Se o Big-Bang “exige” a existência de Deus, como, por estes dias, parece insinuar o papa Francisco, então é melhor dizer-se ateu. À luz das práticas políticas maiêuticas de Jesus Nazaré, que não tem nada a ver com o Jesuscristo do Credo de Niceia-Constantinopla, que todos os domingos continua a ser proclamado nas missas dos católicos e nos cultos das demais igrejas cristãs, e, consequentemente, à luz da teologia que emana dessas mesmas práticas, Deus jamais pode ser invocado para explicar ou justificar seja o que for. Fazê-lo, é reduzir Deus às nossas limitadíssimas categorias e, então, incorremos em idolatria. Aliás, a Bíblia dos judeus, dos cristãos, e o Alcorão dos muçulmanos, ainda que proíbam a invocação do nome de Deus em vão, são os que mais o invocam em vão. O mesmo se diga de todas as religiões. Partem todas do pressuposto de que Deus é necessário, inclusive, para justificar a existência de todas elas e garantir que a de cada um é a única verdadeira. Não se pense que estas são questões politicamente inócuas. Pelo contrário, a questão de Deus é a mais fundamental de todas as questões, levantadas pelos seres humanos. Por trás de todo e qualquer sistema de poder político, económico-financeiro, religioso-eclesiástico, anda escondida uma teologia, inevitavelmente, deísta. Inimiga dos seres humanos, porque amiga do poder. Quanto mais afirma Deus, mais nega os seres humanos. Um Deus necessário, como é o de todas as religiões e igrejas cristãs, é o grande inimigo dos seres humanos e dos povos. Quanto mais aquele cresce, mais estes diminuem. É um Deus projectado pelas nossas próprias limitações e/ou ambições pessoais, corporativas, nacionalistas. As pessoas religiosas, papa de Roma à cabeça, são as que mais invocam o nome de Deus em vão. É um Deus que torna tolerável o que é estruturalmente intolerável: – a existência do papado e demais sistemas de poder, geradores de vítimas em série. Porque Jesus Nazaré pratica/revela Deus, como pura graça, pura dádiva, é odiado por todos os crentes religiosos e por todos os poderes. E a Humanidade vai finalmente por Jesus, seu Deus, pura dádiva, sua Fé/teologia, ou não será!
29 Out.º 2014

