A NOSSA RÁDIO – Celebrando Edmundo de Bettencourt- 1 – por Álvaro José Ferreira

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Nota prévia:

Para ouvir os temas de Edmundo de Bettencourt, há que aceder à página

http://nossaradio.blogspot.com/2014/08/celebrando-edmundo-de-bettencourt.html

e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.

EDMUNDO BETTENCOURT

Vinde ouvir vinde ouvir a voz de Edmundo
Bettencourt. Essa voz que fica acima
da nota mais aguda onde então rima
com mar alto ó mar alto sem ter fundo.

Há nela uma Achadinha açoriana
cravos da Beira Baixa e da tristeza
e aquele não quer ser castelhana
de quem não pode ser mais portuguesa.

Vinde ouvir a saudade saudadinha
Senhora do Almortão e a mágoa infinda
dessa voz acabada de nascer.

Vinde ouvir. E quando ela for velhinha
mesmo assim a ouvireis cantar ainda
acabada acabada de morrer.

Manuel Alegre (in “Coimbra Nunca Vista”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1995 – pág. 79)

Nascido a 7 de Agosto de 1899 no Funchal, Edmundo Alberto Bettencourt, ou simplesmente Edmundo de Bettencourt (como se assinava), marcou aImagem1 primeira metade do século XX com a sua arte particular. Uma arte que Herberto Hélder, de forma apaixonada, inscreveu «nas zonas mais puras». José Afonso, por seu lado, considerava Edmundo de Bettencourt o maior cantor de sempre do fado de Coimbra (oito dos dez espécimes que José Afonso gravou para o álbum “Fados de Coimbra e Outras Canções”, de 1981, são do repertório de Edmundo de Bettencourt, que aliás é o primeiro dos dois dedicatários do disco – o segundo é o pai do autor da “Balada do Outono”). Descrições arrebatadas que dizem muito sobre o modo como o artista tocou as gerações que com ele conviveram, assim como as que da sua vida apenas receberam os ecos de uma obra rara, mas rica e seminal.

Depois de uma primeira inscrição no curso de Direito em Lisboa, Edmundo Bettencourt chegou a Coimbra em 1922. Aí, juntamente com o guitarrista Artur Paredes (pai de Carlos Paredes), revolucionou o fado da Lusa Atenas. Lado a lado com outras grandes vozes como António Menano, Edmundo Bettencourt cristalizou uma nova linha na interpretação da canção coimbrã impregnando-a de «um lirismo mais forte», nas palavras de Manuel Alegre. Rui Pato, músico associado à balada de Coimbra (é dele a viola na maioria do repertório que José Afonso e Adriano Correia de Oliveira gravaram na década de 60), refere-se a Edmundo Bettencourt como «o primeiro grande inovador». Foi ele que abriu o caminho para que, a partir de 1960, José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Luiz Goes pudessem levar mais longe não só a forma como o conteúdo da Canção de Coimbra.

Edmundo Bettencourt esteve também intimamente ligado a um importante movimento literário surgido em Coimbra em meados dos anos 20, consubstanciado na revista “Presença”, da qual foi elemento fundador, afastando-se em 1930 juntamente com Miguel Torga e Branquinho da Fonseca. Apesar da dissensão, Edmundo Bettencourt nunca se alheou das tertúlias e da discussão, construindo uma reputação de excelente conversador e observador atento das novas correntes, designadamente do movimento surrealista de Lisboa. Em 1963, a sua produção poética, a anteriormente publicada e a inédita, foi reunida no volume “Poemas de Edmundo de Bettencourt”. No prefácio, Herberto Hélder afirma que o autor de “O Momento e a Legenda” e “Poemas Surdos” é «um poeta», complementado: «E não há por aí máquinas maternas de produzi-los seriamente.» Nós permitimo-nos acrescentar que foi poeta e cantor.
Neste CD reúne-se a maioria das gravações feitas em finais da década de 20 (Fevereiro de 1928 e Dezembro de 1929). São verdadeiras matrizes de um sentir, de um viver, de uma paixão. Matrizes que perduraram no tempo tornando-se eternas. Espécimes como “Menina e Moça”, “Samaritana”, “Canção do Alentejo”, “Mar Alto”, “Canção da Beira Baixa”, “Saudades de Coimbra”, “Senhora do Almortão e Senhora da Póvoa” ou “Saudadinha” são obras-primas do canto português, palavras e melodias que o tempo se encarregou de tornar maiores do que a vida. Emblemas de uma alma. Em suma: peças intemporais.
[adaptado do texto, não assinado, inserto no caderno do CD “Edmundo de Bettencourt: O Poeta Cantor”, Discos Popular/Produções Valentim de Carvalho, 1999]

O 115.º aniversário do nascimento de Edmundo de Bettencourt é um bom pretexto para celebrarmos o insigne cantor e, por extensão, a canção de Coimbra, que tanto lhe deve, mas que tão maltratada tem sido pela rádio do Estado, mesmo depois da consagração pela UNESCO como Património Cultural da Humanidade, o que aconteceu a 22 de Junho de 2013.
Edmundo de Bettencourt gravou muito pouco e desse escasso conjunto de gravações nem todas saíram em disco. Apenas dezasseis espécimes, originalmente repartidos por oito singles de 78 rpm, com selo Columbia. É esse precioso acervo que agora apresentamos, com recurso a várias compilações em CD, escolhendo as faixas com menos ruídos parasitas e que melhor fazem justiça à belíssima voz de Edmundo de Bettencourt, uma vez que – e lamentavelmente – ainda está por fazer uma edição reunindo a integral do cantor, nela se incluindo os espécimes nunca editados (caso os registos ainda existam), com o devido tratamento do som que a tecnologia de hoje permite.
No respeitante às letras, autorias e discos, a fonte foi o completíssimo artigo de José Anjos de Carvalho, publicado no blogue “Guitarra de Coimbra“.

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