GIRO DO HORIZONTE – ESTRATÉGIA DO CAOS – por Pedro de Pezarat Correia

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O chamado Médio Oriente – designação pouco rigorosa porque subentende um determinado posicionamento geográfico do observador e que tem o sinal de uma perspetiva do mundo eurocentrada – e, mais concretamente, o Golfo Pérsico e a fachada leste do Mediterrâneo (chamemos-lhe, para simplificar, o Golfo Pérsico alargado) tem sido, desde os alvores da História, a região do mundo mais conturbada e de mais persistente conflitualidade. Não há aqui espaço para detalhar os fatores geográficos, identitários, políticos, económicos, que tornaram a região-berço das civilizações ocidentais palco privilegiado de conflitos permanentes. Mas basta registar que, quando grandes teóricos da geoestratégia contemporânea selecionaram e caraterizaram certas regiões do globo onde a conflitualidade é endémica, definindo-as como “cinturas fragmentadas” (Cohen), “zonas charneira” (Muraise), “zonas fragmentadas” (Fairgreeve), “fendas estratégicas” (Charnay), incluem sempre o Golfo Pérsico alargado como paradigma destas tipificações.

            Esta tendência agravou-se quando, com a entrada em cena do petróleo, a região começou a ser incluída nos chamados “interesses vitais” (aqueles cuja defesa justifica o recurso à intervenção armada) das grandes potências mundiais e, posteriormente, da potência imperial da era da globalização. Os conflitos identitários que hoje predominam a nível global, que têm como protagonista o mundo islâmico e como centro nevrálgico o seu coração, ou seja, o Golfo Pérsico alargado, são, em grande parte, respostas radicalizadas às influências e interferências do mundo ocidental.

            A situação tornou-se cada vez mais complexa até desembocar no caos atual. Foi patético, quando já era óbvio que se caminhava para o caos, ver como os responsáveis (?) políticos das potências ocidentais pareciam apostados em alimentá-lo. Este caos é produto de uma acumulação de erros dos próprios atores políticos locais, certamente. Mas o ocidente fez questão em fomentar alguns deles e em lhes acrescentar outros.

            Fixando-nos apenas na era pós-moderna da globalização, o caso do Iraque, com a guerra de agressão de 2003 da responsabilidade de Bush/Blair e a cumplicidade de Aznar/Barroso/Portas, que constituiu um colossal erro estratégico, terá sido o ponto de partida. Os resultados saíram todos ao contrário do que se pretendia.

Perante o fenómeno das “primaveras árabes”, o ocidente foi apanhado de surpresa e quis interpretá-lo à luz dos seus valores, dos seus padrões, dos seus modelos. Quando interferiu, com o sistemático argumento das armas, incapaz de entender os campos em confronto e de escolher os aliados, deixou a anarquia de todos contra todos.

A Síria foi o laboratório da asneira, elegendo Assad como inimigo principal optou pelo apoio a forças incipientes e desacreditadas que alargaram o espaço por onde se infiltrou o Estado Islâmico, a quem já tinha aberto as portas no Iraque.

Quando era evidente que ia precisar do apoio da Rússia alimentou um fator de conflito e de rutura na Ucrânia, abrindo uma segunda frente absolutamente marginal, autêntica manobra de diversão face ao esforço principal.

Depois de ter criado as condições para que o Irão se tornasse uma potência incontornável na gestão dos conflitos regionais, alimentou uma relação de ambiguidade ditada pelo sectarismo israelita sobre a questão do nuclear, que procura iludir o fundo do problema que reside na arma nuclear israelita.

Enquanto isto o ocidente cala, consente e apoia o massacre dos palestinianos por Israel em Gaza, criando todas as condições para que o Estado Islâmico venha a estender a sua influência à Palestina.

A Arábia Saudita, que com outras petromonarquias do Golfo, financia o Estado Islâmico, porque é sunita e os seus grandes inimigos são os xiitas da Síria, do Iraque e do Irão, continua a ser o grande aliado regional dos EUA.

E vê a Turquia, seu parceiro na OTAN, envolvida num labirinto em que, entre o Estado Islâmico, a Síria e os Curdos, acaba por considerar o primeiro, que Washington já classificou como inimigo principal, o mal-menor, aceitando o sacrifício dos guerrilheiros Curdos, única força que no terreno resiste ao avanço do Estado Islâmico. Curdos que, aliado impensável para a Turquia, recebem apoio material dos EUA apesar de ainda serem para Washington um “grupo terrorista”.

Demasiado confuso e paradoxal? Sem dúvida. E são apenas alguns afloramentos de uma situação que se tornou caótica.

O Estado Islâmico é uma ameaça real. Local, regional, global. Exige uma resposta assente numa estratégia coerente, viável, flexível nas várias vertentes, militar, diplomática, política, capaz de mobilizar vontades. Não há sucesso possível no combate ao Estado Islâmico que não passe por uma clara definição dos objetivos, por uma demarcação dos campos em conflito face a esses objetivos, por uma identificação e conhecimento racional do outro (o inimigo), por uma racionalização e articulação de meios, por um estabelecimento de tarefas e escalonamento de prioridades, por um enquadramento no contexto espacial e temporal que, na dimensão regional, contemple o problema da Palestina, a questão Curda, o equilíbrio entre as potências regionais Arábia Saudita, Turquia e Irão e que, na dimensão global, conte com o consenso das grandes potências mundiais, EUA, UE, Rússia e China para poder ser assumida e legitimada pelo Conselho de Segurança da ONU.

Lamentavelmente não se vê o mínimo sinal de que as coisas evoluam nesse sentido. Apenas se assiste a uma gestão, uma má-gestão, casuística do imediato.

 

27 out 2014

 

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