bernier, intelectual e activista pertencente à esquerda radical, não só o crescimento já não é possível, mas também não é  desejável. Por fim, o economista e matemático Gaël Giraud acredita que é necessário liminarmente abandonar este critério e deixar de pensar em termos de PIB.

(continua)

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