A Irlanda, a Água e Portugal! – por Joaquim Palminha Silva

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Algumas notícias colhidas nos jornais estrangeiros podem desfibrar a “saúde mental” da nossa desastrada Democracia… e embaraçar um pouco a nossa “bazófia” de País “civilizado”, e com suposta estima pelos seus bens públicos!

Abro o diário francês Le Monde (16/10/2014), e uma das suas sisudas páginas reserva-me enorme surpresa. Leio então que a Irlanda começou a dar pequenos e cautelosos passos, sem as muletas dos empréstimos externos, após sete anos de austeridade e de paciência, para aturar os atrevimentos e as obscenas exigências do FMI e da União Europeia (Banco Central Europeu).

Adiante, na mesma página leio… torno a ler… Um turbilhão de pensamentos e perplexidades ataca-me o raciocínio, sinto-me como que arrojado contra uma parede! Nada me salva de olhar para Portugal como quem olha para a miserável carcaça do que foi um “nobre povo”, nem sinais algébricos, operações cabalísticas, a regra de três, o clima, as litografias antigas dos reis, um apito do comboio! Nada evita o espanto! Leio novamente a página do Le Monde referente à Irlanda…

Sábado, 11 de Outubro de 2014, entre 50.000 e 100.000 manifestantes (o número dependente das fontes consultadas: polícia ou organizadores) desfilaram pelas ruas de Dublin contra a anunciada instauração (a partir de 2015) do pagamento da água da rede pública que, desde há muito, é de consumo gratuito neste país!

 Os detalhes que se podem mentalmente colher sobre a questão da água, propriedade pública inviolável, dão-nos uma ideia sobre o “estado europeu” em que se encontra Portugal, e o tipo de Democracia balbuciada que temos andado a praticar…

Eu não vou “descompor” a Pátria, mas sempre devo registar que o meu País não entende a existência da água como um bem público (proporcionado pela natureza) e, portanto, disponível gratuitamente! Não senhor!

Em Portugal, a água corre nas torneiras de maneira diversa: – Aqui, ao contrário da Irlanda, o Estado entende que a água é um excelente “negócio público”, a explorar pelos municípios!

Porém, como a água se gasta, descobriram os burocratas que servem o Estado, que “vendê-la às fatias”, por assim dizer, rende mais… Nasceu desta forma o interesse privado pelas águas no norte, centro e sul do País e, naturalmente, empresas que exploram estas águas! E mais uma vez divergimos da Irlanda, suplantando este país, não com frases rangentes donde sai um aroma fadista, mas com um grande sopro comercial!

Como se pode verificar, tudo foi possível sem protestos das multidões, pois do lado da cidadania (com excepção de alguns autarcas), da parte dos cidadãos “nem uma agulha buliu na quieta melancolia dos pinheiros do caminho”, como diz a poesia!

A estrondosa «nação valente e imortal», já só serve de rima para odes de museologia… Aqui tudo se vende, tudo se prostitui, até a água que Deus nos deu!

 

   

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