MITO&REALIDADE – TERROR E MORTE EM LISBOA – 7 – por José Brandão

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Para esse efeito, distingue o trabalho de um, então muito jovem, jornalista do Diário de Lisboa, jornal da tarde, nessa data ainda com menos de meio ano de existência. No seu número 171, de 24 de outubro de 1921, Luís Consiglieri Sá Pereira descreve o que se passara de uma forma que Cunha Leal transcreve na íntegra e sem alterações, como agora vai ser feito:

AS HORAS NEGRAS DA REPÚBLICA

MATEM, QUE MATAM UM BOM REPUBLICANO

As últimas horas de vida de António Granjo.

O Diário de Lisboa faz uma reconstituição do crime, que o capitão Sr. Cunha Leal, um dos homens que viveu a tragédia do Arsenal, perfilha absolutamente

Eram cerca de três horas e meia da tarde. Cunha Leal, completamente alheio ao movimento revolucionário, para que tantas vezes o tinham convidado, aguardava no seu modesto segundo andar da Avenida Miguel Bombarda o epílogo dos acontecimentos. Sua esposa fazia anos e este dia, que contava fosse de festa, de tristeza bem grande se devia tornar. Na sala de jantar, acompanhado de Pinto de Lima, Carvalho Santos e Júlio Pires, o ex-ministro das Finanças, analisava friamente a situação, dando balanço às probabilidades materiais de triunfo dos insurrecionais e também às suas probabilidades morais. Perto, nas avenidas andavam revolucionários em grupos, bloqueando a residência de António Granjo, que, assinada no Carmo a carta em que se demitia de chefe do Governo, no lar procurava refúgio a paixões politicas.

Súbito, um toque de campainha. Toque brando, de uma pessoa alheia à casa. Quem seria? Cunha Leal, receando uma surpresa, dirige-se à porta. Abre-a e depara com António Granjo, que se fazia acompanhar de um amigo apelidado de Simões, em casa do qual sua mulher já se encontrava refugiada. O chefe do Governo, em derrota, apresentou-se acabrunhado, abatido. Um abatimento, de resto, em que transparecia um grande desejo de marcar uma atitude digna, alheia a covardias. Pálido, no rosto refletindo o cansaço de uma noite de ansiedade que valia bem um século, o leader liberal, na sua voz roufenha, pobre de inflexões, agora mais apagada, falou ao seu antagonista político. Palavras breves. Palavras em que se adivinhava, ao mesmo tempo, nobreza, resignação e um desejo de salvamento. Vinha fugido a um grupo de marinheiros, civis e soldados da Guarda, que tentara assaltar-lhe a casa – explicou. Ele batia agora à porta de Cunha Leal, para pedir o favor de lhe dar guarida até à noite. Tencionava, a coberto das trevas, ir juntar-se à sua esposa. Cunha Leal, surpreso nos primeiros momentos, prontamente recobrou a serenidade. Não precisou de consultar a consciência: o coração falou primeiro. Ele, o homem que semanas antes pretendera bater-se em duelo com António Granjo e que há pouco ainda, a pedido deste, restabelecera com ele relações, respondeu com palavras cheias de franqueza. Declarou-se muito honrado em dar hospitalidade ao chefe do Governo demissionário. Não participava da rebelião, mas, como nela tinha muitos amigos pessoais, esperava que respeitassem a sua residência. Parecia-lhe inútil e inconveniente que à noite Granjo deixasse esse abrigo. Que ficasse, pois, até que o perigo desaparecesse.

O diálogo fora curto: o perseguido político daquele momento agradeceu num gesto em que havia muita ternura e comoção provocada pela nobreza de proceder de um homem que, então, com facilidade empolgaria o movimento insurrecional em marcha rápida para o triunfo.

… IRIA PARA COLARES OU QUALQUER OUTRO

ARREDOR ESPERAR QUE A TROVOADA PASSASSE

Como conseguira António Granjo chegar à residência de Cunha Leal? As traseiras da sua casa da Rua de João Crisóstomo dão para as de um prédio contíguo àquele em que vive o antigo deputado popular. Há quatro ordens de quintais, divididos por fracas vedações. A travessia foi fácil e passou despercebida. Depois, o presidente do Ministério, receando o ridículo, desprezou a escada de salvação, utilizando a ordinária, a que dava comunicação um corredor subterrâneo. Considerou-se meio salvo…

António Granjo, quando entrou na sala de jantar em que estavam reunidos os amigos de Cunha Leal, pretendeu sorrir. A sua perturbação era visível. Só conseguiu apresentar um arremedo de sorriso. Depois, com grande ar de fadiga, sentou-se. Fixou por momentos os campos vizinhos matizados de verdura, banhados por este sol acariciante de outono. Fez uma pergunta:

– Então.., que há?

Contaram-se cousas. Apresentaram-se as poucas notícias que tinham galgado aquele andar modesto das Avenidas Novas. Mas a conversa arrefeceu depressa: falava-se a custo. Granjo interrogou, cheio de dúvida:

– Mas o que é que eles querem?

Carvalho Santos, um dos presentes, recordou um boato:

– Doutor, mas eles dizem que você tinha ido para Mafra…

– Não. Estive no Ministério…

E contou quanto havia feito durante a noite e a manhã para reprimir o movimento. Teve uma confissão:

– Quando reconheci que estava perdido, verifiquei que já me não era possível sair de Lisboa. De contrário, embora isso se prestasse a troça, teria ido para Colares ou qualquer outro arredor, esperar que passasse a trovoada. O presidente da República tinha-me dado a demissão…

A conversa prosseguiu, mais animada agora. Foi lembrado por Cunha Leal um conselho dado ao presidente do Ministério no sentido de abandonar o poder. E ele, desolado, retorquiu:

– Mas é que eu estava convencido de que não havia nada. Todos os oficiais a quem, pela sua hierarquia, tinha o direito de fazer perguntas me garantiam que estava tudo bem, que não haveria novidade…

António Granjo fumou um cigarro. Bebeu chá. Ao respirar aquele ambiente cheio de tranquilidade, ele mostrava-se mais satisfeito, mantendo conversa franca com os presentes que, pondo de parte diferenças de opinião, procuravam dar uma ilusão de à-vontade àquela inteligência tão rudemente abalada. Mas dai por minutos a gravidade da situação patenteou-se novamente. Uma vizinha veio avisar a esposa de Cunha Leal de que os quintais estavam cheios de soldados e civis armados e de que estes tinham conhecimento de que se encontrava ali o chefe do Partido Liberal, devido a denúncia duma porteira do arruamento. Dado conhecimento do facto a António Granjo, o ex-ministro das Finanças recordou novamente as suas afinidades com elementos radicais, manifestando a sua convicção de que respeitariam a sua residência. Ele já ali estava há uma hora. Ainda não tinha havido novidade: esperava, pois, que tudo acabasse em bem.

António Granjo viu-se a breve trecho acompanhado somente por Cunha Leal e Carvalho Santos. Pinto de Lima e Júlio Pires, chamados à Baixa por afazeres inadiáveis, tiveram de partir.

ENQUANTO TIVER BALAS E REVÓLVER, RESISTIREI

O cerco apertava-se. Tanto a avenida como os quintais estavam cheios de gente armada que pacientemente esperava a presa. À cautela, Granjo recolheu a um compartimento contíguo aonde está o telefone da rede pública e da rede do Estado, que serve de sala de fumo. Era tempo. A esposa de Cunha Leal apareceu alvoroçada, ao comunicar que um civil, magro, de estatura mediana, capa de borracha no braço, acompanhado de dois soldados da GNR, tinha subido a escada de salvação, estando junto à porta da cozinha. Resoluto, o antigo deputado popular foi-lhes ao encontro. E, num repelão, disse:

– Esperava que, não sendo revolucionário nem tendo nada com a revolução, por ter bastantes amigos entre a vossa gente e a minha consciência dizer-me sempre procedi republicanamente, nunca deste movimento resultaria qualquer vexame para a minha pessoa. A bem, em minha casa só entra um homem com galões; exigirei à Junta Revolucionária que tenha essa atenção para comigo. De contrário, se quaisquer indivíduos pretenderem entrar aqui, enquanto tiver revólver e balas, resistirei. Vão dizer isso ao comité.

Fechou a porta num gesto de violência. Mandou cerrar as janelas. Fez ver que estava disposto a vender cara a sua vida e a que à sua guarda se confiara. Os homens, confundidos, retiraram-se.

A situação era quase desesperada. Carvalho Santos correu ao telefone oficial e pediu ligação para a presidência do Ministério, que só obteve depois de insistir muito com o empregado, que declarava precisar de autorização da Junta Revolucionária. Por fim, estabelecida a comunicação, falou do Terreiro do Paço o comandante da força insurrecional que ocupara as repartições públicas. Era o capitão Sousa Guerra, com quem se travou o seguinte diálogo, depois de Carvalho dos Santos se dar a conhecer:

– Acontece, senhor capitão, que, em volta da casa do Leal, tanto na frente como nos quintais, a pretexto não sei de quê, se estão formando grupos de militares e civis no propósito de a assaltar. Eu não acredito que estas coisas se façam com consentimento da Junta, mas você, Guerra, há-de reconhecer que, com consentimento ou sem ele, um ataque desta ordem, feito a uma pessoa como o Cunha Leal não faz sentido…

– É claro. O Cunha Leal está ai? Se está, diga-lhe que chegue ao telefone.

Cunha Leal prosseguiu a conversa, escutada ansiosamente por António Granjo:

– Pretendem invadir-me a casa a pretexto de que tenho alguém escondido. Já tentaram uma busca. É absolutamente necessário que tu passes pelo sítio aonde está a Junta Revolucionária e tragas o Afonso de Macedo e o Virgílio Costa até minha casa.

– Vou imediatamente. Procurarei trazê-los. Caso não os encontre, irei aí sozinho.

 

 

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