No dia 24, na Livraria da Adega, em Óbidos, Sérgio Godinho e a editora Quetzal fizeram o lançamento do seu livro “Vidadupla”, depois de na semana anterior o ter feito em Lisboa, na LerDevagar.
Sérgio Godinho reealçou o caminho arriscado que é trilhar novos projectos, novas formas de comunicar com o público que está habituado a vê-lo cantor e compositor. A verdade é que sente necessidade de de criar em sectores diferentes. Sérgio Godinho já antes fizera ficção juvenil – O pequeno livro dos medos, um livro de poesia editado pela Assírio e Alvim- O Sangue por um Fio, peças de teatro – “Eu Tu Ele Nós Vós Eles”, crónicas – Caríssimas Quarenta Canções e guiões de cinema -“Kilas, o Mau da Fita”.
Então a qual é a diferença entre escrever canções e escrever narrtivas que venham a constituir um livro? No objecto canção há duas vertentes, a palavra e a música. Mas as narrativas também têm a sua própria música, e isso sempre tem sido relançado por quem escreve.Este livro é composto por 9 contos, nove, como alguém referiu, também o número da gestação do ser humano. As matérias que o compoeem são tratadas individualmente, em narrativas não longas, mas densas: “Não são foguinhos, falam de morte, da ausência, da perda, de ter que encontrar referências”. Eu acrescentaria: e da velhice, da forma como ao envelhecer o ser humano se confronta com as rugas da sua cara e com a fragilidade. Mas há, isso sim, a procura de entender o “outro”. E é o olhar desse “outro” que as vai definindo também.”Vidadupla” porquê? Porque se faz existir em cada personagem o confronto consigo próprio, o confronto com os outros. Todos somos um ou dois em momentos diferentes do dia, da semana, da vida… As diversas personagens interpelam-nos, interpelam-se, pois andam sempre à procura de saber mais sobre elas próprias. O acto criativo é sempre solitário. Neste caso, em plena noite, em confronto consigo próprio e com as personagens que vai construindo. Personagens pouco definidas fisicamente, personagens sem nome, sem colocação geográfica.
“O que há num nome? Num banco de jardim estava sentada uma mulher, não lhe sabia o nome. Estava a ler.
E nós de pé a discutir, mesmo no silêncio, a lançar raios em olhares e frases curtas.
E então soube que a mulher sentada me olhou, porque olhei para ela. Tinha fechado a revista olhou-me. E eu tinha-a visto antes a fechar um livro, noutro lugar, sabia-o desde aí.
No chão estavam cascas de laranja e primeiras folhas caídas, os papéis voavam já, voava tudo. seria mais difícil romper a partir desse dia, o Outono instala-se pouco a pouco e não dará trégua o Inverno e ao seu calor aclimatado na cama aquecida, na fogueira, no passar frequente cabo raso das tormentas.
“Nunca mais é Primavera”, pensa-se exausto, a exaustão instalada no fim do mês de Março. Não queria chegar até aí, na Primavera oferecem-se flores.
Foi nesse dia que mudei de estação de fase da Lua e de fuso das vinte e quatro horas”.(pag. 57)


