DOS COMPROMISSOS DA ESQUERDA DE ONTEM AOS FALHANÇOS TRÁGICOS DA ESQUERDA DE HOJE: QUESTÕES À VOLTA DE UMA SÉRIE DE CAPITULAÇÕES. – DOSSIER DECRESCIMENTO – DECRESCIMENTO MADE IN 1943

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Selecção, tradução e notas por Júlio Marques Mota

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DOSSIER- DECRESCIMENTO

Decrescimento made in 1943

 

JÉRÔME LEROY, Décroissance Made In 1943

Causeur nº 17, Outubro de 2014

 

Em 1943, era publicado o livro Ravage (Devastação) de René Barjavel. Considerada uma obra fundadora da literatura de antecipação à francesa, esta novela transformou-se num clássico nos colégios mas também foi criticado com vivacidade pela sua ideologia subjacente. Em plena política do regresso à terra à moda de Vichy, Ravage conta como é que as mentiras do progresso técnico conduziram a um desmoronamento tão brutal como violento da civilização, um dos temas repisados hoje pelo que é chamado de “a ecologia punitiva”. A história começa em 2052 numa Paris que conta vinte e cinco milhões de habitantes. O conjunto das actividades humanas é governado pela fada electricidade, da qual o homem se tornou totalmente dependente, incluindo no domínio da agricultura. Mas eis que, sem sequer gritar CUIDADO, a electricidade é um fenómeno que deixa de existir. No caos que se segue, nomeadamente um gigantesco incêndio que devasta a França, somente os personagens que não esqueceram de todo as suas raízes na terra e nos seus campos conseguirão sobreviver, e nomeadamente o bem conhecido François Deschamps. Na última parte da novela, este aparece já como muito velho e está à frente de uma tribo que vive de acordo com princípios extremamente rigorosos, proibindo qualquer inovação tecnológica como sendo intrinsecamente perversa. Ele vai nomeadamente destruir, num momento de fúria, uma máquina à vapor inocentemente inventada por um dos seus descendentes.

Ravage, hoje, coloca finalmente, por um engano da história, o dedo sobre uma das contradições e, quem sabe, sobre um dos pecados originais do pensamento decrescente. A sociedade dos sobreviventes dirigida por Deschamps é um modelo ecológico fundado sobre a troca: “Nada se vende, no mundo novo, quem não conhece o sentido da palavra “mercantil”. ” Mas esta simplicidade confina com a dureza da situação: poder patriarcal, proibição do álcool, destruição dos livros ainda existentes, excepto alguns volumes de poesia “que foram perigosos apenas para os seus autores”.

 

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