À saudosa memória do colega de escola
de minha mãe, o escritor eborense Antunes da Silva.
Se o pobre mal tinha para comer, como é que haveria de filosofar? – Mas a verdade é que ele filosofava!
Sublimava-se em olímpicos e libertários idealismos, para logo mergulhar num discurso torpe e desbragado. E sempre uma coisa de cada vez. E sempre, a dançar na sua mente, a mesma incoerência do delírio, mas que tinha rasgos de originalidade preocupante. Parafraseava tudo, em completa liberdade, definitivamente marginalizado, alcoolizado sem remissão, forma de silenciar os latidos dos jejuns intermitentes, de os adormecer.
Chamava-se (ou chamavam-lhe?) Rosca! Tinha como habitat, território de passeio, ancoradouro de recursos e zona franca para dispêndios, as arcadas dos prédios da Praça de Giraldo e, às vezes, atrevia-se pelas travessas periféricas, onde subsistiam as últimas tabernas da cidade. Costumava recolher tudo o que lhe queriam dar, fosse o que fosse, mas nunca pedia. Havia em seu redor um fumo de indiferença, mas que não cheirava a hostilidade orgulhosa.
A sua história era contada em três versões diferentes. Provavelmente nenhuma deveria corresponder à verdade. Uma remetia-o para anterior vida farta que a desgraça arpoara, com o drama do amor traído e a estocada da ruína económica a fechar o cortejo. Outra versão “premiava-o” com a atmosfera pelintra do funcionário público, arruinado pelas iscas, enjoado pelos refogados e por uma mulher magra, enfermiça e desleixada, que o levara a passar a vida nas salas de espera das consultas hospitalares, mas que ao morrer lhe deixou uma amarga liberdade, cansada de humilhações e miséria envergonhada. Finalmente, a terceira versão, que era a mais vaga de todas, apresentava o Rosca soturno, levantando a cola do casaco num fim de tarde de Inverno e, desentranhado de uma vila do interior onde deveria ter sido professor primário, metia-o à estrada a caminho de Évora, sem outro objectivo que não fosse o de deixar de ser o farrapo obediente, o lamento perpétuo de um solteirão sem graça e sem futuro.
O parto romântico de qualquer destas versões nunca chegou a ser confirmado, pelo que a história verdadeira do Rosca nunca deu à luz. Personagem misterioso (vagabundo) e sem domicílio, vivia abotoado a uma idade enigmática e, parte da cidade conservadora e “institucionalmente” caritativa, manifestava-lhe a sua profunda antipatia, pois diziam que ele só vivia como vivia e dizia o que dizia dada a complacência das autoridades que, estúpidas como sempre, não sabiam interpretar as suas ideias, medir a gravidade das suas palavras, compulsar a tenacidade da turbulência que semeava no meio dos jovens, com a pretensiosa ociosidade que alardeava, os improvisos oratórios que improvisava, bem como os desatinados desrespeitos pela Ordem e “bons costumes” que preconizava.
Nefelibata incondicional, o Rosca havia efectivamente conquistado a estima de um grupo de jovens da cidade, a ponto da polícia política se meter no assunto, começando a vigiar o grupo de perto, como se o vagabundo fosse um subversivo, um organizador de rebeliões ou um terrível anarquista e bombista.
Repletos de tédio e de razões para isso, vítimas da atmosfera de Inquisição da cidade e dos olhares furtivos da mesquinha população, exagerando talvez o carácter de fatigante mediocridade do meio ambiente, o grupo de jovens rodeavam o Rosca nos dias propícios e, todos criados no poço sem funda da vulgaridade provinciana, pediam ao vagabundo frases, ditos, máximas, enfim, escapes improvisados, estímulos para voar dali para fora…
Alheio à “ciência” da linguagem expositiva e à lógica dialéctica, o Rosca disparava ditos que, não sendo o areópago da língua portuguesa, não deixavam de ser uma sã higiene para as jovens almas dos pequeno-burgueses, convocados a obedecer, obrigados a calarem-se, destinados a sofreram a submissão cultural e social….E o grupo atascava-se nas “doutrinas” telegráficas do Rosca, porque estas últimas era um resvalo voluptuoso no pego de águas podres da ignomínia provinciana; eram um furor e uma audácia partilhada só por este grupo de jovens, que se julgava, assim, defendido da polícia política, porque envidraçado pela demência do vagabundo, ainda por cima defendida pelo tabique do alcoolismo.
Da especiosa filigrana destilada pelo Rosca poucos guardaram registo… Com o tempo, todos temos de sofrer, perder alguma coisa… Há quem não se rale, e invente memórias nunca desmentidas, porque (é sabido!) os mortos não dão réplica. Todavia, como o Rosca era então inevitável na cidade, tal como certos líquenes nos velhos muros impassíveis, alguns jovens resolveram anotar os seus ditos, coleccionando-os…
Ora leiam estas direcções que envolvem os ditos do Rosca… e vejam se lhes servem…
«Tenho uma conta na Liberdade, onde me são descontados os dias vazios da vida.»; «Lágrimas sem sofrimento são um grande desperdício.»; «Deus suspeita do Homem: por isso é que, no fim, deixa-o morrer.»; «O amor é uma bebedeira perfumada!»; «Quem nunca ficou nu ao relento, nunca se confessou.»; «Vocelências, Propriedades e Bancos são a merda do Planeta.»; «Entristeci a felicidade, porque é uma mentira a fazer festas à desgraça!»; «A saudade é um vento morno, que entra pelas fendas abertas na alma pela ausência!»; «A História é imensas searas de mortos, cujas papoilas rubras se chamam glórias e duram pouco.»; «Ser trabalhador na desigualdade é entregar-se a mutilações do carácter, e receber em troca cicatrizes na alma.»; «O medo é vento da alma: rola cá dentro, mas trememos por fora.».
Os jovens… «– Então ó Rosca…», suplicavam por mais ditos. E ele a responder: «– Está fechado o realejo!». Depois, condescendia, rematando sempre com a mesma máxima: «-Vocês tem de saber isto: passa-se fome, mas goza-se!». Era a sua tesa bofetada à cidade hipócrita, conservadora, pretensiosa, domesticadora de pobres e mendigos. Era a sua divisa, pois terminava sempre com este dito amargo, levemente toldado por uma sombra de melancolia…
Um dia a polícia levou o Rosca, sabe-se lá para onde, cumprindo “ordens de cima”! …
Tenho visto muitos sem abrigo, marginais, seres empurrados para a berma da vida. Como o Rosca, nunca encontrei nenhum… O descontentamento dos pobres de hoje não é excepcional, há sempre uma questão de subsistência, o desajustamento de quem não se adapta ao trapo quente de um trabalho para mentecaptos, quem veja com maus olhos a Ordem e a Lei. Mas a coragem dos vagabundos, dos sem-abrigo, dos indigentes de hoje, só consente a marginalidade obediente, organizada para dar que fazer ao “militantes do voluntariado” ou para o crime gratuito. O vagabundo que conheci em Évora há muitos anos, sobrepunha a Liberdade à disciplina regulamentar… e espreitava mais além!

