OS MEUS DOMINGOS – AQUELE HOMEM… – por ANDRÉ BRUN

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1881 - 1926
1881 – 1926

 

VI

 

O que tinha de acontecer, aconteceu. Aquele homem tropeçou um dia numa mulher teimosa e, como não teve ensejo de se certificar do contrário, convenceu-se de que aquela era a sua mulher, à míngua da qual a Vida lhe pareceria de futuro um deserto sem palmeiras, sem oásis – oh! azes, como se diz na banca francesa quando sai o partido da casa – e apenas com a multidão de camelos que diariamente nos é fácil encontrar passeando por esses asfaltos.

Um dia em que ambos tomáramos um Rolls-Royce para Gomes Freire, o nosso amigo disse-me com o ar melancólico de quem acaba de assistir a um drama patológico e simbólico:

– Desta vez é que é certo. Dou cabo de mim. A cigana tinha razão.

Para ver se o distraia, li-lhe o extracto parlamentar da sessão em que se discutiu o empréstimo externo. Não houve forma de fazer florir um sorriso naquela boca que a amargura tomara de trespasse à despreocupação.

Aquele homem lançou-me mesmo o olhar torvo e carregado de quem estava disposto a ir-me aos queixos se eu insistisse em facécias de gosto duvidoso, e, como não somos da mesma categoria, pois ele é peso médio e eu sou peso sumaúma, entendi melhor evitar que a Federação Nacional de Box tivesse que nos desclassificar a ambos.

Mas, como tornasse a encontrá-lo dali a tempos e o camarada não cheirasse a cadáver, nessa tarde não me contive que lhe não perguntasse:

– Então o meu estimado correligionário desistiu de se matar?

– Isso sim! Há três meses que não faço outra cousa. Tenho experimentado todos os géneros de suicídio e nada. Em primeiro lugar, calafetei todos os buracos da minha casa, abri a torneira do gás e esperei. Ao cabo de quinze dias, como não sentisse o mínimo abalo, desci a escada, interroguei o guarda-portão, o qual me lembrou o qual me lembrou que desde há cerca de cinco anos que não temos gás. Voltei para casa e acendi um fogareiro de carvão para aproveitar o calafetamento já instalado. Passaram outros quinze dias e, em vez de me sentir asfixiado, pelo contrário parecia-me que havia uma corrente de ar no corredor. É que, quando tinha voltado para cima depois de consultar o guarda-portão, esquecera-me de fechar a porta da escada e com a ventania da chaminé…

– Não diga mais que já estou constipado…

– Quis enforcar-me no candeeiro da casa de jantar. Medi o tamanho da corda, dei o laço, subi a um banco, enfiei o pescoço, sacudi o banco com o pé e, passados quinze dias, achei-me sentado no chão…

– O candeeiro era de pesos, dos de subir e descer como a peseta?…

– Isso sim! O homem que me vendera a corda dera-me por engano um tubo de irrigador.

– Diga-me dessas e não doutras…

– Pensei envenenar-me e fui a um dos nossos melhores restaurantes. Mandei vir tudo: o consommé de goma arábica, os filetes de pneumático velho, a mayonnaise de ladrilho, o avestruz au cresson, o doce de colar cartazes. Aticei-lhe com três vinhos variados, um branco, um tinto e outro às riscas. Tomei café, licores e, quando já estava na agonia, o criado trouxe-me a conta. Ah! meu amigo! Senti uma tal pancada no estômago que tornei a pôr em cima da mesa tudo quanto jantara.

– E que disse o criado?

– Disse apenas: – Bem. Xâ veixo que amanhã ten de haber croquetes. Saí dali com a minha fisgada. Fui ao cais do Tôjo e bumba! Como nado como meio quilo de pregos, era infalível. Qual história! Estavam à beira-mar setecentas e tantas pessoas que se precipitaram à água para me salvarem. Uns eram credores dos Transportes Marítimos, que vão cedo para a praia a ver se aparece algum vapor a que possam lançar mão e levar para casa. Outros eram navegantes desembarcados das naus que foram descobrir os nossos pavilhões da exposição do Brasil.

– De forma que o meu amigo desistiu. Ainda bem!

– Qual desisti! O senhor não me conhece. Há um último meio de que só queria lançar mão em caso extremo, mas visto não haver outro remédio… Não passa de hoje. Quer ver?

E mostrou-me os arrendamentos de um terceiro andar num prédio novo do meu bairro. Setecentos escudos por mês e seiscentos pela chave, fora cinco contos “pelos oleados que o inquilino venha a colocar”.

– Com isto não falha! Adeus, meu amigo! Até ao outro mundo! Estimei muito vê-lo neste…

Apeou-se na paragem abaixo na minha. Não tinha eu tido tempo de chegar à minha porta, ouviu-se na rua um estampido formidável acompanhado duma nuvem de caliça, que toldou os ares durante hora e meia.

Era o prédio novo que tinha vindo abaixo com o peso daquele homem. Descobriram-no entre os escombros, incontestavelmente morto e com o sorriso nos lábios.

25 de Março de 1923

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